O pesadelo continua na Libéria com as crianças ex-guerrelheiras
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quarta-feira, 27 de outubro de 1999
Por Alexandra Zavis 
Monróvia, Libéria (AE-AP) - Mack tinha 8 anos quando recebeu uma arma e aprendeu a matar. Recrutado pelas forças leais ao ex-comandante militar Charles Taylor, ele foi colocado na Unidade de Meninos Pequenos, onde crianças menores de 10 anos eram programadas para ser alguns dos mais ferozes lutadores da brutal guerra civil da Libéria, que durou sete anos. Três anos após o final das lutas, Taylor é o presidente eleito deste país do oeste da áfrica, enquanto Marck sobrevive da melhor forma que pode com um pequeno bando de ex-lutadores e crianças sem teto nas ruas da capital costeira, Monrovia.
"Nós carregamos armas para o presidente. Agora que ele está na cadeira, não quer nos ajudar", diz Mack, um bravo menino de 15 anos, cujas características ainda infantis chocam-se com suas maneiras rígidas e as sobrancelhas quase permanentemente franzidas.
Na Libéria não é incomum obrigar as crianças a ir para o exército. A ONU estima que mais de 300 mil jovens estão armados ao redor do mundo em lugares como Serra Leoa, Sudão, Colômbia, Angola, Sri Lanka e Afeganistão.
Dados precisos não são disponíveis, mas pessoas que trabalham em agências de assistência concordam que muitos ex-jovens soldados da guerra civil liberiana terminaram nas ruas de Monrovia, onde prédios decadentes, alvejados por balas foram deixados muito antes da paz ser restaurada.
Retirados de suas casas antes de terem adquiridos educação básica ou qualquer conhecimento profissional, poucos lutadores infantis têm meios para reconstruir suas vidas após o final da guerra.
E as estruturas mais necessárias para ajudá-los, famílias, escolas, comunidades, foram destruídas pelas lutas que mataram 200 mil pessoas e desalojaram metade dos 2.6 milhões de habitantes.
Mack tinha apenas 6 anos quando viu os rebeldes de Taylor assassinarem dois irmãos e seus pais, membros do exército liberiano do ex-presidente Samuel Doe, em sua casa em Monróvia. Ele foi salvo por um rebelde que o reconheceu e pediu por sua vida. Depois de dois anos lavando as roupas dos guerrelheiros e fazendo outras tarefas, Mack foi levado para uma base rebelde para treinamento. Um mês depois ele foi para a guerra.
Perguntado sobre quantas pessoas matou, Mack encolhe os ombros. "As balas vinham de todos os lados....Eu não prestei atenção", conta, olhando pouco à vontade para um pedaço do plástico.
Um episódio continua, porém, a assombrá-lo. Capturado por uma facção rival, Mack lutou por sua liberdade, atirando num soldado, cortando o pescoço de sua esposa grávida, retirando o bebê de sua barriga com uma faca e cortando também o pescoço do bebê. "Eu estava louco", diz Mack. Ele tinha 12 anos.
Estima-se que de 6 mil a 15 mil crianças foram recrutadas por facções guerrilheiras. Apenas cerca de 4.700 foram desarmadas durante as repetidas tentativas de desarmamento entre 1994 e 1996. A mais jovem dessas crianças tinha apenas 6 anos de acordo com um relatório da UNICEF.
Muito mais guerreiros recrutados quando crianças foram mais tarde desmobilizadados quando adultos. A maioria das crianças têm pelos menos um parente vivo e acredita-se que tenham sido reunidas, pelo menos inicialmente, a suas famílias, diz a UNICEF. Mas o desarmamento e o processo de desmobilização foram caóticos, marcados por recorrentes explosões de luta e grandes faltas de suprimentos. A grande maioria das crianças ex-combatentes simplesmente entregaram suas armas, passaram por um rápido processo de documentação e saíram andando, afirma a UNICEF. Organizações defensoras dos direitos das crianças estão tentando descobrir o que aconteceu com todas elas.
Organizações de ajuda internacional montaram centros de apoio imediatamente após o final da guerra para facilitar a volta das crianças guerreiras para a vida civilizada, mas muitos fecharam.
