Foto de Kraw PenasExperiênciaOnaireves, de consciência tranquila: ‘‘No jogo político eu era um principiante, e por isso ca풒O dono da bola não entrega os pontos
Presidente da Federação Paranaense de Futebol compatibiliza relações de amor e de ódio, mantém o poder e diz que voltará a ser deputado
Edmundo Inagaki
e Luiz Cláudio Oliveira
Folha - Em 1985, época de sua eleição para a presidência da Federação, havia uma plataforma de trabalho, em que um dos objetivos era a construção do Estádio do Pinheirão. O senhor acha que chegou a cumprir essa plataforma?
Moura - Outro objetivo era tornar o futebol do Paraná grande. Porque nós tinhamos apenas um clube participando da Primeira Divisão do Nacional. Existia uma incerteza muito grande de quem iria participar, era uma verdadeira loteria. Os clubes não tinham um calendário definido e a gente procurou nesse tempo todo dar uma estrutura, trouxemos a Seleção Brasileira por sete vezes ao Paraná nesse período. O Coritiba foi campeão brasileiro, quando eu já era o presidente da Federação. Estamos nos mantendo entre os principais Estados no número de clubes, participações em campeonatos, não só profissionais como também das categorias de base, Taça São Paulo, Taça Belo Horizonte.
Folha - Quando o senhor assumiu o cargo, como estava a relação do futebol do Paraná no cenário brasileiro? Hoje se fala que se o Londrina subir para a Primeira Divisão, seremos a segunda maior força do esporte no País.
Moura - O Paraná já é a segunda maior força, junto com Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Mas ficaríamos sozinhos nessa posição. A preocupação principal nossa agora é dar movimentação às equipes do interior, pois está muito desnivelado o futebol da capital e do interior. Por isso nós criamos a Copa Paraná, com a finalidade de dar calendário durante o ano inteiro. Coisa que eles (interior) não tinham. Eles montavam um time para o Paranaense e depois o desativavam, e isso trazia enormes problemas. Por exemplo, tinha que se montar um time às pressas, buscar jogadores prontos, sem nenhuma perspectiva de ter retorno com aquele investimento, com jogadores já ultrapassados ou sem condições. Com atividade durante o ano inteiro, eles vão poder fortalecer os seus clubes através da utilização de jogadores das categorias de base. Essa é a principal mudança que nós estamos fazendo agora no futebol, que é criarmos diversas competições. Com a adoção dos 3 pontos por vitória no futebol mundial, os campeonatos longos trazem ainda mais desmotivação, porque com 3 pontos as equipes se distanciam muito uma das outras. O campeonato tem que ser o mais curto possível para poder ser atraente. No ano que vem teremos o Sul-Brasileiro, o Campeonato Paranaense, a Copa do Brasil, a Copa dos Campeões e o Campeonato Brasileiro. São cinco competições e os clubes terão movimentação durante o ano inteiro, tendo condições de poderem ser mais rentáveis os campeonatos do que eram anteriormente. Existe uma preocupação grande do Londrina, do Atlético, do Coritiba, do Paraná, para o fortalecimento das categorias de base. Isso já está ocorrendo, com centros de treinamento e tudo. Então precisa movimentação, tanto é que Atlético e Coritiba já me consultaram sobre a possibilidade de disputarem em outras divisões também. Como na Europa, por exemplo, onde os clubes disputam a Primeira Divisão, e ao mesmo tempo disputam a Segunda ou a Terceira divisões, para que eles possam ter jogadores em atividade, não tendo que emprestar dois pra cá, dois pra lá, não tendo um acompanhamento. A idéia é que esses clubes possam ter mais jogadores em atividade, participando de outras competições.
Folha - Quando o senhor fala que os campeonatos curtos seriam mais rentáveis aqui no Brasil, isso pode não ser bem verdade. Sabemos que na Europa as coisas não funcionam bem assim.
