O envolvimento emocional dos homens com a gravidez
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segunda-feira, 01 de fevereiro de 2010
Agência Estado 
Primeiro vieram os enjoos, acompanhados por aquele mal estar típico do início da gravidez. Depois foi a vez do desejo alimentar: uma semana de hambúrguer com queijo, vários dias à base de pizza. O peso aumentou, o sono também. E foi então que o gestor de tecnologia, Cléber Chinelato, 34, entendeu porque os médicos contemporâneos adoram usar a expressão casal grávido.
Maridos participativos como ele, muito envolvidos na gestação do bebê, chegam a compartilhar com a parceira até os sintomas do período - quadro classificado como síndrome de Couvade. Não é doença: trata-se só da manifestação do impacto da paternidade sobre as emoções masculinas.
Chinelato não esconde que sua ansiedade é maior que a da própria grávida da casa, Roberta Maranfaldi, 36, no quarto mês de gestação. Roberta enjoou pela primeira vez durante as férias que passávamos na Europa e eu senti o mesmo. Pensei que fosse pela comida do local, por ser diferente. Voltamos para casa e continuei sentindo a indisposição e a falta de vontade de comer, que durou praticamente dois meses, conta ele. Depois desta fase, passei a sentir desejos repentinos e até influenciei minha mulher, que até aquele momento tinha sentido poucas vontades. Na última vez, cheguei em casa querendo hambúrguer com queijo e maionese, desejo que durou vários dias. Depois, veio o da pizza. Com isso engordei uns três quilos.
No caso de Bruno Guarnieri, 29 anos, as oscilações de peso durante a gestação do primogênito Lucas foram ainda mais evidentes. No início da gravidez parecia que ele estava meio aéreo, com uma ansiedade a mil. Era só chegar em casa que ficava abrindo a porta da geladeira a cada cinco minutos! Não foi à toa que engordou uns oito quilos já nos três primeiros meses. Eu, na verdade, ganhei no máximo um quilo nesse período, conta a personal trainer Renata Guarnieri, 27 anos, que se prepara receber o bebê ainda em agosto. Sabe o que achei mais legal? Foi a participação 100% dele. Se você perguntar sobre o curso de grávidos que fizemos juntos, ele conta tudo que aprendemos nos mínimos detalhes. Acho que sabe até mais do que eu!, orgulha-se.
Obstetra há mais de trinta anos, Alberto DAuria diz que mais da metade dos maridos tem algum sintoma da síndrome de Couvade. A situação ficou mais frequente nos últimos três anos. A ansiedade, aliada a uma forte ligação afetiva com a parceira, transfere para o marido uma série de sensações que costumam se manifestar só na mulher. Isso reflete um momento social importante, com os pais participando bem mais da gravidez. Já não se vê mulher sozinha no pré-natal, o homem sai mais cedo do trabalho, faz de tudo para acompanhar o processo, conta.
As estimativas de DAuria, calculadas com base em sua prática clínica, coincidem com as estatísticas de um estudo britânico sobre a síndrome de Couvade. Promovida pela Marketing Onepoll, uma das principais empresas de pesquisa da Inglaterra, a investigação apurou que 54% dos 5 mil voluntários tinham algum desconforto sentido pela parceira grávida. O principal deles foi justamente o ganho de peso: seis quilos, em média, além de cinco centímetros extras na cintura.
No livro Bebê a Bordo: Guia para curtir a Gravidez a dois (Editora Matrix), o médico Flávio Garcia de Oliveira acompanha as transformações do pai ao longo da gestação. Há pais que têm até depressão pós-parto, garante. Quem encara a paternidade em primeiro plano tem muito dos sintomas da Couvade. O homem deixou de ser o mero trabalhador da casa, até porque a mulher também trabalha. Hoje, homem e mulher são sócios em tudo.


