Nova York (AE-NEWSWEEK) - Um eclipse total ainda tem o poder de causar espanto.
"Rapidamente, muito rapidamente, todas as cores esmaeceram; ficou mais escuro, cada vez mais escuro, como no início de uma violenta tempestade; a luz foi diminuindo, diminuindo: continuávamos dizendo: esta é a sombra; e pensamos agora que acabou: esta é a sombra; e, então, subitamente, a luz foi embora.
"Nós sucumbimos. A luz extinguiu-se. Não havia nenhuma cor. A Terra estava morta. Esse foi o momento espantoso: e o próximo, quando, como uma bola que saltasse de volta, a nuvem retomou a cor por si própria e a luz também voltou. Quando a luz foi embora, eu tive uma forte sensação de uma imensa reverência; algo que estivesse se ajoelhando e, de repente, se levantasse quando as cores voltaram... E, então, tudo acabou, até 1999."
Virginia Woolf em seu diário, quinta-feira, 30 de junho de 1927: "A passagem da sombra da Lua pela face da Terra é uma estranha mistura de escalas normalmente separadas e de sensibilidades, pessoais e astronômicas ao mesmo tempo. Os eclipses totais do sol são extraordinariamente românticos e, apesar disso, notavelmente regulares, medindo o tempo em períodos, com a precisão de segundos e além do tempo de vida dos seres humanos... Na realidade, é possível prever os eclipses muito mais longe, no futuro, do que é possível prever se haverá um dia seres humanos para vê-los. O relógio celestial funciona regularmente. Mas seu tique-taque é lento."
Há menos de cem eclipses totais do Sol em cada século e cada um deles visita apenas uma delgada fatia do mundo. Há exceções - a costa de Angola verá eclipses totais tanto em 2001 quanto em 2002 e algumas partes da Turquia, contempladas pelo próximo eclipse no dia 11 de agosto, verão outro no dia 29 de março de 2006 - mas, em média, um determinado lugar do globo será afetado por um eclipse total apenas uma vez a cada 410 anos. O breve eclipse que Woolf viu desde a região pantanosa dos galos silvestres de Yorkshire foi o primeiro a cruzar a Inglaterra desde 1724.
Woolf e seus companheiros, como os milhões que acorrerão de toda a Europa para ver o eclipse de 11 de agosto, foram ajudados por uma indústria do turismo que conhece muito bem o potencial do eclipse.
Anteriormente, alguns cientistas entusiastas, atraídos pela possibilidade de observar a atmosfera do Sol - visível apenas quando seu disco brilhante é apagado ou obscurecido - e as montanhas da Lua - que transformam a orla do sol numa cadeia de continhas brilhantes, quando o eclipse começa e termina - viajavam para longe em condições bem piores.
Jules Janssen, um oftalmologista francês que se tornou astrônomo no século 19, acompanhou eclipses e descreveu fenômenos astronômicos em longínquos rincões de Sião, Japão e Peru, e chegou a instalar um observatório solar no cume do Mont Blanc. Durante um eclipse na Índia ele fez observações da coroa solar - a atmosfera externa do Sol - que mais tarde deveriam mostrar a existência de um novo elemento.
O hélio, nome que em grego significa o Sol, só detectado na Terra uma geração mais tarde, é conhecido agora como a segunda substância mais comum no universo. Janssen era tão fascinado pelos eclipses que nada, nem mesmo uma guerra, o impedia. Em 1870, como um herói de Julio Verne, ele passou sobre as cabeças dos soldados do Exército prussiano navegando em um balão para escapar da cidade sitiada de Paris a fim de ver um eclipse na Argélia.
Hoje os eclipses atraem menos interesse científico. Os telescópios em órbita podem bloquear o sol sempre que quiserem com uma simples persiana e, embora nossa estrela mais próxima ainda tenha seus mistérios - o que exatamente torna a coroa solar muito mais quente do que a superfície abaixo dela? - eles não são tão profundos como outrora.
Sabemos porque o sol brilha. Visitamos as montanhas da Lua. Mas isso não diminui a experiência do eclipse. Ele é ainda a ilustração mais notável desse trabalho de relógio, que é a operação cósmica que a maioria de nós jamais verá: um momento espantoso no qual o mundo do dia-a-dia se desintegra e a fria escuridão revela a escala fantasmagórica da criação. Depois, o dia recobra seu brilho - e tudo acaba, para a Europa Ocidental, até o ano 2081.

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