O Panamá transforma o canal
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quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Lisa J. Adams 
Colón, Panamá (AE-AP) - Salas de aula onde generais latino-americanos já estudaram as artes da guerra estão sendo transformadas em quartos de hotel cinco estrelas, com impressionantes vistas para o lago Gatun. Do lado de fora, no local em que tropas aprenderam técnicas aquáticas, turistas irão divertir-se em passeios de pesca.
Mais ao leste, na densa floresta tropical onde as tropas norte-americanas treinaram para enfrentar as selvas do Vietnã, visitantes de todos os lugares do mundo vão hospedar-se em hotéis de veraneio ecologicamente corretos e farão observação de pássaros.
Converter ex-bases militares norte-americanas em atrações turísticas representa grande parte do ambicioso plano mestre que o governo panamenho delineou para a antiga zona do canal - uma faixa de 30 quilômetros por 80 quilômetros de instalações civis e militares transferida para o poderio panamenho no dia 31 de dezembro.
Seus planos para os 93 mil hectares de terras e 7 mil prédios é transformar o canal e suas redondezas, que não representavam nenhum lucro para o país, num centro internacional para comércio
produção e turismo.
Os planos incluem portos para navios cruzeiros nas entradas no Atlântico e no Pacífico, museus, campos de golfe, shopping centers, comunidades de pesquisa acadêmica, complexos industriais e serviços completos para frotas marítimas.
"Especialistas dizem que nós seremos a Cingapura das Américas", diz Carlos E. Anguizola, gerente de promoção da Autoridade Interoceânica Regional, o órgão do governo responsável pelo desenvolvimento da região do canal. A agência deve receber US$ 1,5 bilhão em investimentos, incluindo US$ 500 milhões apenas em turismo, diz Nicolas Ardito-Barletta, o primeiro diretor da autoridade de desenvolvimento.
Na ex-escola das Américas, cujos alunos incluíram o último ditador do Panamá Manuel Noriega, Anastasio Somoza da Nicarágua e Augusto Pinochet do Chile, o Hotel Meliá Panamá instalar-se numa região de floresta que se sobressai no deslumbrante lago Gatun.
O projeto de US$ 25 milhões deve incluir duas enormes piscinas para adultos, uma terceira para crianças e diversos restaurantes especiais.
"Muitos ditadores passaram por aqui, mas agora o lugar vai se tornar um centro de turismo, a maior expressão da liberdade"
diz Zenon Jimenez, diretor de vendas do projeto.
Os planos de desenvolvimento para a ex-zona do canal também incluem hotéis para ecoturismo que irão oferecer passeios pela região e mostrar a rica flora e fauna do corredor biológico entre as Américas do Norte e do Sul.
O arquiteto Frank Gehry, cujo trabalho inclui o proclamado Museu Guggenheim em Bilbao, na Espanha, desenhou um aquário de peixes que os membros do projeto esperam instalar no antigo Forte Amador, no oceano Pacífico.
Os autores do projeto querem transformar os portos em ambas as entradas do canal em centros de serviços marítimos. Empresas privadas investiram milhões de dólares na modernização e expansão dos terminais, que foram entregues ao Panamá nos anos 80 e privatizados na última década.
Funcionários do governo produziram coloridos cadernos que apresentam a nação do istmo como "a terra dourada", "o melhor segredo guardado do mundo" e "o cruzamento do mundo".
Mas eles devem provar que podem fazer melhor do que Noriega, que converteu as ex-propriedades norte-americanas em local militar e permitiu a deteriorização da primeira estrada de ferro das Américas a ligar um oceano a outro, construída em 1855 para carregar os aventureiros da corrida do ouro para a Califórnia.
Dois projetos que se candidataram para Forte Amador ainda enfrentam problemas. Alfredo Arias, o novo diretor da Autoridade Interoceânica Regional, anunciou no final de fevereiro que investidores haviam desistido de dois projetos, totalizando US$ 460 milhões que incluíam dois hotéis de luxo, vilas em ilhas e apartamentos, um campo de golfe de 18 buracos, centros de convenção e cassinos.
Arias disse que o governo vai procurar novos investidores. Ainda em curso para Amador estão os planos para um porto para navios cruzeiros, uma marina e outros hotéis de luxo.
Os autores do projeto também precisam convencer as 2,8 milhões de pessoas do Panamá, cuja taxa de desemprego chega a 13% e onde cerca de um terço da população vivem na pobreza , que o programa de desenvolvimento irá dar certo.
Mesmo os trabalhadores panamenhos, cujo salário mínimo é de apenas US$ 250 por mês, sentem-se pressionados a acreditar nos outdoors que pontuam a cidade do Panamá proclamando que "o canal é para todos".
Gandhi Andrade, um estudante de marketing de 24 anos, está entre os céticos. "Eles disseram que a terra iria reverter-se toda para os panamenhos, que iria pertencer a todos nós", diz. "Mas ele não devolveram nada para a população".
Albens Diaz, um guarda de segurança de 33 anos, diz que muitos pensaram que a transferência do canal iria reduzir o desemprego. "Mas os desemprego aumentou", disse ele. "Nem em curto ou longo prazos o canal vai beneficiar as pessoas".
Ardito-Barletta, o ex-diretor da autoridade do desenvolvimento, insiste que a população do Panamá será beneficiada.
Os projetos em processo criaram milhares de empregos para os panamenhos e irão gerar mais, disse ele. Além disso, afirma, o plano mestre dedicou mais de mil hectares e antigos prédios norte-americanos para moradores de baixa renda, escolas, grupos de assistência, aparelhos de recreação e terminais centrais de ônibus por onde irão circular mil coletivos por dia.
A maioria dos investidores envolvidos nos projetos atuais são panamenhos, lembra Ardito-Barletta, e apenas um quarto são de norte-americanos.
"Nós não podemos dar um acre de terra para cada panamenho. Mas podemos dar a todos os panamenhos o benefício do desenvolvimento deste local", diz ele.
"Se nós tivermos 500 mil turista comendo em restaurantes, quem produzirá a comida? Os agricultores. Quem vai levar os turistas para os diversos locais na cidade? Os taxistas. Então, quando eles dizem Eu não recebi nada deste movimento todo eles não sabem do que estão falando".
Roberto Eisenmann, um ex-editor de jornais que é conselheiro econômico e social do presidente Mireya Moscoso, também diz que os benefícios irão aparecer.
"Não importa o que nós façamos com essas áreas, vai ser muito mais benéfico do que era antes", afirma. "Não pode ser algo mais ineficiente sob o ponto de vista econômico do que um bando de soldados sentados pelas redondezas e esperando por uma guerra que nunca iria acontecer".