Apenas alguns dos grupos, nenhum deles financiado pelo governo, continua a oferecer abrigo, aconselhamento ou treinamento para os ex-guerreiros e outros jovens também afetados pela guerra.
O governo diz que está falido e não tem os meios para ajudar, especialmente no que diz respeito à segurança no norte do país, onde insurgentes escondidos na Guiné cruzaram duas vezes a fronterias neste ano para realizar ataques. "Para o governo, as crianças não são prioridade no momento, mas segurança é ", disse Joe Hena, coordenador de bem-estar social da Dom Bosco, uma entidade da igreja católica. "Eu acho que melhor segurança é conseguir meios de empregar essas pessoas".
A Don Bosco ajuda cerca de 450 das cerca de 4 mil crianças, ou seja, apenas uma fração dos ex-lutadores, que vivem ou trabalham nas ruas de Monróvia.
Como Mack, muitos dos ex-combatentes ficaram órfãos durante a guerra, diz Selma Gibson, uma assistente social da Dom Bosco. Outros voltaram para casa e descobriram que seus pais haviam fugido. Além disso, outros foram rejeitados por suas famílias porque haviam sido soldados ou descobriram que seus pais estavam muito pobres para cuidar deles.
Algumas das quais a Dom Bosco conseguiu reunir com suas famílias voltaram para as ruas ou foram absorvidos por uma das ramificações da segurança do governo. Acostumados a defender-se por si mesmos, muitos não gostam de viver sob a autoridade dos pais, diz Gibson. Eles estão também acostumados a ter dinheiro, através do roubo, e muitos são também sexualmente ativos, tornando difícil viver em casas empobrecidas onde todos dormem num único quarto.
Stephen Willie tinha 12 anos quando tornou-se um dos treinandos do programa profissionalizante em 1991. A princípio, ele ia ao local apenas para alimentar-se e conseguir roupas. Mas
gradualmente, com aconselhamento, ele interressou-se pelos cursos de construção e carpintaria. Finalmente, decidiu-se a voltar para a escola. Agora, aos 20, ele terminou o segundo grau em julho e espera ir para a universidade para estudar engenharia civil.
Willie é uma das histórias de sucesso do programa. Muitos dos seus amigos caíram fora e voltaram para o front. A maioria, diz ele, morreu lá. "Tirar a arma de uma pessoa e tirar a pessoa das armas são coisas diferentes", diz Willie. "A as armas vivem nele, você não pode tirá-las dele".
Mack participou de aulas de cerâmica após ser desmobilizado, mas desistiu após uma semana porque ficou sem dinheiro para transporte.
Violento, sincero, ele foi tomado como um quase pai de seus amigos e presta atenção a eles cuidadosamente. Mas ele é também uma criança. Ele anseia por atenção e fica aborrecido quando não consegue. O grupo dorme amontoado num pedaço de papelão numa varanda, exceto quando chove, o que acontece com certa frequência, e o lugar fica muito úmido para que eles possam dormir. Eles sobrevivem da venda de fios de cobre que procuram em prédios destruídos, lavando carros ou mendigando do lado de fora dos supermercados.
Comida pode ser difícil de conseguir em alguns dias, mas o grupo fortemente unido consegue cuidar de um pombo que sobrevoa os ombros de um menino pequeno enquanto os mais velhos contam sobre seus achados do dia.
O amigo de Mack, Michael, foi sequestrado por forças leais a Taylor e forçado a lutar. Perguntado se sentia medo, ele balança a cabeça dizendo que os comandantes davam a ele "bolhas", anfetaminas, e ópio antes de mandá-lo para as batalhas.
"Eu via qualquer um, eu queria apenas destruí-lo", diz Michael, um menino de 15 anos aparentemente frágil e de aparência amável. "Um humano parece uma animal aos meus olhos". Michael quer apenas duas coisas de seus ex-comandantes, agora no governo. "Eu só quero que eles me mandem para a escola e me dêem um lugar para dormir, isso é tudo", diz ele com um sorriso tímido. "Se eu puder ir para a escola eu posso mudar de vida".


