O DIA DO CHACAL
Uma discussão bizantina sobre meios utilizados para alcançar determinados fins envolve autoridades de São Paulo. Nada de Maquiavel: a pretexto de apurar ''ilegalidades'', certo tipo de autoridade adota uma postura cujo resultado final é absurdo: os criminosos não podem ser importunados e as ações por eles planejadas não podem sofrer nenhuma interrupção. É assim que a síndrome do pânico invade as cidades.
O que aconteceu em São Paulo: para enfrentar os bandidos que formaram até associação criminosa, a Secretaria da Segurança criou um grupo especial para usar o cérebro a decantada ''inteligência'' dos jargões para infiltrar-se entre os bandos, descobrir seus planos e agir antes que assaltos, sequestros e ações do tráfico de drogas se consumassem. Que há de errado nisso? Obviamente, nada. Detalhes: a Secretaria da Segurança Pública é dirigida por um promotor; as ações de inteligência foram avalizadas pelo juiz-corregedor dos Presídios. Mas, segundo interpretação fora do mundo feita pelo Conselho Executivo da Associação Juízes para a Democracia, a entidade ''indignada'' conclama as ''instituições democráticas do país a exigirem que as autoridades levem a fundo as investigações sobre o assunto e sejam os responsáveis punidos''. Isso quer dizer, portanto, que a entidade dos juízes ''democratas'' (os demais são ''autoritários''?) deseja chumbo para quem investigou o crime organizado e mel para os importunados por essas investigações. A quem interessa tal tipo de posicionamento?
Escrevendo ''O Dia do Chacal'', o escritor Frederick Forsyth escreveu a história de um plano para matar o presidente De Gaulle. Obstruir o esquema exigiu a colaboração da Scotland Yard, o serviço secreto inglês e autoridades francesas. Não havia opção. Um ''Chacal'' ao sul do Equador, prisioneiro na Penitenciária de Avaré, interior paulista, foi retirado da prisão para indicar o local de uma reunião do PCC, o Primeiro Comando da Capital, onde se discutiria o plano de resgate para três membros da facção criminosa. A Polícia cercou o lugar, houve troca de tiros, e quatro mortos, entre eles o próprio informante ''Chacal''.
Parece coisa de filme. Mas é pura realidade. Em episódios subsequentes, o esquema de infiltração isto é, a colaboração de presos, monitorados, para chegar ao epicentro de bandos organizados frustrou sequestros, resultou na apreensão de armas pesadas e drogas e livrou a sociedade de muita coisa ruim. O coral desafinado que considera ''ilegais'' ações inteligentes como estas prefere deixar à vontade as quadrilhas que fazem isso em sentido inverso: contaminam instituições com a corrupção, infiltram-se para obter informações para as ações criminosas serem precisas e eliminam suas vítimas sem dó ou piedade. Na ''guerra'', como muito se define tal situação, ''a primeira vítima é a verdade'', como dizia em 1917 o senador norte-americano Hiram Johnson. Aqui e agora, está se dizendo não à inteligência, sim à incompetência. Não, definitivamente não: mocinho não é bandido, bandido não é mocinho. Afinal, estamos torcendo para quem?





