''Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada deste teu mal'', diz Jesus à mulher que há anos sofria doente.
Apesar da combinação fé e cura de doenças remetar quase sempre a um milagre, essa relação tem mais explicações científicas do que se supõe. ''A fé é um catalisador da cura'', afirma o geriatra e psiquiatra norte-americano Harold Koenig, especialista em bioestatística e diretor do Centro para o Estudo de Espiritualidade e Saúde da Universidade de Duke, na Carolina do Norte.
Em Londrina, há nove anos um grupo de estudos formado por médicos e estudantes de medicina se dedica ao tema da relação entre o estado psíquico e a imunidade do organismo. ''A fé é um fator de amparo e esperança, que comprovadamente aumenta a sobrevida de pacientes com doenças terminais'', afirma a psiquiatra Sandra Nunes Vargas, docente da Universidade Estadual de Londrina. Em outubro, ela e duas imunologistas, Edna Maria Vissoci Reiche e Helena Kaminami Morimoto, publicaram artigo de revisão sobre o assunto na revista de medicina The Lancet Oncology.
Koenig, autor de 25 livros sobre o assunto, explica que a espiritualidade faz com que pacientes assumam uma postura mais otimista no tratamento de doenças graves, ''o que estatisticamente favoreceria a cura''. ''A fé desloca nosso foco de nós mesmos, faz com que o projetemos para fora. Quando estamos autocentrados, os problemas parecem grandes demais. Se você tem fé, transfere a responsabilidade pelos grandes problemas, como as doenças graves, a uma força maior, que é Deus'', afirma.
Segundo a psiquiatra Sandra Vargas, estudos comprovaram que o desamparo faz a pessoa adoecer, e o acreditar em algo, protege. Ela cita uma pesquisa dos anos 80 com ratos como exemplo - divididos em dois grupos, eles tomavam choque elétrico. Um grupo podia escapar. O outro não. Nos que não podiam escapar, e estavam portanto em situação desesperadora, a imunidade baixava. E nesse mesmo grupo, quando os cientistas injetaram células de tumor, a doença progrediu mais rápido e tiveram uma sobrevida menor.
Sandra explica que o fato de se sentir ameaçado aumenta a liberação de cortizol e adrenalina pelo cérebro, substâncias que podem levar o corpo a uma ''pane'', fazendo cair a imunidade do organismo. E o contrário, faz aumentar a produção de calmantes naturais, como as endorfinas. ''Nesse caso a percepção é de esperança. A religiosidade ajuda na medida em que não importa se o paciente vai morrer, mas como ele vai viver'', ressalta.
Koenig não crê que seja apropriado ao médico ''prescrever'' religiosidade. ''Acho que não cabe a um médico converter um paciente cético a uma religião, mesmo com o intuito de ajudar no seu tratamento. Mas, se o médico perceber que o paciente nutre crenças que podem ajudá-lo a se curar, não vejo mal que o profissional as estimule'', afirma.
Para o neurologista e psicoterapeuta Antonio Carlos Costardi, de Taubaté (SP), por mais que estudos revelem imagens onde algumas áreas do cérebro se mostram ativadas durante atos de fé, o sentimento é atributo do espírito e não do corpo humano. O cérebro, explica, seria apenas o órgão receptor dessa energia e redirecionador dessas, através dos circuitos neuronais, para os órgãos afetados.
''Mas diante das imagens ainda resta uma questão filosófica a ser respondida - de onde provém aquilo que está sendo visto? Dificilmente esta resposta será dada pela ciência enquanto não retomarmos as questões inerentes à filosofia para explicar quem somos, de onde viemos, e para onde vamos'', completa.

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