O direito de morrer com dignidade
Há alguns anos, o médico cardiologista José Eduardo de Siqueira, de Londrina, recebeu de um paciente terminal o seguinte bilhete: ''Não aguento mais. Por favor, vamos parar por aqui''. Era o pedido de um senhor que sofria de uma cardiopatia gravíssima, segundo o médico, e estava há alguns dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa.
Para o médico, o pedido foi um impacto; afinal o paciente praticamente pedia para morrer. ''Naquela hora parei tudo e sentei do lado dele para conversar''. Siqueira conta que o paciente passava por um ''sofrimento brutal'', tanto físico, como emocional. ''Ele estava isolado na UTI, sem poder falar com parentes'', relata. Depois disso, o acesso da família foi liberado e o paciente chegou a melhorar. ''Ele morreu depois de duas semanas, mas com serenidade'', conta o médico.
O direito do paciente de morrer com dignidade é uma reflexão, que não só médicos, mas toda sociedade deve fazer - defende Siqueira, que é vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética e coordenador do Comitê de Bioética do Hospital Universitário (HU) em Londrina.
Para Siqueira, hoje a morte é vista como um ''fracasso''. Nas primeiras décadas do século 20, quando o poder tecnológico da medicina era pequena, era possível fazer pouco para salvar pacientes terminais: ''Havia um caminho natural da morte'', diz. Tanto é que antes da década de 50, mais de 50% dos óbitos ocorriam em casa. ''Hoje, 95% é no hospital'', completa.
A reflexão a que Siqueira se refere é até que ponto a medicina deve interferir na morte. Até que ponto a ''obstinação terapêutica'', quando o paciente é mantido respirando e tem seus órgãos funcionando através de aparelhos, é válida. ''É uma questão filosófica até - 'que vida está se prolongando?', uma vida biológica, ou uma vida humana?'', questiona.
O limite, no entanto, entre o que é um doente terminal ou não, segundo Siqueira, ''não é muito óbvio''. ''Diante de uma doença incurável, a situação é clara. Mas o caso da Terri, por exemplo, não era terminal, mas sim, vegetativo persistente, que é diferente do permanente. Parece apenas uma diferença semântica, mas o persistente pode voltar a si'', afirma.
Citando um aforismo do médico inglês Oliver Holmes, que viveu no final do século 18, Siqueira conclui: ''a medicina cura às vezes, mas deve aliviar e confortar sempre''.(C.P.)





