Londrina - Um misto de ansiedade e tensão tomou conta do administrador Lucas(*), de 27 anos, durante o tempo em que ficou ''rodando'' em seu próprio carro após ser dominado por dois bandidos armados. ''Nunca tinha passado por nada parecido. Estava chegando para uma reunião de trabalho por volta das 13 horas em Cambé (Norte), quando fui abordado. Eles anunciaram o assalto e pediram para eu deitar no banco de trás'', relata.
Segundo ele, a dupla de assaltantes fazia ameaças de morte constantes durante todo o trajeto. ''Diziam para eu não olhar para eles. O carro estava em alta velocidade, cerca de 130 km/h, e os movimentos eram muito bruscos. Apesar do medo, permaneci quieto a maior parte do tempo.''
A atitude de Lucas, segundo a Polícia Militar (PM), foi correta, mas nem todo mundo consegue manter o sangue-frio e agir dessa forma. O nervosismo pode gerar ações inesperadas. ''Estudos revelam um alto grau de variação no processamento das emoções relacionadas a eventos da vida'', explica a psicóloga comportamental Daniele Fioravante Tristão.
Tanto que por mais que tentasse manter a calma, chegou um momento em que Lucas começou a pedir aos bandidos para que o deixassem. ''Eles começaram a discutir onde iriam me matar. Durante todo o tempo a arma ficou apontada para mim. Tentava pensar positivo, alimentando a ideia de que nada de pior aconteceria, mas comecei a ficar nervoso'', comenta o administrador, que só foi abandonado muito tempo depois perto de uma chácara na Zona Sul, onde buscou socorro.
A psicóloga Daniele explica que leva tempo para que a vítima supere o trauma gerado por situações de violência e ameaça extremas. Principalmente quem passa pela experiência mais de uma vez.
A professora Roberta (*), 43, por exemplo, já ficou em poder de assaltantes em duas ocasiões. Na primeira vez, há cerca de nove anos, quatro homens armados invadiram a casa dela. ''Foi um susto muito grande. Ficaram com a arma na minha cabeça e roubaram tudo o que podiam'', relata.
Traumatizada, ela decidiu alugar um apartamento, onde ficou por aproximadamente seis meses. Após esse período resolveu voltar. O que não imaginava é que pouco tempo depois seria novamente vítima de bandidos. Dessa vez, no entanto, foi abordada, junto com os filhos, de 3 e 5 anos, na rua.
''Estava entrando no carro com as crianças após assistir uma peça infantil no Zerão quando fomos abordados por um casal e um adolescente. Eles mostraram a arma e pediram para a gente entrar no veículo. Senti muito medo pelos meus filhos. Fiz sinal para eles ficarem quietinhos e foi o que aconteceu'', lembra.
As pequenas vítimas de bandidos, como os filhos da professora Roberta, muitas vezes não são capazes de mensurar o risco a que estão submetidas e não reagem diante da situação. O trauma é maior para crianças um pouco maiores, que já entendem o que está ocorrendo. ''Elas se tornam mais vulneráveis aos traumas porque ainda não sabem lidar com esse tipo de situação'', aponta a psicóloga.
Depois do segundo assalto, Roberta entrou em depressão. E sofre as consequência do trauma até hoje. ''Lembrava constantemente da cena dos bandidos nos abordando e as crianças falavam do assunto a todo instante. Foi um horror. Até hoje tomo remédio.''
Roberta não esconde o medo de passar por isso novamente. Tanto que fica apreensiva quando algum estranho se aproxima. ''É um medo que só quem já foi vítima de uma ação de bandidos pode dizer como é.''
A psicóloga explica que enquanto algumas pessoas evitam sair de casa após vivenciarem uma experiência de trauma, outras conseguem levar uma vida normal. Alerta, no entanto, que quando o temor começa a limitar a vida, é necessário buscar tratamento.
(*) Os nomes usados na matéria são fictícios

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