O espinhoso resgate dos Caminhos do Peabiru

Projeto do governo do Paraná quer usar rota milenar para impulsionar o turismo. Indígenas e pesquisadores reclamam de falta de representatividade dos povos originários

Publicado segunda-feira, 10 de novembro de 2025 | Autor: Celso Felizardo às 08:00 h

Enquanto os projetos modernos de integração logística da América do Sul entre Atlântico e Pacífico custam a sair do papel, uma rota milenar já cruzava o continente muito antes da chegada dos europeus. Conhecidos como Caminhos do Peabiru, esses trajetos que começaram a ser abertos pelos povos ancestrais, há cerca de 8 mil anos, ligavam o litoral brasileiro aos Andes e ao Oceano Pacífico. A rede de caminhos de aproximadamente 4 mil quilômetros que cortava transversalmente o Paraná foi usada principalmente pelos guaranis como eixo espiritual, em sua jornada à mítica Terra Sem Males.

Agora, um projeto do governo estadual pretende resgatar esta história e transformá-la na Rota Turística Caminhos do Peabiru. O objetivo, segundo os organizadores, é promover o turismo sustentável, fortalecer os corredores ecológicos, reforçando a herança cultural e a promoção do bem-estar. Porém, o projeto é alvo de críticas de pesquisadores independentes e dos próprios povos indígenas que denunciam uma apropriação de um bem sagrado e reclamam por não terem voz ativa no projeto.

Os caminhos do Peabiru tinham três pontos de partida no litoral brasileiro. Um na região de São Vicente (SP), outro no litoral norte de Santa Catarina, e, de acordo com alguns historiadores, um no litoral paranaense. Os três trajetos se encontravam para formar o tronco principal, com início nos Campos Gerais do Paraná. A partir daí os caminhos seguiam rumo ao Oeste, entravam no Chaco paraguaio, se estendendo pelos Andes até terminar no Pacífico.

Nessa rede viária, há o “caminho comprido”, a rota principal, e os “caminhos curtos”, com trechos secundários. Esse complexo sistema era usado pelos indígenas para ecologia, caça, comércio e religião. Algumas hipóteses afirmam que os caminhos foram abertos pelos itararés, povo ceramista que seria ancestral dos do jês atuais, como os kaingangs e dos xoklengs. Mas o caminho ficou mais associado aos guaranis, muito pela sacralidade da mítica da Terra Sem Males.

A Terra Sem Males (Yvy Maraê’y), para os povos guaranis, é um lugar mítico de abundância e harmonia, onde não há fome, sofrimento nem morte. Segundo suas tradições orais, esse paraíso terrestre ficaria em algum ponto do Atlântico, muitas vezes associado a uma ilha sagrada, para onde as almas puras poderiam chegar caminhando sobre as águas. A busca por essa terra ideal inspirou longas migrações ao longo dos séculos, guiadas por seus pajés e por uma profunda espiritualidade ligada à natureza e ao equilíbrio entre corpo e espírito.

Imagem criada por IA a partir de um desenho de uma criança indígena presente no livro "O caminho de Peabiru", de Rosana Bond
Imagem criada por IA a partir de um desenho de uma criança indígena presente no livro "O caminho de Peabiru", de Rosana Bond | Foto: IA/Gemini

No pensamento guarani, o Caminho de Peabiru representava tanto uma rota física quanto um percurso espiritual, ligado ao movimento do Sol sobre a Terra. O traçado leste-oeste do caminho pode ser interpretado como uma reprodução simbólica da trajetória solar: o Atlântico seria a nascente, o Paraguai o ponto central ou zênite, considerado o “coração da Terra”, e o Pacífico o poente, onde o Sol completa seu ciclo diário. Essa interpretação confere ao Peabiru uma dimensão sagrada, em que o território se entrelaça à cosmologia guarani e à ideia de equilíbrio entre natureza e espiritualidade.

Rosana Bond é autora de livros sobre o tema ao qual se dedica desde a década de 1990. Autora das obras "O caminho de Peabiru: Descobertas e segredos da rota indígena que ligava o Atlântico ao Pacífico" e "A Saga de Aleixo Garcia", ela afirma que os registros históricos apontam que o primeiro homem branco a percorrer o Caminho do Peabiru teria sido o português Aleixo Garcia, sobrevivente de um naufrágio ocorrido na costa catarinense em meados do século XVI.

