Lisboa (AE-NEWSWEEK) - Os portugueses gostam de pensar que eles não foram como os outros conquistadores. Considerem Francisco Serro, o segundo europeu a alcançar as famosas Ilhas das Especiarias. Ele se apaixonou à primeira vista pela ilha de Ternate em 1512, e se instalou como emissário comercial e rei. O alto cavaleiro conduzia cerimônias em sua reluzente armadura, tomou a filha de um sultão como esposa e nunca mais voltou para casa. "Ele era uma figura como Lord Jim", disse Charles Corn. Em "Os cheiros do Eden: Uma história do comércio de especiarias", Corn escreve que Serro "foi contra todas as tendências" e via a si mesmo como "o mandatário de um mundo novo e melhor em um casamento entre o Ocidente e o Oriente".
É assim que Portugal quer ser lembrado na ásia. Conforme deixam sua última posse imperial em Macau, os portugueses olham para trás com nostalgia para um marcante império que durou quase 600 anos e que ia do Brasil à China. Quando a era colonial passou, críticos atacaram os portugueses como os primeiros europeus a colonizar a ásia, os últimos a irem embora - e os que não deixaram nada para trás. Ao contrário dos britânicos, eles construíram escolas, cortes e outras instituições fracas. Mas em Portugal, novas novelas e memórias oferecem uma visão romântica dos portugueses como os conquistadores que todos amavam, junto com uma visão cada vez mais cândida e triste do colapso catastrófico do império em 1975. "Como um país tão pequeno foi capaz de formar um império? Portugal era especial", disse o embaixador de Lisboa nas Nações Unidas, Antonio Monteiro. "Nós não fomos colonialistas. Mesmo em nosso auge éramos como uma colônia britânica. Nós compartilhamos o sofrimento das pessoas".
No século 20, a pobreza realmente trouxe os portugueses para mais perto de seus vassalos. O ditador Antonio de Oliviera Salazar, que governou de 1932 a 1968, adorava dizer que o dinheiro não traz felicidade. Ele impôs um regime de estagnação a Portugal e suas colônias, que ele nunca visitou - mas insistia em chamar de "províncias felizes". Como os primos pobres da Europa, os portugueses se aventuraram para a áfrica ou ásia buscando não apenas fortuna, mas qualquer emprego. Em Angola, onde Monteiro cresceu nos anos 40 e 50, "negros com dinheiro iam à escola com brancos, e brancos pobres compartilhavam as mesmas horríveis condições de vida com os negros. É claro que havia algum racismo, mas não havia nenhum apartheid".
Nos anos 50, o sociólogo Gilberto Freire argumentou que a vontade dos portugueses de se adaptarem aos modos tropicais explica a harmonia social em seu Brasil nativo. Salazar mais tarde usou a teoria de Freire do "lusotropicalismo" para defender o império, e estas obscuras teorias raciais ainda ecoam em Lisboa. Oficiais apontam que as elites de raças mistas de Angola, Brasil e Macau, e o prevalecimento dos nomes portugueses nestas antigas colônias, como provas de que o domínio português foi abraçado calorosamente. Talvez, mas houve mais no domínio português do que uma brilhante disposição. Se a Grã-Bretanha mandou famílias para construir colônias, um Portugal pobre mandou exploradores solitários e missionários sem planos claros para governar - e nenhuma mulher. Na maioria dos territórios portugueses, a Igreja tinha mais influência do que Lisboa. E Macau era o elo mais fraco. "Portugal simplesmente não tinha músculos para o trabalho pesado. Em Goa, eles eram um mosquito nas costas da Índia", disse o historiador Timothy Coates. "Macau foi única. Era portuguesa. Era chinesa. Era governada pelos dois e por ninguém".
A visão rosada do império português também cita a tragédia de seu declínio e queda em 1975. Depois de lutar por 13 anos para manter as colônias rebeldes africanas, o exército português defendeu a ditadura em Lisboa, e depois se retirou do império tão abruptamente que novas guerras surgiram no caos desde Angola até o Timor Leste. Novas memórias de ex-governadores e soldados estão revivendo as guerras sujas na áfrica, incluindo massacres e assassinatos cometidos pelos portugueses, no que o historiador Doug Wheeler chama de uma "agonizante morte" da colonização. Mas não do império. Depois que o Timor Leste ganhou a independência da Indonésia neste verão, o líder timorense Xanana Gusmão começou a pregar a volta da língua, da moeda e da legislação portuguesa. "Isto é ótimo para o ego português", disse Adelino Gomes, vice-editor do Público, um jornal de Lisboa. "Isto sugere a eles que estavam certos em acreditar que o domínio português foi especial".
O legado em Macau é menos seguro. Depois de 1975 expatriados deixando a áfrica foram para Macau, aumentando a população portuguesa de 3 mil para 10 mil nos dias de hoje. Eles ajudaram a persuadir Lisboa a construir um novo aeroporto e um novo instituto de estudos orientais como um bastião da cultura portuguesa. Mas isto irá durar? "Em 20 de dezembro diremos adeus em português. Eles dirão adeus em chinês. E então iremos embora", disse Gomes. "Poucos portugueses acreditam que nossa presença irá durar os 50 anos que a China prometeu". E então Portugal será apenas uma próspera pequena democracia na Europa. Ainda especial o suficiente.

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