Curitiba

Albari RosaDurezaEmbora achasse ruim a vida no batalhão, ‘Palhinha’ experimentaria coisa pior como desertor. Depois da fuga, ele ficou escondido dois meses numa fazenda do interior de Minas Gerais. ‘‘Pensei que a poeira iria baixar, mas havia retratos meus espalhados por todo o Estado’’, recorda. Daí, o ex-recruta vendeu tudo o que tinha para ir morar no Espírito Santo. Depois, percorreu outros cinco estados até chegar ao Paraná.O murro na cara do sargento, a corrida desesperada, o pontapé no portão. Foram esses os últimos atos do soldado Palhinha. Em seguida, a fuga do quartel foi sua primeira missão como desertor. Três anos e meio depois, ele decide contar sua história à sociedade. ‘‘Jamais quis servir ao Exército’’, desabafa o ex-recruta mineiro, hoje radicado no Paraná após passar por sete Estados do País. ‘‘Portanto, não faz sentido essa vida de fugitivo’’, completa.
Palhinha, ídolo do passado e do presente do Cruzeiro, é um nome fictício. O ex-soldado prefere o anonimato para evitar que a Polícia do Exército (PE) o localize. ‘‘Todos sabem que os militares mantêm ativo o serviço secreto de informações’’, ressalta o jovem de 23 anos. Ele vive atualmente na Região Metropolitana de Curitiba, onde trabalhou como vendedor em uma agência de turismo até pouco tempo atrás, quando largou o emprego.
Aliás, abandonar o emprego é uma rotina de Palhinha desde que deixou o Exército para trás. Sem o certificado de reservista, ele não pode tirar a Carteira de Trabalho. A falta do documento sempre impede sua contratação passados os três meses do prazo de experiência. ‘‘Sabia que seria assim’’, resigna-se o ex-recruta, consciente de uma das consequências de sua atitude naquela manhã de dezembro de 1993.
‘‘Suportei 98 dias de cão lá dentro’’, lembra o desertor. Segundo ele, o sargento que agrediria mais tarde o perseguiu desde a entrada no batalhão. ‘‘Mal me apresentei e fui colocado como ‘laranja’, obrigado a dormir no alojamento toda noite, mesmo tendo lugar para ficar na cidade’’, conta. Indignado com a limitação, Palhinha quase sempre se recolhia ao quartel com atraso - após às 22h30 - e não era liberado no dia seguinte.
O ex-soldado revela que o sargento insistia em ofendê-lo constantemente. ‘‘Ele também me levava para o escritório, onde dava tapas no meu rosto sem que houvesse testemunhas, pois sabia que a palavra de um suboficial vale mais que a de um recruta’’, relata. Palhinha acredita que seu desafeto orientava a Polícia do Exército a espancá-lo quando fosse encontrado fora do quartel e depois do horário de recolhimento: ‘‘Ele marcava os meus passos’’.
Embora achasse ruim a vida no batalhão, Palhinha experimentaria coisa pior como desertor. Depois da fuga, ele ficou escondido dois meses numa fazenda do interior de Minas Gerais. ‘‘Pensei que a poeira iria baixar, mas havia retratos meus espalhados por todo o Estado’’, recorda. Daí, o ex-recruta vendeu bicicleta, vaca, roupa, tudo o que tinha para ir morar no Espírito Santo. Já em Vitória, conheceu um homem que prometeu emprego de barman em Goiás.
A promessa não foi cumprida e o desertor trocou Morrinhos por Goiânia, onde conseguiu trabalho numa fábrica de calçados. Os primos militares o informaram que a PE estava em seu encalço e ele partiu para Ilhéus, Litoral baiano. Dali, foi ser copeiro num restaurante de Vila Velha (ES). Uma mulher o convenceu a tentar a vida no Rio de Janeiro, o que mudaria drasticamente sua vida: ‘‘Virei dançarino de boate estilo ‘Clube de Mulheres’ e conheci a cocaína’’.
Sob o efeito da droga, Palhinha chegava a ficar três dias sem dormir. Cheirou tanto que a cartilagem que separa as narinas foi totalmente corroída - seu nariz parece quebrado, como o de um boxeador. ‘‘Estava deprimido pela saudade da família e dos amigos e metido em um ambiente péssimo, o que aumentava minha dependência da droga’’, conta o ex-recruta. Resultado: para ganhar mais dinheiro e comprar cocaína, ele passou a se prostituir.

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