Resgatado por indígenas, Aleixo teria ouvido falar de uma antiga trilha que cortava o continente rumo ao poente, até as terras dos incas, descritas como repletas de ouro e prata. Movido pela curiosidade e pela cobiça europeia pelas riquezas do interior da América do Sul, ele seguiu com os guaranis por trechos do Peabiru, tornando-se, segundo Bond, o primeiro a registrar essa rota mítica e estratégica que despertaria o interesse de exploradores e colonizadores nos séculos seguintes.

O desafio de reconstruir o quebra-cabeças

Ao contrário do sistema viário inca, construído com pedras, recurso abundante no altiplano e arredores, a rede de caminhos do Peabiru era basicamente formada por caminhos de terra. Registros históricos de 1600 apontam que as trilhas tinham oito palmos de largura cobertos com grama miúda. Essa característica é um dos principais desafios para os pesquisadores.

Imagem ilustrativa da imagem O espinhoso resgate dos Caminhos do Peabiru
| Foto: Folha Arte

Sem uma marcação evidente e duradoura, quase a totalidade do traçado original se perdeu com o tempo. Seja pelo apagamento da própria natureza, ou pela ação do homem, no aproveitamento de trechos para a construção de rodovias, mas principalmente pela mecanização da agricultura.

Esta tarefa ficou sob a responsabilidade da equipe de pesquisadores da Fadec (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento Científico) da UEM (Universidade Estadual de Maringá). Sidinei Silvério da Silva, coordenador da fundação, explica que a instituição é responsável pela elaboração e execução do Plano de Trabalho, detalhando metodologias, cronogramas e responsabilidades. “O trabalho é feito por uma equipe composta por turismólogos, biólogos, historiadores, sociólogos, antropólogos, economistas, engenheiros, comunicadores e cientistas da computação”, elenca.

Silva explica que o traçado definido, que passa por 97 dos 399 municípios paranaenses, tem base histórica e arqueológica, porém é simbólico. “Onde foi possível, o traçado buscou se aproximar de vestígios conhecidos do Peabiru original, como em Pitanga e Turvo, ou de eixos históricos correlatos, como a rota da erva-mate. No entanto, este foi um critério guiador, não determinante, devido à grande perda do traçado original”, explica.


Confira no mapa o traçado consolidado do projeto

Na montagem deste complexo quebra cabeças, ele cita quatro desafios. As transformações no espaço rural, a fragmentação da paisagem, as questões fundiárias e a perda da memória. “Em muitas regiões, o conhecimento sobre a localização exata do Peabiru se perdeu, restando apenas referências genéricas”, pontua. “Passar por propriedades privadas exige negociação complexa, que muitas vezes inviabiliza o traçado ideal”, observa.

O traçado definido pelo grupo de trabalho tem como ponto extremo oriental o litoral paranaense, avançando pela capital até chegar em Piraí do Sul, nos Campos Gerais, onde segue em direção ao Oeste, até se bifurcar, com um destino em Guaíra e outro em Foz do Iguaçu.

Fachada da Fadec, no campus da UEM
Fachada da Fadec, no campus da UEM | Foto: Divulgação/UEM

Com essas limitações, Silva explica que o roteiro foi desviado para incluir sítios arqueológicos, comunidades tradicionais (quilombolas, faxinalenses), terras indígenas com os quais, segundo ele, o projeto dialogou mediante consulta livre, prévia e informada, e que manifestaram interesse em participar de ações interpretativas ou de visitação controlada, Unidades de Conservação e atrativos naturais de relevância (cachoeiras, mirantes). “Este critério é o que dá 'alma' e motivo para se percorrer a rota”, avalia.

Sobre as potencialidades de desenvolvimento turístico e econômico, Silva aposta no fortalecimento de toda uma cadeia. “Será possível impulsionar a hospedagem em pousadas familiares e comunitárias, inclusive indígenas, quilombolas, agricultores familiares; a gastronomia local, venda de artesanato e produtos naturais, além dos serviços de guias e condutores locais”, relaciona.

