Santiago, 08 (AE) - Oito anos fora da presidência não foram suficientes para tirar o poder do ex-ditador chileno Augusto Pinochet de inspirar lealdade em alguns e rancor em muitos.
Em outubro do ano passado, no mesmo dia em que completou 83 anos, detido em uma clínica nos arredores de Londres, o general recebeu a notícia de que a Câmara dos Lordes, secular instituição britânica, decidiu que ele não tinha imunidade como ex-chefe de Estado, abrindo espaço para uma possível extradição para a Espanha, para ser julgado por assassinato, tortura e genocídio.
Sua detenção em Londres gerou uma complicada batalha judicial, à qual vários Estados europeus e grupos defensores dos direitos humanos se alinharam para pedir que ele seja levado a julgamento.
Em seu país, profundamente marcado pelas feridas abertas pela ditadura, o ex-chefe de Estado, que governou o Chile com mão de ferro de 1973 a 1990, ainda provoca emoções como nenhuma outra pessoa.
Odiado pela esquerda e idolatrado pela direita, Pinochet entregou o comando do Exército em março e tomou posse como senador vitalício, um direito que ele mesmo incorporou à Constituição promulgada em 1980.
Amigos e inimigos o chamam de "El Caballero" (o cavalheiro), por um lado em uma carinhosa referência ao ancião, por outro, em tom de desprezo pelo protótipo do outrora caudilho militar. Seus admiradores dizem que ele salvou o país das garras dos comunistas, mas seus críticos o condenam pelo sangrento golpe militar no qual depôs o democraticamente eleito presidente socialista Salvador Allende, em 1973, e a subsequente repressão contra aqueles que discordavam de seu mandato.
Pinochet encabeçou uma junta militar que tomou o poder depois do golpe e governou durante os 17 anos seguintes, com o Chile retornando à democracia apenas depois que o ex-ditador recebeu menos de 50% dos votos em um plebicito nacional sobre seu regime.
Durante a transição democrática, Pinochet negociou com os políticos para garantir que deixaria o poder sem represálias e conseguiu imunidade mediante a segurança de uma cadeira vitalícia no Senado. Os líderes da governante coalizão Concertación justificaram que outorgar a Pinochet uma vaga no Senado foi um preço razoável a se pagar em troca da democracia.
Os adversários de Pinochet, por outro lado, dizem que o privilégio constitui uma burla do sistema político. Como senador, Pinochet desfruta de privilégios que incluem a imunidade - rejeitada em 25 de novembro, pela Câmara dos Lordes, instância máxima do poder judiciário britânico.
Pinochet, que nasceu na cidade portuária de Valparaíso, 140 km ao noroeste de Santiago, em 25 de novembro de 1915, é um católico devoto.
Ele atribui sua fé religiosa a um acidente em sua infância, quando foi atropelado por um veículo e correu o risco de ter a sua perna esquerda amputada. Sua mãe, Avelina Ugarte, rezou por um milagre e escutou o conselho de um médico alemão, que disse que era necessário deixar a perna exposta ao sol.
Com a perna sã, Pinochet ingressou na escola militar aos 17 anos. Em 23 de agosto de 1973 foi nomeado comandante-em-chefe do Exército por Allende, a quem derrubaria três semanas depois. Allende morreu, no dia da tomada do Palácio La Moneda, de feridas de bala em circunstâncias até agora misteriosas. O presidente estava dentro do palácio quando a força aérea começou a bombardear o local e recusou- se a aceitar qualquer oferta para sair do Chile.
Pinochet proibiu os partidos políticos e dissolveu o Congresso, impôs toque de recolher por mais de uma década e perseguiu conhecidos militantes de esquerda, muitos dos quais foram assassinados ou desapareceram.
Cerca de 3.000 pessoas foram assassinadas ou desapareceram durante seus 17 anos de governo. Dezenas de milhares fugiram para outros países na tentativa de escapar da repressão militar. Sola Sierra, que preside o grupo Familiares de Presos Desaparecidos, disse que o legado de Pinochet foi estabelecer uma "casta prvilegiada" imune a qualquer castigo pelos crimes cometidos durante sua ditadura.
A oposição a seu estilo de governo sempre esteve latente. Em 1986, seus opositores atacaram seu automóvel próximo de San José de Maipó, ao sudeste de Santiago. O general sobreviveu ao ataque, mas cinco de seus guarda-costas morreram. Desde então, Pinochet sempre viaja em um dos três Mercedes Benz idênticos, que sempre vão em caravana, esperando confundir possíveis atacantes.
Um assumido admirador de Julio César, Napoleão e Charles de Gaulle, o general modelou seu autoritarismo baseado no generalíssimo Francisco Franco, da Espanha.
Pinochet e seus seguidores gostam de destacar suas conquistas, entre elas a paz com a Argentina e uma economia que é um modelo para toda a América Latina.
O escritor peruano Mario Vargas Llosa descreveu recentemente o regime de Pinochet como a única ditadura bem-sucedida da América Latina, ainda que tenha ponderado que as conquistas econômicas do Chile "estão manchadas de sangue". Pinochet teve cinco filhos com Lucía Hiriart, com quem casou-se em 1943. Há três anos, ao completar e comemorar 80 anos de idade, disse que, se tivesse oportunidade, seria capaz de fazer tudo de novo. Foi a forma que encontrou para demonstrar que arrependimento não fazia parte do seu vocabulário.

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