O difícil aprendizado da fala
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domingo, 23 de julho de 2006
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
Acompanhar as primeiras palavras de um bebê pode ser um privilégio. Mas por mais ''engraçadinha'' que seja sua fala no início, o que todo pai quer é que ele venha a falar corretamente no futuro. Para isso, alguns cuidados são fundamentais, afinal aprender a falar não é tão fácil quanto parece.
A fonoaudióloga Cláudia Sordi Ichikawa, professora da Universidade Norte do Paraná (Unopar), explica que é uma coisa é a aquisição da linguagem, outra a da fala. Da linguagem fazem parte o sistema de cognição, memória, conceitos e idéias, e a fala é um dos modos de expor, articular, tudo isso. Para a fala, é preciso que se desenvolva a parte motora das articulações, como lábio, língua e bochecha, para que se possa pronunciar os sons. ''As duas coisas vão crescendo juntas, a criança vai recebendo as informações linguísticas e desenvolvendo a parte motora'', explica.
Quando o bebê começa a falar as primeiras palavras, por volta dos 12 meses de idade, já entende muito mais do que consegue reproduzir. E aos dois anos, ressalta o fonoaudiólogo Moisés Pereira Júnior, já é capaz de pronunciar frases simples. Por isso, uma criança de dois anos que ainda não fala nada, mas que apresenta uma boa compreensão do que os outros dizem e só aponta quando quer algo, merece uma avaliação fonoaudiológica.
A criança aprende a falar em contato com o meio, ouvindo conversas, músicas e histórias, aprendendo sons e palavras. Por isso, uma boa maneira de ajudar é colocá-la em contato com sons diferentes. Para Pereira Júnior, contar histórias, acompanhar com diálogos as coisas que faz com a criança, e mostrar interesse pelo que ela tem a falar são boas formas de estímulo. ''Ao contar uma história, por exemplo, você trabalha a linguagem, mas também a atenção, a memória, e sequência lógico-temporal, sem contar a questão afetiva'', afirma.
Até os três, três anos e meio de idade, é normal que a criança ainda não consiga falar alguns sons mais ''difíceis'', como os da letra R, K e S, porque a parte motora ainda não está totalmente madura. Mas apesar de ''bonitinha'', alerta o fonoaudiólogo, os pais ''não devem reforçar o padrão infantilizado da fala''. ''Ela tem a informação acústica, mas ainda não está preparada para falar, por isso é importante que os pais dêem o modelo adequado para ela'', reforça Cláudia.
Aos quatro anos de idade, é esperado que a criança fale todos os sons corretamente, inclusive os mais difíceis, como os encontros consonantais. Mas se a família perceber que antes disso a criança fala bastante, mas ninguém entende, também é importante buscar auxílio profissional.
Segundo Claúdia, algumas crianças têm mais dificuldade na aquisição de sons, que outras, mas o problema não é cognitivo. ''O que tenho percebido é que as crianças que são mais ativas, não prestam muita atenção na fala do outro e vai levando como entende'', ressalta. O comportamento mais ativo, aponta, pode explicar a maior incidência de meninos com dificuldades de fala.
Uma orientação profissional precoce, alertam os especialistas, pode evitar problemas na alfabetização, com a troca de sons ''parecidos''como o 'b' por 'p', 'd' por 't' ou 'v' por 'f'. Mais cedo, o tratamento também poderá ser mais rápido e simples, além de evitar expor a criança a um constrangimento, com uma fala não pertinente à idade. ''Algumas não estão nem aí, mas outras ficam chateadas, se sentem excluídas e cobradas se falam errado algumas palavras'', alerta Cláudia.