Ele acredita que a rota vai servir como “vitrine” para as cadeias produtivas já existentes e criar novas possibilidades de geração de renda. “A rota pode impulsionar a venda de produtos com indicação geográfica,a agricultura familiar, os arranjos produtivos locais e também proporcionar a criação de novos negócios e serviços, como aluguel de equipamentos, transporte de apoio e desenvolvimento de ferramentas digitais”.

Sem ouvir os indígenas não vai dar certo, diz liderança guarani

O ambicioso projeto do governo estadual é alvo de críticas de pesquisadores independentes e dos próprios indígenas, que temem não terem voz ativa neste resgate de um “bem sagrado”. Gilberto Benites, da aldeia Tekoha Pohã Rendá, liderança Avá Guarani do Oeste do Estado deixou clara a preocupação durante um seminário sobre os Caminhos do Peabiru ocorrido na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), em Foz do Iguaçu, no final de outubro.

Gilberto Benites durante fala no seminário sobre os Caminhos do Peabiru, na Unila, em Foz do Iguaçu
Gilberto Benites durante fala no seminário sobre os Caminhos do Peabiru, na Unila, em Foz do Iguaçu | Foto: Reprodução/Youtube Unila

“A gente tem que ter respeito. Tudo que existe aqui no mundo, alguém fez, tem seu dono. Esses Caminhos do Peabiru que vocês estão falando, vocês estão mexendo em uma coisa muito sagrada. Eu gosto muito da ideia de resgatar os caminhos, mas é importante a participação dos indígenas”, argumenta.

Benites expôs que seu povo não havia sido procurado para contribuir com o projeto. “Eu respeito muito o conhecimento de vocês, mas peço que respeitem o nosso. Esse projeto que vocês estão pensando, sem os professores espirituais, não dará certo. O caminho vai ficar no meio. E quem vai sofrer as consequências são os povos indígenas”, adverte.

Presente na mesma mesa, a arqueóloga e autoridade no assunto Claudia Parellada garantiu que o projeto ainda não está finalizado e que as comunidades serão ouvidas. “Todos os povos têm trajetórias que precisam ser respeitadas. Temos que reconhecer essas diferenças”, comentou. Ela também fez uma palestra com detalhes sobre a rota milenar.

Por meio de nota, a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) informou que apenas participou, representada por sua Coordenação Regional (CR) de Guarapuava, de uma apresentação do projeto de rota turística Caminhos do Peabiru junto ao Governo do Estado do Paraná. Na ocasião, a Funai solicitou que houvesse participação dos indígenas nos Grupos de Trabalho municipais criados para a elaboração do projeto.

“Dado que o projeto ainda está em fase de diálogos, as consultas às comunidades indígenas ainda não ocorreram, mas espera-se que a participação indígena seja efetiva na elaboração e realização do projeto, visto que este tem o potencial de representar as histórias e o território dos povos indígenas, tendo grande relevância”, traz a nota.

Equipe do projeto Caminhos do Peabiru durante apresentação do traçado consolidado da rota turística
Equipe do projeto Caminhos do Peabiru durante apresentação do traçado consolidado da rota turística | Foto: SEPL-PR

A coordenadora de Gestão e Sustentabilidade do Turismo da Setu-PR (Secretaria de Turismo do Paraná), Anna Vargas, também esteve presente no evento. Inicialmente ela se apresentou como responsável pelo projeto da rota, mas ao final de sua participação no evento, disse que recebeu uma ligação comunicando seu desligamento do posto. Em sua fala ao longo do dia, reconheceu que o projeto começou com falhas, em 2020, por não incluir representantes indígenas, mas disse que aprendeu muito neste processo ao longo dos últimos anos e garantiu que ainda há tempo para reparações, o que segundo ela vai ocorrer nas consultas com os municípios.

Anna Vargas comentou também sobre as acusações de apropriação cultural. “Tem horas que a gente pensa: ‘que loucura, a gente se apropriando de uma história’. Mas aí a gente vai construindo e pensando que essa política pública já estava definida, isso já iria acontecer. Então, tentamos encontrar formas de transformar essa política pública na possibilidade de contar essa história de invisibilidade, de ser uma narrativa também para não indígenas, a gente trazer essa história do Brasil antes de ser chamado Brasil”.