Moura - Na Europa, os países são do tamanho do Paraná. É completamente diferente. O Campeonato Brasileiro está se tornando muito parecido com o Campeonato Europeu. Nós vamos ter aqui, praticamente, de Minas Gerais para cá, todos os clubes integrantes da Primeira Divisão. Com a saída do Goiás, do América de Natal (RN), nós vamos ficar concentrados aqui no Centro-Sul, com exceção do Sport Recife e do Vitória, que no ano que vem podem participar de um rebolo, porque agora soma-se os pontos de 98 e 99 para se ter uma média no ano 2000. Logicamente, o que vai ocorrer é o seguinte: os clubes com menor índice técnico vão ter sempre problemas para se manter na Primeira Divisão.
Folha - Há algum tempo atrás, o senhor chegou a ser uma espécie de relações públicas da CBF, com muito trânsito no Rio de Janeiro. Com a proximidade das eleições na CBF, o senhor tem feito alguma articulação?
Moura - As eleições serão realizados no mês de junho do ano que vem. Não estão colocadas ainda as candidaturas. O que eu conversei com os clubes é que nós temos já assegurados aqui no Paraná quatro votos (da Federação, Coritiba, Atlético e Paraná Clube), possivelmente um quinto voto com o acesso do Londrina, e que nós iriamos conversar para tirar partido desse peso nessas eleições. para tentar unir as forças e reivindicar em favor do Paraná. (No total, são 49 entidades votantes em todo o Brasil)
Folha - No caso do Londrina subir da Segunda para a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro em 99, haveria a possibilidade de o senhor convidar o clube para disputar a Primeira Divisão do Campeonato Paranaense?
Moura - O Londrina desceu e a regra do jogo é essa. Ele vai ter que disputar a Segunda Divisão do Paranaense. Não tem outra alternativa. São coisas do futebol. Em São Paulo, a Ponte Preta, que participou deste Brasileiro, não está na Primeira Divisão do estadual. O Bragantino também esteve na mesma situação.
Folha - Mas o Paulistão tem mais clubes e é bem mais competitivo que o nosso campeonato estadual.
Moura - Então nós temos que eliminar o rebaixamento. Eu já fiz isso há alguns anos atrás e fui contestado. Eu inchei o Campeonato Paranaense para trazer de volta cidades como Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo, Paranavaí, Paranaguá, que são importantes no Estado, mas que estavam fora do futebol profissional. Mesmo assim, eles não conseguiram se manter. Porque o modelo estava errado para eles. Não é só o Londrina e o Maringá que estão fora da Primeira Divisão de 99. Também temos Paranavaí, que possui um belo estádio, Cascavel, Foz do Iguaçu. Em contrapartida, nós temos Matsubara, União Bandeirante, que são clubes de cidades menores, melhor estruturados, que acabaram ficando na Primeira Divisão. Se fôssemos verificar o aspecto comercial, talvez devessemos garantir aos clubes que estão nas cidades a participação no campeonato. Mas aí nós estaríamos colocando em segundo plano o aspecto técnico.
Folha - Qual é na sua opinião a melhor fórmula para os campeonatos Paranaense e Brasileiro?
Moura - Em primeiro lugar, ser o mais curto possível. Jogos só no final de semana. Você não sabe o que representa, por exemplo, para um clube ter que fazer dois jogos por semana. Ele terá que ter um número muito maior de jogadores, um investimento grande que não dá retorno. Nos jogos do meio-de-semana, o público é muito menor. O excesso de jogos afasta o torcedor do estádio, porque ele não tem condições financeiras de comparecer a todos os jogos e acaba se ausentando por causa disso.
Folha - Voltando a falar da CBF, qual é realmente seu posicionamento junto à entidade. O senhor é oposição ou situação? Alguns dizem que o senhor nem consegue entrar no prédio, não é recebido lá. Isso é verdade?
Moura - Eu entro na casa do João Havelange e do Ricardo Teixeira. Na CBF também entro, na hora que eu quero. Não tenho esse tipo de problema. Eles (Havelange e Teixeira) já estiveram aqui diversas vezes. Sou amigo pessoal do presidente da CBF, da Fifa e já demonstrei isso diversas vezes.
Folha - Se o voto do Paraná numa eleição da CBF dependesse só do senhor, em quem o senhor votaria: José Eduardo Farah ou Ricardo Teixeira?
