Filha de pai benzedor e mãe parteira, a técnica em Enfermagem Maria Aparecida Bezerra da Silva, de 55 anos, carrega no sangue o dom de cuidar. A abnegação a levou além da relação profissional com os pacientes. Depois de ficar viúva aos 28 anos e criar sozinha os três filhos biológicos, Maria só fez aumentar a família. Há 18 anos, ela adotou o primeiro filho. Hoje, já são dez crianças que ela retirou de situação de risco e que moram com ela em um sítio no Bairro Rural de Santa Joana, em Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro).
Os seis meninos e quatro meninas eram crianças que fugiam ao padrão de preferência de adoção do brasileiro: brancos e saudáveis. Atualmente, dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que apenas 42% da população dizem não se importar com a etnia do filho que procuram. Em 2011, eram 31%. No caso dos filhos de Maria, a cor da pele era mero detalhe. Difícil encontrar uma mãe para crianças com deficiências físicas e mentais, alguns praticamente à beira da morte. Assim foi com Paulinho, o primeiro adotado, com 1 ano de idade.
Maria conta que o pai biológico do garoto o levou no pronto-socorro para retirar um bicho-de-pé. "Quando o Paulo chegou, percebi que era muito mais que isso. Tinha assaduras e feridas por todo o corpo", lembrou. A mãe de Paulinho estava internada em um hospital psiquiátrico, o pai bebia e a avó "se arrastava pelas paredes", de tão fraca. A enfermeira foi até à casa da família e pediu para cuidar da criança até a mãe voltar. "Foi quando me disseram que poderia ficar com ele de vez. Minhas pernas tremeram, mas aceitei. Era minha missão".
Paulinho permaneceu internado por 15 dias com uma infecção generalizada. Depois de vencer a morte, foi levado para a casa de Maria. O mesmo aconteceu no ano seguinte, com a segunda filha adotiva, Janaína, hoje com 16 anos e na época com quase 1 ano. Três meses depois de adotada, a menina desnutrida e com crises graves de bronquite já dava os primeiros passos pelo quintal. "Ficou gordinha, dava gosto de ver". Em seguida, vieram Paulo, de 15, Maria Isabel, de 16, Mateus, de 13, Maria Isabel, de 12, e Ana Vitória, de 4. "Os dois Paulo e as duas Maria Isabel foram coincidência, pois não dei nome para nenhum", contou.
Antônio, de 10, e Ismael Davi, de 4, são netos que viraram filhos. "O primeiro casamento da minha filha mais velha não deu certo e as crianças ficaram comigo, mas ela sempre vem vê-los". O mais velho, Rogério, de 19 anos, foi o último a ser adotado, há cinco anos. Nele, a deficiência mental é mais acentuada que em outros três irmãos. O rapaz corpulento passa toda a manhã a arrastar pelo barbante um caminhão de brinquedo cheio de areia do terreiro do sítio. À tarde, estuda na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). "Ele era muito violento no abrigo, tinha crises. Trouxe ele para cá para ver se se adaptava. O convívio foi muito bom e ele ficou".
Para manter a casa grande, porém modesta, Maria tem que fazer milagres com a aposentadoria de R$ 1,5 mil que recebe do hospital onde trabalhava. Ela revela que conta com algumas doações. Do total, R$ 400 é destinado ao pagamento do aluguel da pequena propriedade. Com as contas de mercado, padaria e farmácia, a renda fica toda comprometida. Só de pães, são 28 unidades todos os dias. O freezer e a despensa nunca ficam vazios. "Ela é a melhor mãe do mundo, além do carinho, não deixa faltar nada em casa", elogia Mateus.
O reconhecimento vem até mesmo da juíza da Vara da Família, Infância e Juventude, Maristella Andrade de Carvalho. De acordo com a magistrada, as adoções de algumas crianças ainda não foram concluídas, mas segundo ela, os processos correm favoráveis para a legalização diante do histórico de boa conduta da técnica em Enfermagem. "Ela é um exemplo de abnegação, pois retirou estas crianças de situação de abandono. Isto supre a falta de afeto e proporciona a possibilidade de um futuro melhor para eles", ressalta.

Susto
Há dois anos, Maria passou por um grande susto, mas teve a certeza de que vale a pena praticar o bem. Um incêndio consumiu toda a casa de madeira onde morava com os filhos em outro sítio, na Serra do Palmital, no mesmo município. A ajuda da população não tardou a aparecer. Ganhou uma casa para morar no centro da cidade até que conseguisse outro lugar definitivo. As doações de alimentos, colchões, roupas não paravam de chegar. O carinho da cidade comoveu a mulher durona. "Até então nunca havia precisado de ajuda. Fiquei muito emocionada com aqueles gestos".
O sonho de Maria é construir a casa própria na Água das Bicas, bairro rural onde nasceu e foi criada junto a 14 irmãos. Ela lembra da mãe, Joana Coiado da Silva, falecida há cinco aos 76 anos de idade. "Tudo que faço para ajudar os outros aprendi com ela. Neste Dia das Mães, queria muito que ela estivesse comigo". Voltar para a cidade, não está nos planos de Maria. "Não quero, está muito violenta. Aqui no sítio mantenho meus filhos longe das coisas ruins que são vendidas por lá", disse, referindo-se às drogas. Sobre a possibilidade de novas adoções, ela diz que só Deus pode responder. "Acho que já fiz minha parte, mas é como dizem: coração de mãe, sempre cabe mais um". (Leia mais na página 11)

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