Incompatibilidade

A pesquisadora e escritora Rosana Bond expressou que lhe "dói ver a situação criada". Ela aponta para um cenário incompatível com o tratamento dado aos indígenas no Estado. "Ao mesmo tempo em que os indígenas guaranis são massacrados no Oeste do Estado, inclusive com participação de policiais, ali do lado fala-se de turismo divertido, como se não houvesse relação entre uma coisa e outra", critica.

Ela se refere ao conflito pela demora na demarcação da Terra Indígena Guasu Guavirá - em territórios de Guaíra, Terra Roxa e Altônia -, historicamente ocupada pelos Avá Guarani (também conhecidos como Nhandéva), que enfrentam remoções forçadas e violência. A ancestralidade da presença indígena na região é amplamente documentada por evidências arqueológicas e antropológicas.

Protestos de indígenas pedindo a demarcação  da Terra Indígena Guasu Guavirá, no Oeste
Protestos de indígenas pedindo a demarcação da Terra Indígena Guasu Guavirá, no Oeste | Foto: Diego Pellizari/Cimi

Essa contradição é acentuada pelas declarações do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), que no ano passado se referiu aos indígenas Avá Guarani do Oeste do estado como "índios paraguaios" ao se posicionar contra as ocupações de terras em Guaíra e Terra Roxa. O Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) repudiou publicamente a fala, classificando-a como preconceituosa e equivocada, que "desconsidera a história e os direitos dos povos indígenas brasileiros" e reforça estigmas que "alimentam a violência".

Bond avalia que preocupa o fato da proximidade de um grupo que se apresenta como um instituto dedicado a pesquisas científicas, arqueológicas, mas que na verdade, segundo apontam especialistas renomados, criam factóides para lucrar com exploração turística. “Esse ‘instituto’ assinou contrato com o governo Tarcísio de Freitas [São Paulo]. Trata-se do grupo que inventou Ratanabá, uma cidade perdida na Amazônia que nunca existiu.”

Ela denuncia o “sequestro” dos Caminhos do Peabiru, em Santa Catarina, onde mora, por um grupo de políticos e empresários que se relacionam com o instituto. “Eles inventaram uma rota do Peabiru que passaria por Garuva e Joinville, o que nunca ocorreu. Segundo eles, os incas andaram por esses caminhos no litoral catarinense, o que é refutado por todas as evidências científicas sobre o tema”.

Anna Vargas e demais participantes do projeto que participaram do seminário na Unila negaram qualquer tipo de parceria com o instituto, ainda que os municípios recebam contatos desta organização. Ao final, Anna Vargas disse acreditar na viabilidade do projeto. “É sim uma política pública bem construída, focada no processo participativo. Ela tem suas falhas, mas a gente aprende ao longo do processo e estamos abertos à escuta”, garantiu.

Ações de mitigação

Silvério Silva diz que a Fadec UEM reconhece as críticas ao projeto sobre o alheamento da cultura indígena e o contraste com conflitos agrários. “Ignorá-la seria desconsiderar um aspecto essencial da legitimidade social do projeto. Há uma tensão inegável. Nosso papel, como executor técnico, é usar as ferramentas e a influência deste projeto para, dentro de nosso escopo, criar mecanismos de proteção e benefício, nunca de agravamento. Reconhecemos que o turismo pode gerar impactos socioculturais negativos se mal conduzido."

Diante da preocupação dos indígenas, Silva garante que os povos serão ouvidos e terão seus interesses respeitados. “O desafio é garantir que a cultura indígena não seja reduzida a elemento decorativo ou meramente expositivo. A solução é o protagonismo: são as próprias comunidades que, através do Plano de Visitação, definirão o que, como e por quanto compartilhar sua cultura”, assegura.

O futuro da rota turística dos Caminhos do Peabiru - já com seu traçado consolidado no mapa - dependerá dos rumos do diálogo que vier a ser construído com os povos originários. Que a ciência e a escuta mútua sejam o norte dessa jornada.

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Celso Felizardo

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Editor com foco em conteúdo e planejamento.

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