Moura - Eu votaria no Ricardo. Eu quero ver o Farah ser presidente da Federação de Sergipe. É fácil ser presidente da Federação Paulista, que tem 65% do PIB, vende cota de televisão. Não porque é o Farah, porque é São Paulo. Pela potencialidade daquele Estado. Coisa que o Paraná está começando a ter agora, uma força econômica, com as montadoras de automóveis que estão vindo aí. Isso tudo vai trazer uma força para o nosso futebol, porque nós vamos ter efetivamente um destaque de mídia para o futebol daqui ser mais valorizado e mais rentável. Mas tenho certeza que o Farah não sairá candidato à presidência da CBF.
Folha - Recentemente, o senhor foi afastado da Federação por causa de dívidas. Qual é a situação financeira da entidade hoje?
Moura - É estável. Nós conseguimos estabilizar a situação. O único problema foi a interdição do Pinheirão, que foi injusta. Tudo o que a Federação passou foi por causa da interdição do estádio. Fizemos um investimento enorme e acabamos não podendo utilizar o local em 1997. Mas agora a obra está concluída e a situação da Federação é normal.
Folha - A Federação foi bem administrada na sua ausência? Qual sua avaliação da espécie de colegiado (a Justiça determinou dois interventores temporários - Vicente Paschoal Rodacki e Walmor Zimmermann) que respondeu pela entidade nesse período?
Mouraá - A Federação teve uma perda muito grande com isso. Nós deixamos de realizar uma série de coisas, com prejuízos enormes. Inclusive, foi desviado dinheiro da própria Federação. Eu fiz essa denúncia na época e ela foi comprovada pela auditoria determinada pelo juiz.
Folha - Por que a Federação chegou ao ponto de não pagar contas de água, telefone, IPTU, deixando até de repassar o dinheiro dos clubes ao INSS?
Moura - Eu atribuo tudo isso à interdição do Pinheirão, que foi política e injusta. Também não tivemos apoio na construção do estádio. Nós achávamos que haveria o apoio e ficamos sozinhos. Isso acarretou problemas, que não eram tão grandes como foi anunciado. Tanto é que hoje a situação da Federação é normal. Parcelamos o INSS em 96 vezes, estamos pagando os 30% da Prefeitura, como também todos os fornecedores; foram cancelados os protestos, havia uma série de títulos e cheques que foram liquidados. A folha de pagamento, cerca de R$ 25 mil, está em dia. O orçamento da Federação gira em torno de R$ 2 milhões por ano, só o INSS e Prefeitura ficam com a metade desse dinheiro.
Folha - Como está a negociação do Pinheirão com o Governo do Estado?
Moura - Nós tínhamos um entendimento com o secretário de Esportes Oswaldo Magalhães dos Santos. Com a morte dele esse entendimento parou. Estamos aguardando a definição do novo secretário para retomarmos as conversas. Nossa idéia é integrar o Pinheirão como um todo na Vila Olímpica. Já tem lá a pista de atletismo, o Centro de Excelência da modalidade, que está pronto mas não chegou a ser inaugurado por causa da morte do Oswaldo, a praça defronte ao estádio. E existe também a possibilidade de se construir um ginásio de esportes. Existe uma série de projetos por parte do governo do Estado e a Federação está colocando o Pinheirão à disposição para ser o coração dessa Vila Olímpica. Nós não temos condições de continuar investindo lá. Talvez com mais uns US$ 10 milhões o estádio esteja totalmente concluído.
Folha - Por que o senhor desistiu de sair candidato a deputado federal nas últimas eleições?
Moura - Fui afastado do comando da Federação de forma ilegal. Como meu agravo demorou 180 dias para ser julgado pela Justiça, acabei não saindo candidato e apoiando o Santos Filho, que teve votos do futebol em mais de 200 municípios. Mas eu vou sair candidato nas próximas eleições e voltarei à Câmara dos Deputados para dar a volta por cima, assim como dei na Federação. Quero reparar a sacanagem que fizeram comigo.
Folha - Como foi o episódio da cassação de seu mandato na Câmara?
