Desde os seus primórdios, a Igreja Católica teve papel atuante junto a questões que não estão apenas restritas à religião
Desde os seus primórdios, a Igreja Católica teve papel atuante junto a questões que não estão apenas restritas à religião | Foto: Shutterstock



Desde os seus primórdios, a Igreja Católica teve papel atuante junto a questões que não estão apenas restritas à religião. Seja na Idade Média, com a divisão da sociedade entre clero, nobreza e servos, ou na relação estreita com o Estado na época do Brasil colonial e imperial. Tantas décadas depois, esta conduta mudou de perfil e se manifesta de outras formas, o que muitas vezes gera a insatisfação de grupos conservadores ou liberais, principalmente em uma época de divisões políticas no País.

Recentemente, Londrina foi palco de uma polêmica. Durante a realização do 14º Interclesial das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), em janeiro, cartazes enaltecendo o PT (Partido dos Trabalhadores) e Lula levantaram o debate em torno da atuação da igreja. A Arquidiocese de Londrina e a organização do evento trataram a atitude como isolada e provocada pelo gesto de poucos participantes, que foram repreendidos tempo depois do hasteamento das faixas. Também foi feito um minuto de silêncio pelo julgamento do ex-presidente, o que fez com que pessoas contrárias associassem as CEBs a partidos de esquerda.

Responsável por divulgar vídeos que viralizaram na internet e que reprovaram com veemência a suposta vinculação das CEBs com movimentos sociais e partidos, o jornalista e tradutor Bernardo Küster aponta que o ocorrido na cidade não foi pontual. "O problema central não é só as faixas. As CEBs, por si só, não têm caráter político, pois não foram criadas para este fim. Mas, foram absorvidas a partir de 1968 pelos movimentos de esquerda no Brasil e isto está registrado em vários testemunhos. Elas fizeram parte da fundação do PT e ajudaram na criação da CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e UGT (União Geral de Trabalhadores)", elenca.

Para ele, o Interclesial produziu "uma série de estratégias políticas e isto se configura no uso da igreja como instrumento partidário". "Em virtude do enfraquecimento da esquerda nacional, estão tentando se organizar por meio das CEBs, a utilizando como uma linha auxiliar importante", acredita. "O partido tem fins políticos e que se restringem a este plano. Já a igreja não visa simplesmente uma salvação social, mas das almas. Então, limita a ação da igreja quando você partidariza."

VERTENTES
De acordo com o padre Manoel Joaquim Rodrigues dos Santos, responsável pela paróquia Sant'Ana, na zona sul, Londrina recebeu o evento nacional de uma parcela específica que constitui a Igreja Católica. Ele exemplifica que estes grupos nasceram nos anos 1960 e 1970, no contexto de Ditadura Militar. "As CEBs estavam ligadas à esquerda porque no passado o PT acabou nascendo praticamente dentro deste ambiente. Porém elas vão muito além desta partidarização, pois representam a ponta da Igreja Católica, onde muitas vezes a coisa é mais difícil, como a luta pelos índios, terras, água e moradia", expõe.

O sacerdote conta que no entender da Arquidiocese de Londrina, a reação das pessoas em relação aos fatos ocorridos foi desproporcional e demonstrou desconhecimento sobre o que é o lado social do catolicismo brasileiro. "A arquidiocese e a organização do evento deveriam ter previsto o uso político-partidário das CEBs", avalia. "Por outro lado, a arquidiocese teve nas mãos a chance de explicar a Londrina inteira e aos paroquianos o que é este jeito diferente de ser igreja."

Santos também reconhece que a Igreja Católica é constituída por duas vertentes, mas que isso não significa conservadores e liberais. "Existe aquela (vertente) mais moralizante, com o estabelecimento de normas e remetendo para uma dimensão mais intimista do relacionamento com Deus, como se Deus não pudesse se 'sujar' com a política, economia e vida familiar", pontua. "Do outro lado existe uma corrente mais endossada pelo Papa Francisco, com uma espécie de visão mais atualizada, no sentido do evangelho de Cristo, sendo mais envolvida e maculada pela realidade do ser humano. Ou a Igreja Católica caminha com Francisco ou é melhor começar a rever uma série de coisas."

A reportagem procurou o arcebispo de Londrina, dom Geremias Steinmetz, mas foi informada pela Pascom (Pastoral da Comunicação) que ele estaria em viagem e não poderia atender ao pedido de entrevista até o fechamento da reportagem. Em novembro do ano passado, quando completou três meses a frente da Arquidiocese de Londrina, o arcebispo comentou que encontrou uma comunidade católica dividida, na cidade. Durante o lançamento do Ano do Laicato (leigos), Steinmetz fez um pedido aos fiéis: "Os que estão muito lá na frente, que esperem um pouco. Já os que ficaram para trás, esses vão ter que acompanhar as mudanças. Tem fiéis com uma noção de catolicismo que não se encaixa mais nos tempos atuais."

