O culto ao corpo que pode matar
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domingo, 05 de março de 2006
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
A adolescente Graziela de Biaggi deverá comemorar seu aniversário de 14 anos, no mês que vem, com muito bolo, refrigerante e brigadeiro - algo comum para a maioria das meninas dessa idade, mas impensável para ela há pouco mais de um ano e meio atrás. Nesta época, seu ideal de beleza era a boneca Barbie, alta e extremamente magra: ''perfeita''.
Determinada a alcançar essa magreza, Graziela começou a induzir o vômito depois das refeições. Depois simplesmente parou de comer e chegou a passar dias inteiros com apenas algumas folhas de alface. Nessa época pesava 48 quilos para quase 1,75 metro de altura.
A jovem é um exemplo de que o desejo obsessivo de ser magro, e supor que através disso se conquista a própria felicidade, pode levar jovens a um auto-martírio - deixar de comer ou vomitar o que se come. Nos casos de anorexia nervosa e bulimia, os chamados transtornos compulsivos alimentares, a busca é por uma beleza irreal, que passa muito perto da morte.
Publicações recentes, segundo o presidente da Associação Brasileira de Adolescência (Asbra) e da Confederação Íbero-Americana de Adolescência e Juventude, o médico Walter Marcondes Filho, de Londrina, mostram que os casos de transtornos alimentares têm aumentado.
A incidência média de anorexia na população, conforme o médico, é de 18 mulheres para cada grupo de 100 mil, e de pouco mais de dois homens para cada grupo de 100 mil. Na bulimia, a incidência é mais elevada, de 28,8 entre mulheres e de 0,8 entre homens.
Os números podem parecer pequenos, mas a gravidade da anorexia se encontra principalmente na alta mortalidade, algo em torno de 30%. A morte é causada por inanição ou parada cardíaca e respiratória.
A doença tem ainda consequências graves - amenorréia (ausência de menstruação), osteoporose precoce, alterações cardíacas e metabólicas, e outras, como a perda de cabelo e pele ressecada e com mais pelos. ''Os ossos ficam mais sujeitos a quebrar, e a pessoa fica mais sujeita a infecções e a várias outras doenças porque a imunidade está baixa'', completa Marcondes. Na bulimia, a mortalidade é menor, mas as consequências igualmente prejudiciais (leia texto nesta página).
Os transtornos alimentares, segundo a psicóloga e psicoterapeuta Fátima Conte, de Londrina, têm como causa uma combinação de fatores - influências sociais e vulnerabilidades psicológicas e biológicas. Este último, o fator biológico, ainda é muito discutido, segundo a psicóloga, porque não há comprovação de que se trata de uma doença com determinação genética. ''Mas há indícios de que no caso de gêmeos, por exemplo, se um dos dois apresenta a doença, o outro também pode ter'', explica.
Já as influências sociais e a vulnerabilidade psicológica são determinantes. Marcondes lembra que a cultura ocidental de ''culto ao corpo'', que exige das pessoas um corpo escultural, sempre em forma, é uma grande pressão, principalmente para adolescentes. ''Hoje, a mídia, o cinema, não valorizam mais a pessoa, não valorizam a inteligência ou a qualidade do artista, mas o corpo e a beleza'', critica.


