O estado malaio-muçulmano
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quarta-feira, 18 de agosto de 1999
Por Jocelyn Gecker, da ASSOCIATED PRESS 
Kota Baru, Malásia (AE-AP) - Nesta região rural no nordeste da Malásia, distante dos reluzentes arranha-céus da moderna capital Kuala Lumpur, um partido islâmico está arquitetando um plano muito diferente para o futuro. Homens e mulheres fazem filas separadas nos caixas dos supermercados no estado do Kelatan e as luzes dos cinemas são mantidas acesas para manter a decência entre os casais. Estas políticas foram impostas pelo partido islâmico SeMalaysia, que representa a maior ameaça ao governo nas eleições gerais que devem acontecer em meados do ano 2000.
Este modelo de estado islâmico representa um total contraste em relação á capital, um monumento dos 18 anos de governo do primeiro-ministro Mahathir Mohamad. Além disso, suas leis conservadoras chocam-se com a linha leiga do Islã, seguida pela maioria na Malásia, um nação com 22 milhões de habitantes composta pelas etnias malaia, chinesa e indiana.
Um passeio pelo centro da cidade de Kota Baru, a capital do Kelatan, único estado governado pelo SeMalaysia, dá uma idéia do que possa ser o país sob o domínio do partido, que comanda o estado desde 1990.
No cinema Lido uma luz fluorescente é mantida acesa durante a exibição dos filmes a fim de impedir que os casais se beijem ou façam qualquer outra demonstração pública de carinho. Ao lado, no hotel Diamond Puteri, uma enorme piscina foi esvaziada porque os inspetores da cidade insistem que homens e mulheres não podem usar este espaço em conjunto.
Na Malásia, a maioria das mulheres usa lenços e roupas largas em público, forma pela qual o Islã acredita que as mulheres devem vestir-se. Mas em Kelantan, eles são obrigatórios para mulheres muçulmanas em escritórios governamentais e lojas.
A polícia conduz inspeções regulares e multa uma videolocadora que trabalha exclusivamente com fitas piratas. Mas ao invés de apoderar-se do material ilegal, os oficiais procuram vendedoras sem lenços de cabeça. "Eu estou na lista negra, mas não posso forçar as pessoas a usar isto", diz o dono da loja, Chris Poh, chinês étnico que reside no estado mais muçulmano do país.
Bares e clubes noturnos estão notadamente fora desta regra. Apenas as lojas cujos donos são chineses podem vender álcool, mas artistas mulheres são impedidas de realizar qualquer performance. "O governo do estado de Kelantan coloca as mulheres num pedestal", afirmou, durante uma entrevista, o Ministro Chefe de Estado, Nik Aziz Nik Mat. "Nós não permitiremos que elas sejam exploradas". Por esta razão, mulheres não podem participar das eleições. "O contexto é muito problemático e perigoso para mulheres", afirmou o ministro.
Nik Aziz anunciou recentemente uma nova política de não contratação de mulheres atraentes para os empregos oferecidos pelo governo, dizendo que é mais provável que elas arranjem maridos ricos. "Isto equilibra a situação", afirmou. "Nós empregamos as mulheres menos bonitas e solteiras. Uma vez que elas têm um emprego, podem encontrar um marido. A maioria das mulheres solteiras não são bonitas, você não concorda?".
Os críticos não perderam a oportunidade de comentar sua opinião. "Estamos entrando num novo milênio e estas pessoas continuam falando como se estivéssemos vivendo há 100 anos", disse Ilani Isahak, representante feminina do Parlamento de Lota Baru que representa a Organização União Nacional Malaia.
Apesar do partido islâmico SeMalaysia ter apenas sete lugares no Parlamento que conta com 192 membros, seu número de afiliados cresceu 50% desde setembro, quando Mahathir demitiu o deputado Anwar Ibrahim. Anwar foi posteriormente condenado por corrupção e está cumprindo pena de seis anos de prisão. Apesar disso, o partido continua a ter problemas ao convencer o povo.
Quarenta por cento da população não é formada por muçulmanos e as mulheres gozam de uma relativa igualdade. O partido islâmico SeMalaysia vem tentando empurrar severas leis islâmicas
como a amputação de membros para certos crimes e morte para abjuração. Mas o governo federal e o Parlamento vetaram todos estes esforços.
Wong Chun Wai, editor do jornal A Estrela, escreveu recentemente que a linha radical do partido assusta os não muçulmanos. "Para a comunidade chinesa eles são muito suspeitos", afirmou. "Os políticos nunca devem se esquecer de que é fácil ser líder de uma raça em particular, mas difícil ser um líder para todos os malaios".


