Ninguém disse que seria fácil. A vida é um ciclo que está nas mãos de cada um decidir se ele será vicioso ou se cada volta será um recomeço. Cada indivíduo é responsável pela própria felicidade e mesmo que ela pareça estar distante, com muitas pedras no caminho, qualquer pessoa tem a capacidade de buscar o colorido da vida. Basta enxergá-la com outros olhos.
É justamente essa lição de vida que faz de duas histórias diferentes, mas semelhantes pela luta e superação, exemplos a serem revelados. Uma delas é a de Ana Paula Luiza de Andrade, de 27 anos. Ela é cadeirante desde os 3 anos e vive sozinha, sem nenhum familiar, há 12. Hoje, Ana mora em uma casa própria no Residencial Vista Bela, na zona norte, está prestes a concluir o ensino fundamental e planeja ser advogada.
Se a trajetória fosse vista apenas dessa forma, muitos poderiam dizer que a vida não foi tão árdua quanto parece. Mas esse é o grande fato dessa história. Ana Paula não fica se lamentando e nem faz cara feia ao relembrar seu passado. Muito pelo contrário.
Ao receber a equipe em casa, se mostra muito atenciosa e feliz. Ela abre o portão com um largo sorriso enquanto dá orientações ao cão companheiro ''Sansão'' para não pular nas visitas. Oferece o sofá, deixando todos à vontade e agradece o interesse por ela.
Nascida prematura aos seis meses, na Santa Casa de Londrina, Ana Paula passou os três primeiros anos de vida internada, sem ver a luz do dia. Nesse período, passou por várias cirurgias até descobrir que não poderia andar. Filha caçula de quatro irmãos, Ana Paula não tem mais nenhum contato com eles, apenas lembranças da infância. Aos 5 anos, retornou ao centro cirúrgico devido a queimaduras de terceiro grau no braço e orelha. Foram mais doze cirurgias por conta do acidente ocorrido em casa.
O pai, Ana Paula só conheceu anos mais tarde, pois ele abandonou a família antes mesmo dela nascer. ''Hoje estou acostumada a morar sozinha. Minha mãe lutou muito por mim, mas com o tempo começou a ficar depressiva e já não estava bem da cabeça. Um dia, quando voltei para casa depois de ficar internada novamente no hospital, a casa estava vazia. Abriu um buraco diante de mim. Ela está desaparecida desde os meus 15 anos'', conta.
Sozinha e com limitações, Ana Paula passou um ano mudando para casas de amigos e parentes distantes, até que ela se encorajou a morar sozinha. ''Aluguei um cantinho com o dinheiro que recebo da Previdência Social e esperei até os 18 anos para conseguir na Cohab transferir o cadastro da minha mãe para meu nome'', diz, ao se referir à residência própria, liberada há um ano.
Por conta das inúmeras internações e o tratamento contínuo com fisioterapia, Ana Paula só estudou até a 1 série do fundamental. ''Os médicos falaram que minha mãe tinha que decidir se eu estudava ou me tratava. Ela optou pela minha saúde e me ensinava a ler e escrever em casa'', conta. Hoje, Ana Paula está concluindo o ensino supletivo do fundamental e inicia em 2013 o ensino médio.
Ao ser questionada pela opção em cursar Direito, Ana Paula fala do pai. ''Ele nunca acreditou em mim. Ele tinha preconceito e nunca me aceitou como filha. Além disso, quero ajudar outras pessoas que passam pela mesma situação a buscar os seus direitos'', relata, ao comentar que o pai faleceu há dois anos.
Quanto aos sonhos, o maior deles é reencontrar a mãe. ''Não reclamo da vida. Cheguei até aqui sem passar por cima de ninguém. Sou uma lutadora e cada dia que acordo agradeço a Deus por eu estar viva e pela luta que minha mãe encarou para me dar amor e toda a assistência que eu precisava'', diz com orgulho.
Sensível e muito carinhosa, Ana Paula não deixa de fazer um pedido de Natal. ''É um presente que é muito difícil de eu ganhar, mas eu queria minha mãe de volta para festejar o Natal e Ano Novo comigo. Eu não festejo porque é a época que me dá mais saudade e não tenho família'', conta em lágrimas, que duram pouco. Logo ela enxuga o choro e deixa transparecer o motivo pelo qual sua história é tão emocionante.
Ana Paula abre um grande sorriso e diz que a vida é generosa. ''Desejo que as pessoas nunca percam a fé. Se não deu certo hoje, sempre digo que uma hora vai dar. É preciso ter esperança e lutar'', conclui com uma alegria do tamanho do seu amor pela vida. ''Sou 100% feliz.''

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