O Mercosul em ponto de reflexão
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quarta-feira, 07 de julho de 1999
Por Marcela Valente, da IPS (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires (AE-IPS) - O Mercosul atravessa um momento crítico devido à queda do comércio e da atividade na Argentina e no Brasil, seus principais sócios, mas mesmo assim segue sendo um dos principais pólos de atração de investimentos estrangeiros diretos. Assim declarou o principal negociador argentino no bloco, Jorge Campbell, no seminário "O Mercosul em uma encruzilhada", realizado antes da reunião anual da Associação de Bancos da Argentina, o principal fórum de debate econômico deste ano no país.
Campbell, secretário das Relações Econômicas Internacionais da Chancelaria argentina, tentou dar um tom mais otimista quando o ceticismo e a incerteza predominam no Mercosul, vítima de um aparente estancamento com a queda do comércio interno e externo no último ano. Sobre a série de críticas feitas a este suposto estancamento da marcha de negócios entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, Campbell destacou que, apesar dos problemas, o bloco segue sendo um dos principais destinos do investimento estrangeiro direto do mundo. Mais de 100 bilhões de dólares em investimentos chegaram ao Mercosul nos últimos anos, um mercado de cerca de 190 milhões de habitantes, destacou. "O Mercosul é uma zona de certeza econômica, de paz, de democracia e onde seus países aplicam políticas macroeconômicas sãs", descreveu Campbell em resposta às críticas de economistas, exportadores e banqueiros. No entanto, ele também admitiu que o Mercosul é um exercício de realidade. "Não se pode compará-lo com um Mercosul teórico que não existe, porque nunca teremos um Mercosul mais sério ou mais prolixo que os países que o compõem", advertiu.
Por outro lado, Felipe de la Balze, economista da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais, disse em um discurso, anterior ao de Campbell, que "nos últimos cinco anos caiu fortemente o dinamismo negociador do Mercosul". De la Balze atribuiu essa percepção, em parte, à falta de vontade política dos governos, preocupados com questões domésticas. Outro fator é a cultura que persiste. "Não foi em vão que tivemos 50 anos de protecionismo até a morte na Argentina e Brasil", disse. Nesse sentido, o presidente da Associação de Exportadores do Brasil, Marcos Pratini de Moraes, sustentou que seu país "está hoje tão fechado como há 15 anos, e mais fechado do que há 30 ou 40 anos", e agregou que a Argentina também está assim em alguns aspectos. A economista Beatriz Nofal, da consultoria Eco Axis, defendeu que o Mercosul deve definir se está disposto a avançar para uma união aduaneira nos próximos 18 meses e cumprir com o acordo ou se limitará a ser uma zona de livre comércio, uma opção de compromisso menor.
De la Balze, mais pessimista, considerou um terceiro cenário, que implicaria voltar aos anos 70, durante os quais só se falava de integração em discursos grandiloquentes, mas os países da região se mantinham fechados ao mundo e a seus vizinhos, disse. Defendendo os políticos, o candidato à presidência do Uruguai do governante Partido Colorado, Jorge Batlle, admitiu que a luta contra as tendências protecionistas nos países do bloco "é uma tafera de titãs" e, por isso, os avanços devem ser medidos contra essa resistência. Quanto às críticas ao ritmo de negociação, Batlle disse que não se trata de forçar o cumprimento das metas, porque então se poderia chegar aos prazos com uma fortaleza protecionista quando o desejável seria convergir para uma união aduaneira com tarifas as mais baixas possíveis.
Campbell sustentou que o Mercosul é a resposta regional ao novo paradigma internacional que exige que os países estejam associados para uma melhor inserção no mundo. Nisto coincidiu com o economista Martín Redrado, da Fundação Capital, que, no entanto, afirmou que a conjuntura é de ceticismo e de incerteza. "É um momento de reflexão. Ou avançamos aprofundando a convergência e fazemos da crise uma oportunidade, ou entramos em uma letargia que transformará o bloco em uma coletânia de boas intenções", advertiu.


