Jerusalém, 20 (AE-NEWSWEEK) - Um ilustre historiador diz que os esforços do papa João Paulo II para reunir muitos credos o tornam um exemplo que os filhos de Deus devem seguir. Reconciliação, palavra- chave no vocabulário cristão, é a meta das atividades do papa nesta virada do milênio.
Em nenhum outro caso o esforço para reconciliar e se reconciliar é mais evidente do que em dois atos que os meios de comunicação dizem "não ter precedentes". Um é o pedido de perdão por todo o mal que a Igreja Católica Romana praticou, principalmente contra pessoas de outros credos. O outro é a viagem à Terra Santa, onde os filhos de Abraão, cristãos, judeus e muçulmanos vivem num conflito imemorial. Não vai ser fácil, mas com seus esforços o papa tenta ensinar que nenhum filho de Deus deve furtar-se à tentativa de reconciliação.
No século 21, nem todos os termos cristãos são mais facilmente apreendidos do que "reconciliar". Empregamo-lo para falar de famílias que, após a separação e até o ódio, procuram e experimentam a liberdade que vem quando elas se reconciliam. O vocabulário dos cristãos vem das Escrituras, principalmente do Novo Testamento. Com esse vocabulário eles traçam quadros de reconciliação em duas dimensões bem diferentes, mas relacionadas.
Eles pensam numa no sentido vertical: Deus e os seres humanos. A outra é horizontal: seres humanos e seres humanos. Nas cartas de Paulo eles lêem que "Deus esteve em Cristo reconciliando o mundo contra ele próprio, não usando as faltas de ninguém contra eles".
A maioria dos 2 bilhões de cristãos atuais vê na cruz e na atividade reconciliadora de Deus um amor divino, habilitador. Eles vêem no Cristo reconciliador alguém que concede poderes aos reconciliadores inabaláveis Martin Luther King, papa João XXIII, Dorothy Day, Desmond Tutu e tantos antônimos que combateram o abuso. Todos eles têm o mesmo Jesus e a mesma figura do Novo Testamento, e "outros" Jesus diferentes, deles próprios.
A cruz nos escudos dos cruzados nada mais é do que algo a que o doente de câncer se apega numa prece desesperada e consoladora. Se reconciliar-se com Deus é uma obra acabada que o crente passa a experimentar, a reconciliação com seres humanos nunca termina e é uma experiência árdua, conforme este papa está descobrindo há anos e vai constatar imensamente esta semana.
Esta dimensão "horizontal", de humanos para humanos, ingressa no vocabulário cristão por meio da forte influência do livro que os cristãos chamam de Antigo Testamento e portanto tem origem judaica. Jesus reflete isso no Sermão da Montanha: "Se você está trazendo sua oferenda para o altar e ali lembra que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferenda ali diante do altar, vá e se reconcilie com seu irmão primeiro, depois volte e apresente sua oferenda."

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