Paris, 19 (AE) - Kovovo não tem o monopólio do terror. Neste último fim de semana, no outro lado do planeta, na Indonésia, a cidade de Dili, capital do Timor Oriental, ficou de luto: 1.500 milicianos (combatentes protegidos pelo Exército e pela bandeira vermelha e branca da Indonésia) massacraram a tiros de fuzil, a golpes de machete, 20 pessoas suspeitas de estarem exigindo a autonomia ou mesmo a independ$ncia do Timor Oriental.
Timor está longe, diriam alguns. É apenas um ponto, lá embaixo, no Oceano Pacífico, entre a Austrália e as Filipinas e a Malásia. Sim, mas este pequeno ponto faz parte de um dos Estados mais populosos da Terra, a Indonésia (capital Jacarta, na ilha de Java). Em suas 17.000 ilhas, a Indonésia abriga 220 milhões de habitantes, em sua maioria muçulmanos, mas igualmente chineses, indianos, papus e mesmo católicos , como no Timor Oriental.
E católicos portugueses. A ilha de Timor foi descoberta em 1520 pelos portugueses sendo após partilhada entre Portugal, a leste, e a Holanda, a oeste (na época colonial, a quase totalidade do arquipélago indonésio era holandês).
Depois da última Guerra, a Indonésia conseguiu sua independ$ncia, mas o Timor Oriental ficou intato. Foi somente em 1975 que a Indonésia invadiu a antiga colônia portuguesa e anexou-a no ano seguinte.
Desde então, é forte a tensão entre o Timor Oriental e a capital, Jacarta.
O Timor Oriental rebelou-se por várias razões: Primeiramente, a crise econômica que devasta o imenso arquipélago. Depois, a influência dos habitantes de Java, que dirigem tudo na Indonésia e que povoam e dominam as outras ilhas do arquipélago, tendo em vista reduzir as "minorias" ("pureza étnica", como diria Milosevic...) Ora, o Timor Oriental é exatamente uma dessas minorias: de cultura portuguesa e não-holandesa e indiana, como a ilha de Java, e forma aliás com outros Estados (as Molucas, as Filipinas...) um vasto arco católico.
As revoltas do Timor Oriental foram trágicas: nos primeiros anos após a anexação, 200 mil timorenses foram mortos pelos soldados indonésios - 200 mil em meio a uma população total de 800 mil pessoas (o que deixa bem longe as infâmias de Kosovo), muito embora a ONU jamais tenha reconhecido a anexação do Timor Oriental por parte de Jacarta e sempre tenha considerado Portugal como "o poder administrativo" do território.
Mas esta ilha minúscula é muito mal conhecida. Só ouvimos os seus gritos. Não abriga absolutamente interesses econômicos ou estratégicos úteis às Potências. A única emoção da comunidade mundial foi o Prêmio Nobel da Paz, outorgado a dom Carlos Belo, bispo de Dili (e que no último domingo trovejou em sua igreja contra "aqueles que querem destruir o território!").
O rio de sangue do último fim de semana causou surpresa. Efetivamente, o tirano Suharto foi derrubado pelos distúrbios nas ruas, em maio de 1998, e substituido por Yussuf Habibie. E o novo presidente demostrou estar preocupado com a pacificação. Prometeu que os timorenses poderiam votar em julho num plebiscito a respeito de sua autonomia, sob a proteção da ONU e disse ainda que, se os timorenses se manifestassem contra a autonomia, seria iniciado o processo em favor da independência.
Esta promessa trouxe a calma. Mas, no início de abril, os "milicianos", contrários à independência, atacaram uma igreja na qual estavam refugiados 2.000 cidadãos pró-independência. O lider dos defensores do Timor independente, Xanana Gusmão, foi transferido do cárcere para uma prisão domiciliar em Jacarta, mas conseguiu fazer um apelo a seus partidários para que retomem as armas, exigindo ao mesmo tempo a presença dos "capacetes azuis" da ONU em Timor Oriental.
Cumpre indagar quem são estes "milicianos" crueis, bárbaros, que perseguem os partidários da independência. São apoiados pelo Exército regular, que não fez nada para impedir a dramática carnificina deste último fim de semana em Dili. Os militares farão de tudo para barrar a marcha a caminho da independência do Timor Oriental.
Resta investigar a atitude do presidente Yussuf Habibie: estará ele aplicando um programa cínico, fingindo aceitar o plebiscito e, ao mesmo tempo, encorajando por baixo do pano as investidas sangrentas dos milicianos (apoiados pelo Exército) contra os partidários da independência? Ou será preciso acreditar que Habibie é leal, mas esteja se tornando refém de um Exército decidido a conservar a minúscula ilha portuguesa no conjunto arruinado e devastado, mas imenso e superpovoado da Indonésia?
Algumas reações internacionais: Portugal repudiou os incidentes atribuindo-os à "inteira responsabilidade" de Jacarta. Washington e Canberra (Austrália) se declararam preocupados. Kofi Annan exigiu, em nome da ONU, o fim imediato dessa "escalada de violência". E daí?...

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