Moura - Fui acusado de ter comprado deputados para virem para o meu partido (PSD, cujo presidente nacional é Nabi Abi Chedid, dono do Bragantino). Primeiro: isso não foi provado. Abri minhas contas e não havia nada disso. Existe uma série de acusações, que vieram depois disso, de compras de deputados etc, que não foi provada. Lá (em Brasília) também as coisas funcionam de acordo com aqueles que dominam a casa. Eu quis ser um deputado que pudesse estar na cúpula e que decidisse alguma coisa. Não quis ser mais um. Cresci bastante, fui líder do meu partido, fui presidente de comissões, tive realmente bastante destaque. Os ministros vinham até minha casa, o presidente, os deputados, e isso despertou ciúme em muita gente. E acabaram arrumando uma maneira de me tirar de lá. Mas de qualquer forma, eu não me arrependo de nada que eu fiz, porque não fiz nada errado. Tenho a consciência tranquila, porque neste jogo político eu era um principiante e por isso caí. Mas a experiência que nós adquirimos foi muito grande e eu espero poder usar dessa experiência para não ser engolido um outra vez. A injustiça me motiva a continuar lutando.
Folha - O senhor pretende ficar na Federação até quando? As pequenas ligas do interior vão continuar elegendo o presidente por muito tempo?
Moura - Até o final do meu mandato, que termina em abril de 2000. Depois não serei mais candidato. Eu sempre fui eleito por todos aqueles que dirigem o futebol do Paraná. Até porque eles não têm candidatos contra a mim na Federação, pois eu consigo agradar a gregos e troianos. Existem algumas pessoas que querem ocupar esse cargo na Federação para tirar proveito dele. Mas não surgiu ninguém nesse período que quisesse engrandecer o futebol do Paraná, alguém que pudesse efetivamente contribuir. Se estivesse surgido alguém, eu até já teria deixado a Federação. O sujeito que quiser administrar a Federação tem que estar bem com todos os segmentos, seja com os clubes profissionais, amadores, e as ligas. Quando sair da Federação vou voltar para o Atlético Paranaense. Se não for como presidente, será como torcedor (risos). Montarei um time que vai fazer este novo estádio (a Arena) ficar pequeno.
Folha - O senhor se incomoda com as críticas que recebe?
Moura - Eu estou no futebol e na vida pública há muitos anos, e nunca entrei na Justiça contra um jornalista nem pedi direito de resposta ou exerci qualquer pressão em cima de alguém para que mudasse de opinião. Cada um diz o que quer. Das críticas ou procuro tirar os ensinamento e corrigir as rotas quando elas estão erradas. Quando elas estão certas, também não me vale contestar. Quem tem que contestar é o leitor, o ouvinte. Nesse período todo, se eu tivesse errado tanto, não estaria ocupando este cargo.
Folha - A Lei Pelé, em vigor há mais de seis meses, possibilita a criação das ligas profissionais para elaborarem os campeonatos. O senhor é contra ou a favor?
Moura - Sou a favor. Eu acho importante que se montenham as ligas. Só que uma liga é igualzinha a uma federação, que precisa de uma estrutura completa para funcionar. Eu não vejo a solução para o futebol brasileiro na criação das ligas. Hoje os clubes têm toda a liberdade para organizar os campeonatos que quiserem, da forma que preferirem. A Federação simplesmente existe para fazer valer aquilo que os clubes estabelecem nos conselhos arbitrais. Então, a finalidade das ligas será a mesma das federações, só vai mudar o nome.
Mas existe um ponto na Lei Pelé, estabelecendo o fim da chamada Lei do Passe, que é um problema sério para o futebol brasileiro. Para quê os clubes vão continuar investindo na formação de jogadores, com gastos enormes em centros de treinamento, se eles não terão o direito no passe do atleta, somente o direito parcial ou temporário? Não será preferível o clube adquirir o jogador já pronto, pois o investimento é muito menor? Hoje quem pratica futebol são as pessoas de menor poder aquisitivo. Então o sujeito vai ter que pagar para aprender a jogar futebol, ao invés de receber alguma assistência para poder se manter. Esses quatro anos que a Lei Pelé garante ao clube que formou o jogador, depois que o atleta for profissionalizado, para ter o retorno do investimento, é muito pouco.

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