O poder da fé
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Diogo Cavazotti<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Em junho de 2009, o contabilista Adilson Botta, 68 anos, sentiu fortes dores no peito. O cardiologista consultado disse que poderiam ser diversos tipos de problema, menos algum relacionado ao coração. Após uma endoscopia descobriu que estava com um tumor maligno no esôfago. No primeiro momento Botta ficou abalado. Porém, em nenhum momento perdeu a fé em Deus. A religiosidade que sempre seguiu durante toda a vida ficou ainda mais forte.
Após a realização de diversos exames, ele descobriu que a cirurgia para a retirada do tumor era de alto risco. O médico avisou que de cada 100 cirurgias, 20 pacientes morrem e 50 não apresentam boa recuperação. Botta decidiu não fazer o procedimento. Um grupo de médicos avaliou a situação e optou por iniciar as sessões de quimioterapia. Depois de seis meses os exames apontaram uma significativa redução do tamanho do tumor. Botta segue o tratamento corretamente.
Todas as noites antes de dormir, Botta agradece a Deus e pede proteção para ele e para todos da família. ''Também peço que Ele me dê clareza para enfrentar tudo isso'', diz. As orações são repetidas de manhã, na cama mesmo, antes de levantar. Botta só vai à igreja quando não tem missa. ''Não gosto de padre. Eu gosto da minha religião'', explica o católico. Ele credita a melhora do câncer na fé que nunca abandonou. ''Não tenho dúvida disso''.
Com Ana Correia de Bastos, 58, não foi diferente. Ela nem se lembra quantas sessões de quimioterapia já realizou. ''Ainda faltam cinco'', conta. No início de 2009 ela descobriu 15 nódulos no intestino. Um deles era maligno. A cirurgia para a retirada do tumor foi um sucesso e as quimioterapias são realizadas para matar as células cancerígenas. Às vezes, os efeitos colaterais do tratamento pegam Ana de jeito. Os enjoos fazem com que perca o apetite, deixando-a mais fraca. Mesmo nos dias mais difíceis ela não esquece de rezar o terço inteiro, dado por uma amiga. ''Estou em pé por causa da minha fé'', avisa. Quando não vai à igreja, escuta religiosamente a missa pelo rádio.
A fé encontrada em pacientes com doenças graves chamou a atenção da psicóloga Joelma Ana Espíndula, que atualmente trabalha no Hospital de Câncer de Barretos (SP). Ela realizou uma pesquisa de doutorado, iniciada em fevereiro de 2006 e concluída em novembro de 2009, pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP).
O interesse pelo assuntou surgiu quando Joelma realizou um trabalho que tinha como tema as vivências de mães em situação de recidiva de câncer. Nos discursos, estas mães apresentaram a fé e a religiosidade como alívio, conforto e segurança para continuarem lutando pela vida. Quando atuou como pesquisadora de outra instituição, a psicóloga também observou que muitos pacientes mostraram a necessidade de se apegar a uma religião nas horas difíceis, como antes de se submeter a uma cirurgia ou outro tipo de intervenção.
''O mais expressivo nos resultados do estudo foi olhar para a dimensão da religiosidade e do sentido de vida dos pacientes e dos profissionais de saúde, independente de religião. A pesquisa mostra que a recuperação de pacientes está intimamente ligada à religião. As pessoas doentes se mostram mais confiantes para lutar pela doença'', conta Joelma.
Muitos dos pacientes entrevistados disseram que são ''sustentados e alimentados'' por meio de orações, dos ritos da igreja, das palavras da Bíblia e de participações em procissões. ''Eles mostram maior confiança, esperança e uma força interior para continuar superando o processo de tratamento da doença'', explica a pesquisadora.
Das pessoas que participaram da pesquisa, 50% eram evangélicos, 30% espíritas e 20% católicos. A maioria disse que o sentido da vida quando descobre a doença é a esperança de ser curado e continuar a viver o presente com os familiares.
Um dos entrevistados deu a seguinte declaração: ''Se não tiver fé a gente não caminha''. Joelma explica que, para alguns pacientes, a experiência do adoecimento serviu para fortalecer a fé e a esperança, como se dando conta de que a vida não dependesse apenas de si mesmos.


