O filósofo Gérard Lebrun é encontrado morto em Paris
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terça-feira, 14 de dezembro de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 14 (AE) -O filósofo e professor francês Gérard Lebrun, que ajudou a formar alguns dos melhores pensadores do País, entre eles José Arthur Giannotti e Renato Janine Ribeiro, foi encontrado morto em sua casa, em Paris, na última sexta-feira. A causa da morte ainda não foi revelada pela Polícia francesa e o enterro não foi realizado. Giannotti falou por telefone com Lebrun na quarta-feira, dois dias antes da morte do filósofo, que viu pela última vez em maio, em Paris.
"Ele estava profundamente magoado com o Brasil, particularmente com a imprensa carioca pela absurda exploração do caso policial em que foi envolvido", disse Giannotti hoje, por telefone. "Lebrun foi extremamente importante para a nossa geração, porque eles nos desafiava o tempo todo e nos fez pensar a relação entre Hegel e Marx, além de ter sido um grande amigo"
declarou o filósofo.
A história brasileira vai registrar a passagem de Lebrun pelo Brasil como um marco para a filosofia. Um dos primeiros intelectuais a afirmar que os acontecimentos de 1964 não eram devidos simplesmente a um ato de força militar, mas possibilitados por uma disposição da sociedade civil, Lebrun também tomou a adianteira ao cortar laços com o Partido Comunista Francês e renegar o marxismo. Por outro lado, rejeitava a terminologia direitista. "É ser de direita dizer que Stalin foi um tirano, que Mao foi um tirano, que Castro também o é?", argumentou, numa polêmica entrevista realizada há 12 anos, quando lançou "O Avesso das Dialética (Companhia das Letras), traduzido pelo aluno Renato Janine Ribeiro.
Janine o conheceu em outubro de 1970, quando, depois de vários anos ausente do Brasil, Lebrun passou alguns dias em São Paulo a caminho do Chile e deu uma palestra sobre Nietzsche no Departamento de Filosofia da USP. Nove anos mais tarde eles se encontrariam num seminário sobre Hegel na Universidade de Brasília. Janine ficou impressionado como, ao perceber que a jovem platéia não entendia muito de filosofia, Lebrun reforçou os gestos e a entonação para transformar uma discussão fadada ao fracasso num encontro divertido e produtivo.
A generosidade de Lebrun com seus interlocutores também é traduzida na clareza de suas posições em livros como "Kant el la Fin de la Métaphysique" (Kant e o Fim da Metafísica, 1970), La Patience du Concept" ( A Paciência do Conceito, 1972), Pascal (1983) e Passeios ao Léu (1983). O primeiro concentra-se na terceira crítica de Kant, a crítica do Juízo. Tanto em A Paciência do Conceito como em O Avesso da Dialética", o objeto de estudo é Hegel. No último, a filosofia hegeliana é analisada à luz de Nietzsche.
O papel do Brasil na organização do pensamento de Lebrun sempre foi lembrado pelo filósofo em entrevistas, mas ele não se furtou a críticas duras ao País, especialmente há seis anos, quando, numa entrevista, disse que o Brasil faltou ao encontro com a História. Um ano antes ele visitou o Brasil, onde deixou muitos amigos, e ficou impressionado com a "deterioração da vida cotidana". Sua última frase na entrevista desafiava o coro dos contentes: "Acho que não vou mais ver o País se tornar desenvolvido e importante no contexto mundial".
Era mais um desabafo do filósofo que contestou a influência do pensamento cartesiano, ao ensinar seus alunos a desconfiar de países que são meras caixas de ressonância do pensamento importado, como a França havia sido dos alemães durante muito tempo até encontrar as vozes da modernidade como Sartre e Foucault, entre outros pensadores mais considerados por Lebrun, especialmente o último, que identificava como um revolucionário revisor das ciências humanas e da História. Foucault era seu amigo, mas sua influência admitida era Beaufret.
Embora pensasse como um heideggeriano, Beaufret não converteu Gérard Lebrun, que sempre manteve uma atitude de incômoda independência filosófica. Quando começou a se dedicar ao estudo de Hegel, o filósofo francês ainda mantinha relações com o Partido Comunista Francês, mas rompeu com os dogmas e o culto personalista. Tanto que seu interesse particular por Kant e Hegel jamais se transformou em obsessão.
Ele começou com Husserl, passou por Kant e Hegel e voltou a Aristóteles para ensinar seus alunos a ler textos com absoluta liberdade, a mesma que experimentou com Merleau-Ponty e Beuafret. Com Lebrun, a filosofia brasileira passou por um filtro rigoroso desde que o pensador francês veio substitutir, em 1960, o professor Gilles Gaston Granger na cadeira de Filosofia mantida pelo governo francês na USP. Lebrun passou seis anos em São Paulo, voltando à Universidade de Aix-en-Provence em 1966. Depois, ele permaneceu na Tunísia por dois anos, voltando ao Brasil em 1970 para uma curta visita.
Ele voltaria um ano mais tarde para uma permanência mais longa. Continuou morando em São Paulo mesmo quando o governo francês suprimiu seu posto na USP. Dividindo seu tempo entre Brasil e França, Lebrun publicou um livro com ensaios escritos para o Estado e Jornal da Tarde, Passeios ao Léu.


