O efeito do aumento de juros para o Brasil Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 28 (AE) - Se a Bolsa de Valores de Nova York continuar como o principal barômetro do mercado de capitais no Brasil, como aconteceu nas últimas semanas, a elevação das taxa de juros que o Federal Open Market Committee (FOMC) do banco central dos Estados Unidos está prestes a anunciar poderá ser uma boa notícia - especialmente se a alta for de 0,5 ponto percentual, em lugar dos 0,25 ponto percentual esperados pela maioria dos analistas.
A razão é que o mercado já colocou um subida de até 0,75 ponto percentual no preço e poderá interpretar a ação do Fed como um sinal de os juros continuarão estáveis por vários meses, especialmente diante da ausência de indícios de pressão inflacionária no horizonte. Nesse cenário, Wall Street poderá fazer exatamente o que o Fed não quer e entrar num novo período de alta.
"Se o Fed tomar de volta a redução de juros de 0,75 ponto percentual que fez a partir de setembro e outubro, na esteira da crise russa, seria OK", disse Arturo Pozecanksi, economista-chefe do banco de investimentos ING Barings, em Nova York. "Mas o Fed deve fazer isso o mais rápido possível e não transformar isso numa tortura chinesa", afirmou ele. "O melhor é que fizesse um aumento de 0,5 ponto percentual esta semana e 0 25 percentual em julho ou na próxima reunião do FOMC, no fim de agosto, e acabar com isso".
Para o economista, "a pior coisa e o que está matando o mercado na América Latina é a incerteza, pois o mercado já pôs no preço mais de um aumento de 0,25 ponto percentual de juros nos próximos meses". Mas até o Fed agir, a incerteza permanecerá nos mercados de ações e de bônus nos Estados Unidos e isso pressionará os investidores a vender ativos mais arriscados, como os papéis do Brasil e da América Latina, e buscar papéis de melhor qualidade.
Isso explica porque houve poucas emissões de papéis da região desde que o Fed adotou formalmente um viés de alta de juros, há seis semanas. O impacto negativo já está evidente na desvalorização recente do real.
"O real tem estado sob forte pressão porque o Brasil teve que pagar várias emissões de eurobônus, o que forçou os devedores a comprar dólar para honrar o pagamento dos papéis, quando, se as circunstâncias fossem mais favoráveis, eles poderiam ter emitido novos bônus para pagar os que estavam vencendo e não teria havido efeito sobre a moeda", disse Porzecanski.
Obviamente, se o aumento de juros a ser anunciado entre terça e quarta-feira assinalar o início de um período de prolongado aperto da política monetária, o impacto para países como o Brasil será ainda mais adverso do que o da incerteza atual. Esse cenário pressupõe a existência, hoje, de fortes pressões inflacionárias no momento, o que não está evidente, ou uma economia desembestada em seu vigor expansionista, que mais cedo ou mais tarde criará tais pressões. A expectativa de aumento de juros por um largo período tornaria o dólar mais atraente para os investidores, especialmente se as economias do Japão e da Europa permanecerem anêmicas. Um fortalecimento da moeda norte-americana traria também prejuízos comerciais para os países da zona do dólar, como o Brasil, dificultando ganhos reais no preço de suas commodities.
Mas, descontados cenários extremos e confirmada uma pequena correção da política monetária americana, alguns sinais de recuperação no Japão e na Alemanha, que tem os segundo e terceiro maiores PIBs, dão margem a especulações mais otimistas, com a promessa de aumento da confiança dos investidores.
Sem atenuar o impacto que eventos externos têm sobre a economia brasileira, Porzecanski e outros analistas preocupam-se
no entanto, com a direção da discussão interna no Brasil.
William Cline, o vice-presidente e principal economista do Instituto de Finanças Internacionais, acha que o País deveria preocupar-se mais com as variáveis econômicas sob seu controle, em lugar de ficar paralizado à espera de decisões externas sobre as quais não tem como influir.
"O impacto do que for feito internamente será muito maior do que o que está acontecendo externamente", disse Cline. "A chave para o mercado financeiro é se o Brasil levará as reformas econômicas a sério, o risco, que já começa influenciar a percepção de alguns, é que, afastada a espada de Dâmocles da crise recente, a pressão pelas reformas domésticas diminuirá".
Para Porzecanski, a forte reação negativa do mercado ao anúncio de um inesperado deficit nas contas do governo central, na semana passada, deve ser tomada como uma advertência pelas autoridades e pelos políticos no Congresso.





