O NARCODITADOR
Fernandinho Beira-Mar, o bandido-traficante, mostrou mais uma vez quem manda no presídio de segurança zero Bangu I. Seu principal inimigo, Ernaldo Pinto de Medeiros, o ''Uê'', foi recebendo golpes de punhal e tiros até morrer. Depois, os carrascos envolveram o corpo dele em colchões e cobertores para reduzi-lo a cinzas. Mais três tiveram o mesmo fim. No final, satisfeito, o maior traficante do Brasil sorria, feliz. Ele é, com exclusividade, o novo rei absoluto do pó.
Capturado na Colômbia no ano passado, Beira-Mar foi levado para a carceragem da Polícia Federal em Brasília. Deitou e rolou, debochou da CPI do Narcotráfico e as autoridades, medrosas, trataram de despachá-lo para o Rio de Janeiro, onde outras autoridades, também medrosas, não queriam recebê-lo. No Bangu I, as conversas telefônicas interceptadas em escutas feitas a pedido do Ministério Público, demonstraram os seus planos de expansão no tráfico e a execução brutal de oponentes. Os promotores entraram no Bangu I com policiais federais e militares, ignorando o totalmente omisso Departamento do Sistema Penitenciário e, na hora da blitz, proibindo até o secretário da Justiça de entrar no presídio. Agora, as autoridades, querendo demonstrar que fraqueza virou sinônimo de força, defenestraram o diretor de Bangu e colocaram as Polícias Civil e Militar para tomar conta do presídio, dando assim mais um atestado de falência para a já pulverizada autoridade do Governo. A propósito, não se trata, aqui, de malhar a atual governadora e o ex-governador. Trata-se de escancarar o descalabro. Só.
Tanto o presidente do Tribunal de Justiça como o procurador-geral, chefe do Ministério Público, manifestaram-se a favor der intervenção federal para uma profilaxia sobre o império da cocaína, encastelado em fortalezas nos morros, onde uma tropa incalculável de usuários, dependentes e simpatizantes retro-alimenta o poderio da narcoditadura. Porque o neologismo? Por três razões: 1-) à imagem e semelhança dos algozes dos porões da ditadura militar, a narcoditadura sequestra, tortura e mata; 2-) a narcoditadura impõe toques de recolher, aterroriza os moradores dos lugares onde se instala e determina se comércio e escolas podem funcionar ou fechar as portas; 3-) a narcoditadura se converteu num poder de fato, apavorando as instituições do Estado, inertes e impotentes diante de quem manda na realidade. Não é mais poder paralelo. Paralelo, agora, é o Estado.
A estratégia de Beira-Mar não passa de investimentos e lucros. Deu-se ao luxo de aplicar um marketing eficiente, como escolher o dia 11 de setembro, quando a memória da humanidade se voltava para a derrubada das torres gêmeas em Nova York, para o massacre em Bangu I. É esta mesma escória que deu fim ao jornalista Tim Lopes. São esses eunucos morais que dão ordens, torpedeiam e intimidam. Estou acabando de escrever um livro sobre Tim, jornalismo investigativo, crime organizado e tráfico de drogas. Desculpe: meu estômago não para de embrulhar. Se algo me acontecer, você já fica sabendo por quê.





