Curitiba - Maria tem 4 anos, adora andar de bicicleta e comer chocolate. Gabriela, de 16 anos, estuda, namora e sonha em fazer um curso de fotografia. Já Joaquim, 16, quer ser jogador de futebol; e Carlos, 20, vai se formar técnico de informática. Em comum o mesmo passado, mas com a perspectiva de um futuro diferente. Todos são portadores do vírus da Aids. Hoje é celebrado o Dia Mundial de Combate à Aids.
Essas crianças e jovens, cujos nomes são fictícios, vivem atualmente na Associação Paranaense Alegria de Viver (Apav), em Curitiba. O local existe há 18 anos e já atendeu cerca de 250 crianças e adolescentes. A entidade depende de doações de todos os tipos para continuar funcionando (roupas, alimentos, móveis etc.) Atualmente 18 permanecem morando na associação. Grande parte foi adotada, outros já retornaram ao convívio de familiares.
Carlos de 20 anos, trabalha na parte administrativa da Apav e está ansioso pela formatura. Ele conta que entrou de cabeça nos estudos. ''Por enquanto não estou pensando em outra coisa. Estou deixando até de namorar para me concentrar e me formar antes de começar a trabalhar. É o meu objetivo de momento'', explicou.
Carlos chegou aos 2 anos na instituição. A família não tinha condições de bancar um tratamento. ''Cheguei aqui muito doente, meus pais não tinham como me ajudar. Mas depois que fiquei aqui só fui entrar em contato com a minha mãe aos 8 anos. No momento não tenho mais relação com ela, com meu pai um pouco mais'', destacou. Ele também conta que apenas os amigos mais íntimos sabem que ele é portador do vírus. Fez isso porque já sofreu preconceito quando aos 4 anos, numa escola, ficou constrangido ao ter a notícia revelada em plena sala de aula. ''Era criança, mas até hoje prefiro contar somente para os verdadeiros amigos.''
Gabriela estuda e namora há algum tempo e, da mesma maneira que Carlos, somente contou sobre sua condição às pessoas mais próximas. ''Não escondo a minha situação dos meus amigos. Tenho confiança neles. Só não vou sair por aí contando para todo mundo porque isto não me importa. Sigo com a minha vida e faço o que gosto'', declarou. Ela perdeu a mãe com 2 anos e o pai era dependente de álcool. Foi morar com a tia que, posteriormente faleceu. Com isto o avô a encaminhou para a associação. ''Gosto daqui e me dou bem com todos.''
Expectativa
Joaquim passou a querer jogar futebol por causa do Neymar e Paulo Henrique Ganso. Santista há três anos, o adolescente, ao contrário dos ''irmãos'' da Apav, não contou a ninguém que é portador do vírus HIV. ''Não sei por que, talvez seja medo, nunca senti necessidade de contar. Acho que até por isso ainda não sofri preconceito ou não me lembro'', afirmou.
A menina Maria chegou à Apav com apenas dois meses junto com o irmão, Vinicius, de 7 anos. O pai obrigava o menino a trabalhar pedindo dinheiro nos ônibus de Curitiba para comprar entorpecentes. O menino frequenta a escola há cinco anos e a mais nova ainda brinca por todo o espaço. Envergonhada e sem querer conversar, a criança apenas sorriu e balançou a cabeça, confirmando que gosta de andar de bicicleta, ainda sem ter noção do que significa ser portadora do HIV.
Informações sobre a Apav: www.apav.org.br e (41) 3079-4779 ou (41) 3229-4779

Imagem ilustrativa da imagem O desafio de superar o preconceito