'O mundo caiu sobre minha cabeça'
O mundo caiu sobre minha cabeça
Edson MazzettoSem-terra retirados das fazendas em Catanduvas, ocupadas há nove dias, foram deixados na beira da estrada, a 20 quilômetros do acampamentoOs sem-terra que ocupavam a área em Catanduvas relataram que os policiais dispararam muitos tiros, mas não souberam informar se as balas eram de borracha. Segundo eles, a maioria dos homens foi algemada. José de Souza, 30 anos, relatou que os policiais deram chutes em homens e mulheres. João da Silva, 30, contou que tentou correr para fora do barraco, com as mãos para o alto. E um policial disparou dois tiros de verdade em minha direção. Ele ainda afirmou ter visto mulheres levarem coices.
Souza, Silva e José Klassmann, 44 anos, foram encontrados à tarde, com o que sobrou de suas tralhas, à margem da PR-471, a 20 quilômetros do acampamento. Eles não sabiam para onde ir a maioria das famílias foi levada em caminhões para seus locais de origem. Klassmann, bóia-fria em Céu Azul, estava desolado: Dei azar. Cheguei ontem à noitinha para tentar um pedacinho de terra e na madrugada o mundo caiu em cima da minha cabeça. Ele e os outros dois asseguram que logo estarão em outra ocupação. Não há outro jeito para nós.
Na Delegacia de Catanduvas, permaneciam presos até o final da tarde de ontem oito dos 113 sem-terra, apontados como líderes, portadores das armas ou que teriam resistido à ação da PM. É o caso de Lucimara de Andrade, conhecida líder de ocupações na região. O delegado Donizete Botelho, que tomou depoimento de todos, permitiu à Folha contato exclusivo com Lucimara (que pediu para não ser fotografada atrás das grades). Ela disse que a ação da PM, em termos de civilidade, foi mais ou menos, mas depois admitiu: na parte que eu vi, não houve brutalidade.
Segundo ela, um sem-terra foi ferido no braço, aparentemente com uma bala de borracha. O delegado Botelho informou que foram lavrados flagrantes contra os oito presos, mas eles poderiam ser liberados ainda ontem sob fiança de dois salários mínimos para cada um. A coordenação estadual do MST deveria enviar um advogado a Catanduvas, para encaminhar a soltura e levantar informações sobre a ação da PM. Em Cascavel, o major Avelino Novakoski, do 6º BPM, que coordenou a ação, classificou a desocupação como bem-sucedida e com repercussão extremamente positiva.





