Dor, impotência, pesar, culpa a morte desperta sentimentos que as pessoas não querem sentir. Falar sobre a morte, ou mesmo se preparar para enfrentá-la, não é tarefa fácil, apesar de todos sabermos do inevitável se estamos vivos, vamos morrer um dia e também nossos pais, filhos, a pessoa amada, os familiares mais queridos, os amigos. Hoje, Dia de Finados, quando os vivos relembram e prestam homenagens aos familiares e amigos que já se foram, cabe a reflexão: como lidar com a morte?
A psicóloga Ana Elisa Salomão Bosquê, de Londrina, explica que a questão é um tabu para boa parte das pessoas, apesar do ser humano vivenciar a perda e a separação desde que nasce. ''É muito difícil falar sobre o assunto, porque a morte está ligada à questão do fracasso, da impotência, da degeneração, da decomposição. As pessoas não querem falar, não querem olhar''.
A primeira perda que o ser humano sofre, segundo a psicóloga, acontece cada vez que a mãe se afasta do bebê. Depois, continua quando a criança começa a andar e perde o colo e a atenção total dos pais. ''O crescimento vai fazendo a gente perder algumas coisas, porque você faz escolhas. Apesar disso, para a criança todos os heróis são jovens e fortes e não morrem jamais''.
As ''loucuras'' dos adolescentes se originam do desejo de desafiar e vencer a morte. A maturidade está em perceber que nem tudo é reversível. ''Quando se percebe que é finito, mortal, vem o desejo de formar família, ter filhos, se perpetuar. Quando se diz que para ter uma boa vida é preciso escrever um livro, plantar uma árvore e criar filhos, isso nada mais é que o desejo de não morrer''.
Se enfrentar a morte não é fácil, tentar ignorá-la, sufocando a dor e as lágrimas, pode ser pior. O luto, explica Ana Elisa, precisa ser vivenciado. É o período em que a pessoa vai chorar a perda e elaborar como a vida vai ser daquele momento em diante, sem a pessoa querida. ''O luto é um período de transição para uma vida diferente''.
Não falar sobre o assunto, tentar escondê-lo, segundo a psicóloga, não é a melhor solução. ''Tem pessoas que fazem aquele pacto de silêncio, ninguém fala sobre o assunto para não instigar a dor no outro, parece que ficou 'feio' sofrer. As pessoas não têm estrutura para suportar o sofrimento do outro, mas, o que poderia estar acontecendo é justamente o contrário, um poderia acolher o outro'', explica.
A dor e o pesar também estão ligados à maneira como ocorreu a perda. Mães que perderam o filho, por exemplo, estão entre os piores sofrimentos; afinal, espera-se que as crianças tenham uma vida inteira pela frente e que os pais envelheçam e partam antes delas.
A morte súbita também é sinônimo de dor profunda, já que não permite despedidas, aquela última conversa e um possível acerto de contas. Ao contrário da morte causada por uma doença grave, que permite à família esperar a morte, e muitas vezes até desejá-la para acabar com o sofrimento do doente. ''A doença te põe de frente com a morte''.

mockup