Paris, 26 (AE) - Há uma máquina terrível ameaçando as relações entre a China e os Estados Unidos. Tão terrível que a "distensão", sonhada no passado mês de abril, por ocasião da visita de Zhu Rongji a Washington. já morreu. Dando lugar a um céu enegrecido.
Aqui estão as peças desta máquina: dentro de algumas semanas, o décimo aniversário da tragédia de Tienanmen, quando os soldados chineses massacraram os estudantes liberais, causando indignação no Ocidente, sobretudo nos Estados Unidos. Segunda engrenagem desta máquina: o estúpido bombardeio da embaixada da China por parte da Otan, em Belgrado, no dia 7 de maio.
E, para fazer a ligação entre estes dois perigos, surge uma terceira peça, ainda pior: a publicação, nos Estados Unidos, do Relatório Cox a respeito da espionagem nuclear chinesa. Imediatamente, Pequim denunciou esta trama "de absurdos sem fundamento" porque a China, como todos sabem, nunca espionou ninguém.
O Relatório Cox causa embaraços a Bill Clinton, muito embora Cox evite prudentemente acusar os democratas e esclarecer o financiamento fraudulento da campanha presidencial de Clinton em 1996. Segundo as más línguas, a campanha teria sido financiada pelo tráfico de influência chinês.
Mas, quanto ao resto, o Relatório Cox é pesado. Diz, em resumo, que, desde o final da década de 70, Pequim roubou todos os segredos nucleares americanos, apossando-se, entre outras coisas, dos planos de sete mísseis norte-americanos, cinco dos quais ainda estão em serviço.
O que os cientistas de Los Alamos descobriram em meio século, os cientistas chineses adquiriram em apenas dez anos.
Não espanta que o Congresso norte-americano esteja lançando raios e trovões, a tal ponto que se começa a duvidar se a China poderá ingressar - como já estava previsto e como se desejava - na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Passemos agora ao desastrado bombardeio da embaixada da China em Belgrado. Aparentemente, suas consequências são mais emotivas.
Certamente, os desabafos extremamente perigosos da multidão durante os primeiros dias já estão agora sob o controle da polícia. Mas a ferida continua purulenta. A multidão que desfila continuamente diante das fotos dos escombros da embaixada, expostas no Museu de Belas Artes, em Pequim, não demonstra ambiguidade.
"São esses os direitos do homem?", escrevem os visitantes. Ou então: "A China jamais será vencida". Ou ainda: "Porquê tanta crueldade?" Muito claramente, os chineses estão revoltados, enojados. Não duvidam absolutamente que os países da Otan não têm outro objetivo senão o de pulverizar um pequeno país inocente, a Sérvia.
(Uma observação: podemos perceber até que ponto as opiniões públicas são dependentes , quer da posição geopolítico-histórica de seu país, quer da versão oficial distribuída à nação pelos governos: no Ocidente, a maioria dos cidadãos está revoltada com os sérvios. Na Itália, onde o governo do primeiro-ministro DAlema é mais circunspeto, a opinião pública está também dividida. Na Rússia e na China, o povo está sinceramente indignado com os ataques aéreos da Otan, copiando assim servilmente os argumentos dos poderes públicos).
Conclusão: Estes três acontecimentos (Tienanmen, foguetes norte-americanos em Belgrado e espionagem nuclear chinesa) estão prestes a gangrenar e a encerrar o processo de distensão que Clinton, a caminho do final de seu segundo mandato, tentou colocar nos trilhos.
O bombardeio de 7 de maio talvez tenha inaugurado uma nova e grande febre nacionalista (e anti-ocidental) na China. Por quanto tempo?

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