Havana, 11 (AE-AP) - Fidel Castro aparentemente assumiu um grande risco ao enviar Juan Miguel González aos Estados Unidos para resgatar seu filho Elián, de seis anos.
Os parentes de González em Miami disseram que o pai de Elián falou certa vez em mudar-se para os Estados Unidos. O próprio González tem dito que os exiliados cubanos em Miami ofereceram a ele dinheiro para desertar e criar seu filho nos EUA.
Mas especialistas em Cuba afirmam que os riscos de Fidel são mínimos. Mesmo se González já tenha considerado emigrar para os Estados Unidos, ele agora se sente obviamente em dívida com Fidel e com uma nação de 11 milhões de habitantes que fizeram de Elián um herói-mirim, mobilizando milhares de pessoas diariamente para gritarem por seu retorno.
"Não acho que Fidel esteja correndo qualquer risco em particular", disse Wayne Smith, um estudioso de Cuba que serviu como diplomata-chefe dos EUA em Havana durante as administrações Reagan e Carter. "Acho que Fidel está absolutamente confiante de que o pai quer seu filho e quer retornar à Cuba".
Ainda assim, existe provavelmente algum risco envolvido, afirmou Susan Eckstein, uma professora de sociologia da Universidade de Boston especialista em Cuba.
"Você não sabe o que pode ser prometido ao pai", disse Eckstein. "Se a comunidade cubano-americana trabalhou tão duro sobre Elián, ela poderia trabalhar com a mesma dureza sobre o pai".
Mas ao invés de desertar quando desembarcou em Washington na quinta-feira, González agradeceu ao povo cubano e a seu líder pelo contínuo apoio.
Fidel, afirmou González, "tem sido como um irmão, me dando conselhos e apoio durante nossos longos dias de dor e incertezas".
Os parentes de González em Miami e seus partidários afirmaram por meses que o pai de Elián não iria aos Estados Unidos para reclamar seu filho porque o governo de Fidel temia que ele decidisse ficar.
O pai disse que apenas queria garantias de que seu filho seria devolvido rapidamente a ele. "Os cubanos de Miami iriam apenas me enrolar em seus jogos políticos", disse González em meados de janeiro, recusando-se a viajar aos Estados Unidos até que tivesse certeza de que conseguiria recuperar o filho.
O governo dos EUA ofereceu a garantia a González vários dias antes de ele partir.
Smith afirmou que queria que González tivesse ido aos Estados Unidos meses atrás, acreditando que uma viagem anterior poderia ter ajudado a resolver mais cedo a disputa internacional de custódia.
E ele estava satisfeito que alguém, aparentemente o advogado americano Gregory Craig, tenha persuadido as autoridades cubanas a abandonarem sua insistência de que González só viajasse se acompanhado por uma comitiva de 27 outras pessoas, incluindo uma dúzia de amigos da escola de Elián em Cuba.
"Fidel muitas vezes não tem um bom senso sobre como apelar ao público americano", afirmou Smith. "A idéia de trazer todas aquelas pessoas não estava funcinando muito bem".
O que funcionou bem, disse Smith, foram as imagens de González
sua mulher e seu fotogênico filho de seis meses - uma família jovem, atraente numa missão para recuperar seu amado filho.
"O que é interessante em tudo isto é que fica evidente que a revolução cubana não eliminou a importância da família", afirmou Eckstein. "E que algumas vezes a família é mais importante do que a política".
González, provavelmente, tem menos motivos para desertar do que os cubanos comuns.
Um membro do Partido Comunista de Cuba, ele e sua família são seguidores de longa data de Fidel - sendo ainda mais desde que o líder cubano fez da volta de Elián uma cruzada nacional.
E como González trabalha na indústria turística no balneário de Varadero, nas proximidades de sua cidade-natal de Cardenas, ele tem acesso a muito mais invejados dólares americanos, permitindo a ele viver com mais conforto do que muitos aqui.
González também parece estar enojado com o que ele diz ser a comercialização de seu garoto, e os excessos capitalistas despejados sobre Elián poucos dias depois de seu resgate no mar. Houve uma viagem muito badalada à Disney World, e imagens televisionadas do menino rodeado por brinquedos caros como um bug motorizado e um gigantesco boneco do Mickey Mouse.
Menos de duas semanas depois de Elián ter sido resgatado na costa da Flórida, González denunciou a "extremista máfia cubano-americana", acusando grupos de exilados de oferecerem a ele US$ 2 milhões para mudar para Miami e ficar com Elián lá.
Enquanto isto, os familiares de González em Miami insinuaram que ele não se importa com Elián porque não pulou no primeiro avião rumo aos EUA para reclamar o garoto.
Nas últimas semanas, advogados dos parentes de Miami chegaram até a ventilar a idéia de que González não era um pai adequado.
"Eles têm esfaqueado González pelas costas", disse Smith. "Toda a idéia de eles convidá-lo para um jantar na casa em Miami é absurda".

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