BELÉM, Cisjordânia, 10 (AE-AP) - Akram Alkam passou a última semana de sua vida lendo a biografia de um notório fabricante de bombas do Hamas que arquitetou ataques suicidas que mataram dezenas de israelenses. Na manhã de hoje (10), o palestino vendedor de móveis de 22 anos decidiu seguir os passos de seu herói.
Logo antes de jogar seu carro contra soldados israelenses pedindo carona num movimentado trevo rodoviário, ferindo 11 soldados antes de ser morto a tiros pela polícia israelense, Alkam disse à sua mãe pelo telefone celular que estava prestes a executar um ataque suicida.
Ela freneticamente enviou seu marido e outro filho para tentar segurá-lo - mas eles chegaram tarde demais. Ao invés de impedi-lo de promover o ataque, eles tiveram que identificar o corpo crivado de balas.
"Maldito dia que ele pôs as mãos naquele livro! disse a mãe de Alkam, Fadwa, entrevistada na casa simples da família na cidade de Belém, na Cisjordânia, que estava repleta de pessoas chorosas horas depois do ataque.
A declaração foi logo contestada por sua sogra, Naimeh. "Não diga isso", afirmou ela severamente. "Seu filho morreu como um mártir".
O livro que aparentemente inspirou o ataque foi uma biografia de Yehiyeh Ayyash, apelidado de "O Engenheiro" por sua perícia na preparação de explosivos e seu planejamento de sete ataques suicidas à bomba. A família de Alkam disse que ele esteve mergulhado no livro nos dias anteriores à sua morte.
Ayyash foi assassinado em 1996 na Faixa de Gaza numa operação amplamente atribuída a Israel, quando ele respondia uma chamada no seu telefone celular que tinha sido recheado com explosivos.
o ataque de hoje ocorreu num momento de tensão entre Israel e os palestinos sobre os prazos de implementação de um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos. Os palestinos querem que ele seja implementado imediatamente; o primeiro-ministro Ehud Barak está prometendo dar início ao cumprimento no mês que vem e começar a uma acordada retirada de tropas em outubro.
Barak, um ex-comandante de Estado-Maior que tem posições duras sobre segurança, classificou o ataque de "covarde" e disse que ele fortaleceu sua resolução de combater o terrorismo. Ele pediu ao presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, para fazer o possível para ajudar.
A Autoridade Palestina anunciou que estava investigando o ataque, mas criticou a polícia e tropas de Israel por terem aberto fogo rápido demais contra o motorista. O exército afirmou mais tarde num comunicado que os soldados agiram corretamente.
No passado, grupos militantes promoveram ataques suicidas e disparos de carros em movimento numa tentativa de descarrilar a implementação dos acordos de paz interinos. Mas aparentemente Alkan agiu sozinho; nenhum grupo assumiu responsabilidade pela organização do ataque.
A mãe de Alkan disse que seu filho não pertencia a nenhum partido político, mas que durante a intifada, ou levante palestino contra Israel, ele, como muitos jovens palestinos, algumas vezes jogou pedras contra tropas israelenses.
Mais tarde hoje, a mídia israelense divulgou que a família havia negado ter qualquer conhecimento que Alkam estava promovendo um ataque e descreveu o ocorrido como um acidente de trânsito. Autoridades israelenses algumas vezes demolem as casas de atacantes suicidas como uma forma de conter ataques, especialmente se elas acreditam que a família tinha qualquer conhecimento dos planos do atacante ou estavam conscientes da filiação deles a algum grupo radical.
Mais cedo, numa entrevista à Associated Press, várias horas depois do ataque, a mãe de Alkam relembrou entre lágrimas sua última breve conversa por telefone com seu filho.
"Estou num trevo pronto para promover um ataque suicida, e estou vendo um monte de soldados", teria dito ele, segundo a mãe. "Eu implorei a ele para não fazer nada, mas ele não me escutou, e desligou o telefone".
Em Belém, sentada entre chorosas mulheres da família, uma tia de Alkam, Maysoun, foi perguntada se temia que ataques como esse poderia prejudicar o processo de paz.
"O que ele arruinou?" respondeu ela azedamente. "Tudo está congelado, tudo é negativo, tudo está morto".
No andar de cima da casa, a senhora Alkam seguiu o conselho de sua sogra e repreendeu as mulheres que choravam.
"Nada de lágrimas", disse ela. "Você não chora por causa de um mártir, você se alegra".

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