CAMPO GRANDE - Algumas regiões do Pantanal mato-grossense poderão secar com a implantação da hidrovia Paraguai-Paraná. O alerta é de Steven Hamilton, PhD pela Kellogg Biological Station, de Michigan, Estados Unidos. Tornar o rio Paraguai navegável 24 horas por dia durante todo o ano é um projeto conjunto do Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina.
O Paraguai é o principal rio do Pantanal. Apenas nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, o Pantanal diagrama 140 mil quilômetros quadrados. ‘‘Para tornar o rio navegável, é necessário o aprofundamento do seu canal através de drenagem’’, explica o biólogo Alcides Farias, integrante das Organizações Não Governamentais (ONGs) Ecologia e Ação (Ecoa), com sede em Campo Grande, e da Rios Vivos, formada por ecologistas das Américas.
‘‘Além disso, as obras vão provocar a retirada de rochas, o corte de curvas do rio e vão provocar prejuízos incalculáveis à fauna e à flora’’, acredita Alcides Faria. Os estudos do cientista norte-americano sobre os impactos ambientais com a implantação da hidrovia foram feitos a pedido da Rios Vivos.
Segundo o biólogo Alcides Farias, os estudos do Comitê Intergovernamental da Hidrovia (CIH) - composto por técnicos dos cinco países envolvidos no projeto - subestima em muito os impactos resultantes da drenagem, retificação de curvas e retiradas de rochas propostos para o sistema fluvial dos rios Paraguai-Paraná-Plata.
O projeto original da hidrovia é tornar a região navegável para embarcações de até 3,3 metros de calado, numa extensão de 3.400 quilômetros que vai do município de Cáceres, no Mato Grosso, a Nueva Palmira, no Uruguai. A Bolívia se ligaria à hidrovia através do canal do Tamengo, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul. De Assunção a Buenos Aires e Nueva Palmira o rio já comporta o tráfego de grandes embarcações.
A área de influência da hidrovia chega a 720 mil quilômetros quadrados, abrangendo uma população de 40 milhões de habitantes. A implantação da hidrovia acabou se tornando um dos assuntos mais debatidos no final de semana em Campo Grande durante Encontro de Ecologia do Mercosul (Ecosul 96). O projeto começou a ser discutido pelos cinco países em 1988.
‘‘Uma pequena diminuição, da ordem de apenas 25 centímetros no nível de água do rio Paraguai durante a estação da seca, que pode perfeitamente ser provocada pelas obras propostas abaixo de Corumbá, poderá provocar uma seca total na eco-região de Cuiabá, no Mato Grosso’’, diz o cientista norte-americano Steven Hamilton.
‘‘Esse tipo de alteração ambiental pode ocorrer mesmo sem as intervenções no Rio Paraguai acima de Corumbá, pois resultariam na diminuição do nível de água neste rio que, através de seus tributários, tem um papel extremamente importante na regulação do nível de água nos vários ecossistemas que compõem o Pantanal’’, salienta o cientista norte-americano.
Steven Hamilton diz ter constatado que os modelos matemáticos utilizados pelos consultores contratados pelo Comitê Intergovernamental são inadequados para tratar da situação existente no Pantanal, ‘‘já que não conseguem incorporar a importante questão das planícies ali inundadas anualmente e que recebem um imenso volume de água. Além disso, mesmo sem considerar esse equívoco, registra-se uma insuficiência de dados estatísticos que permitam concluir, como fazem os estudos oficiais, que o Pantanal não sofreria impactos com o projeto proposto’’.
O coordenador da Comissão Técnica da Rios Vivos, Maurício Galinkin, mestre em estudos regionais na América Latina pela Universidade de Londres, argumenta que a ‘‘regularização artificial do regime hidrológico do Rio Paraguai, pretendida pelo megaprojeto, alteraria uma dezena de diferentes ecossistemas do Pantanal que, anualmente, registra um pulso de cheia e seca que dá o ritmo para a natureza e para as populações locais’’.
Maurício Galinkin também acredita que há, ‘‘inclusive, a possibilidade de desertificação de várias áreas do Pantanal, no longo prazo, dada a composição arenosa que boa parte de seus solos apresenta’’.
Segundo o biológico Alcides Farias, do Ecoa, o projeto prevê dragagem, retirada de rochas e retificação de curvas no leito do rio Paraguai em 12 pontos do Pantanal, abaixo de Corumbá, numa primeira etapa, e acima dessa cidade, numa segunda fase, em outros 141 trechos.
‘‘Mudanças no regime hidrológico resultarão num aumento na intensidade das secas e das cheias e irão comprometer a reposição de nutrientes no Pantanal e conduzirão a um decréscimo na produtividade biótica’’, alerta Victor Miguel Ponce, hidrólogo e catedrático pela Universidade de San Diego, na Califórnia.
Dúvidas como a do cientista norte-americano Steven Hamilton, de que parte do Pantanal poderá virar deserto, segundo Alcides Farias, já haviam surgido entre os ecologistas no mês passado, durante reunião do Comitê Intergovernamental em Buenos Aires. ‘‘Esse encontro foi solicitado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que financiaria a realização dos estudos oficiais com cerca de US$ 10 milhões’’, observa Farias.
Ele diz que os participantes desse painel em Buenos Aires recomendaram um estudo mais rigoroso do projeto, ‘‘pois os custos para realizar as alterações propostas nos rios Paraguai e Paraná poderão ser muito maiores que as estimativas dos consultores oficiais, o que repercutiria na viabilidade econômica da obra’’.

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