'Tentam pegar carona na missão da igreja'

Sacerdote da Arquidiocese de Londrina há quase 20 anos, pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, na região sul da cidade, padre Romão Martins ressalta que a missão da Igreja Católica é fazer com que as pessoas se tornem discípulas de Jesus Cristo. Neste discipulado, ele sustenta que são pregados os valores do evangelho cristão, como a igualdade, promoção da vida, fraternidade, justiça e o favorecimento da prosperidade para todos.

Neste processo, Martins reconhece que partidos políticos e outros movimentos ligados a ideologias tentam abarcar estes lemas e se envolverem com a religião. "Quase todos os partidos defendem a mesma coisa, como o desenvolvimento para o País, uma realidade com mais empregos. Muitos, com estas bandeiras, tentam pegar "carona" na missão da igreja. É claro que dependendo do seguimento, o partido se sente mais atraído", indica ele, que em breve irá assumir a paróquia São Vicente de Paulo, também na região sul.

O padre destaca que a igreja tem que exercer papel político, mas não vinculado a denominações ou ideologias. Ele cita como exemplos a atuação da Arquidiocese de Londrina com o movimento "Pés Vermelhos, Mãos Limpas", que mobilizou os londrinenses contra a corrupção no início do milênio, e a defesa para aprovação da Lei da Ficha Limpa no Congresso Nacional, inclusive na ajuda com a coleta de assinaturas de populares por todo o Brasil.

"Precisamos ter perspicácia para não nos deixarmos instrumentalizar por partidos e ideologias. Nosso papel político é exigir que quem está no poder possa, de fato, promover uma sociedade justa para todos. Temos que ter uma postura crítica, principalmente para aqueles que prometem e não cumprem. Também diante da corrupção e malandragem. A igreja não pode ficar indiferente aos desmandos da política, não importa se são de partido A, B ou C."

Com um histórico de diversas missões em lugares precários pelo Brasil, ele garante que a opção da igreja pelos mais pobres não significa que ela está aceitando uma posição política, mas que está seguindo o evangelho, dando atenção para aqueles que mais sofrem. "Todos somos influenciáveis e temos nossas ideologias. Muitas vezes conscientemente, outras inconscientemente, muitas por conhecimento ou por ignorância. O discernimento é saber separar aquilo que é meu daquilo que eu quero para as pessoas", pontua, assinalando o papel do clero. "O líder religioso precisa aprender a trabalhar a cidadania. A escolha quem faz é a pessoa", acrescenta.

'Não existe religião sem política'

Para o professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e doutor em ciências sociais, Fabio Lanza, não existe neutralidade no campo social, o que abrange a Igreja Católica. A própria ideia de isenção, segundo ele, pode ser ocasionada por pessoas que defendem uma opção, seja a de posicionar-se ou não, sobre determinado assunto. "Não existe religião sem política e, talvez, política sem religião no Brasil."

Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Religiões e Religiosidades da UEL, Lanza aponta que apesar de existir uma única Igreja Católica Apostólica Romana, podem ser encontrados inúmeros grupos e formas de organização dentro deste "manto institucional". "Quando as pessoas não entendem esta diversidade, não aceitam. Mas, quando dialogam, o reconhecimento é mais tranquilo", explica.

Ele lembra que os documentos oficiais católicos trazem muito destas diferenças. O especialista cita a postura que vem sendo adotada pelo Papa Francisco, que indica um processo de reconhecimento das diferentes identidades, e ainda o tema da Campanha da Fraternidade de 2018, lançado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) nesta semana, colocando em pauta o debate sobre a violência no País. "Isto é uma postura política", defende.

Lanza considera que a relação com o campo político faz parte da própria história da igreja. "O diálogo entre religiões e política na atualidade pode ser salutar. Os que defendem a neutralidade não podem esquecer nosso próprio passado", frisa. "É benéfica a relação que os militantes das CEBs ou de qualquer outro grupo católico possa estabelecer com práticas políticas, partidárias ou não. Desde que lutem pela democratização, educação e outras políticas públicas de qualidade", elenca.

"A Igreja Católica não tem manifestação partidária. Não existe nenhum documento que expresse apoio exclusivo a uma legenda. Isso não quer dizer que a política não possa ter apoio ou participação dos mesmos. Esta relação é dos católicos, não da igreja", salienta.

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