O crepúsculo de Gutenberg? Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris (AE) - "Gutenberrg acabou!" - é um dos estribilhos de nosso tempo.
Refresquemos a memória. Em 1450, um alemão inventou em Mogúncia uma máquina impressora, os caracteres móveis e metálicos de impressão e finalmente uma tinta apropriada. Nasceu então a imprensa.
Esta imprensa e seus produtos (os escritos, os livros) inundaram o mundo. Primeiramente a Europa, onde a imprensa favoreceu, entre outras coisas, o triunfo da Reforma luterana, possibilitando o lançamento da Bíblia em milhares de exemplares. Depois, todos os outros continentes, criando a civilização do livro, na qual estamos mergulhados há cinco séculos.
Ora, se acreditarmos nos sociólogos e nos profetas, os cinco séculos de "livros" seriam apenas um momento da história dos homens - momento breve, se nos lembrarmos que o homem é muito antigo, tem quase dois milhões de anos.
E este momento estaria chegando agora ao fim, porque a imprensa de Gutenberg sofre concorrência e está sendo esmagada por um rival "superdotado" - o computador, esta pequena tela fluorescente sobre a qual cintilam os CD-ROMs ou as páginas da Internet, os romances ou as enciclopédias, os jornais, etc.
E, de fato, se imaginarmos que os computadores já podem realizar um bilhão de operações por segundo e que, dentro de dez anos, esse bilhão será multiplicado por dez, ou por cem, ou por mil, se acrescentarmos que a duração da vida de uma "memória" já atinge dez mil anos e que todos os "fichários" e arquivos do mundo (isto é, todas as memórias e todos os cérebros do mundo) são articulados entre si, podemos pensar que Gutenberg já perdeu a batalha, como a perdeu também o papel - esse pobre papel que se amarrota, que pega fogo, que usamos nos banheiros, que se pica e se estraga no lixo. A conclusão parece portanto correta: a era de Gutenberg acabou. Começa a era do silício.
Estas pregações já se tornaram corriqueiras, mas parecem-nos aproximativas. Sem negar a importância do momento-computador, gostaríamos de apontar algumas imprecisões.
A primeira refere-se a Gutenberg. Certamente sua invenção foi majestosa. Apesar disso, não é verdade que ele seja o pai da civilização do livro. Gutenberg limitou-se a aperfeiçoar esta civilização do livro que já existia muito antes dele. Ele não a criou. Na realidade, a civilização do livro remonta a doze séculos antes de Gutenberg, entre o II e o IV século, quando o Ocidente inventou o codex. Antes do codex, havia textos, escritos a mão, mas sob a forma de rolos manuscritos que eram decifrados segurando o rolo com ambas as mãos (vemos estas imagens nas ruínas de Pompéia). A necessidade de segurar o rolo com as duas mãos para abri-lo impedia que uma delas ficasse livre para tomar notas, para comentar, para escrever. Isso impedia também que se pudesse caminhar, lendo o texto ao mesmo tempo.
No início da era cristã nasceu a idéia de copiar os textos sagrados sobre folhas que, encadernadas, ligadas entre si, compunham o "codex", ou seja, mais ou menos o que nós chamamos de livro. Falar de Galáxia Gutenberg é pois uma tolice. Gutenberg limitou-se a acelerar, aperfeiçoar e simplificar a civilização do livro que já existia desde o terceiro século (no século III, os textos eram escritos à mão, mas a passagem para o texto impresso não irá mudar nada).
Segunda afirmação aproximativa: o computador disporia de uma vantagem decisiva sobre o livro. Sua robustez, sua longevidade se opõem à fragilidade, à vulnerabilidade do papel. Ora, dizer isso é deixar de lado uma das características mais geniais do papel: sua resistência, sua robustez, sua perenidade.
Esta matéria superficial, quase transparente, esta matéria que se esmaga entre dois dedos e que um fósforo aniquila, manifesta há 20 séculos uma resistência que poucos materiais conhecem. Uma jóia é confeccionada com pedras preciosas que desafiam o tempo: o diamante é a matéria mais indestrutível. Ora
quando estas pedras invulneráveis estão montadas em uma jóia, demonstram uma fragilidade impressionante: o tempo as destrói, as desarticula, arruina sua armação e as torna fora de moda, pois a lapidação do diamante do século 15 não tem mais nada a ver com a lapidação atual.
Ao contrário, o papel - o mais frágil dos materiais - atravessou os séculos e ficou intato, como se sua fraqueza o protegesse e na medida em que também os escritos que ele relata - os da Bíblia ou de Virgílio, os de um tabelião inglês ou o "livro-razão" de um burguês holandês - ao contrário da "lapidação" das esmeraldas e dos diamantes, não são alterados pelos séculos e nunca se tornam fora de moda. O papel é este "quase nada", mais resistente do que o bronze.
Belo paradoxo: é por sua fluidez, sua leveza, sua flexibilidade que o papel responde ao desejo irreprimível que atormenta os homens e as civilizações: a inalterabilidade, metáfora da eternidade.
Encontramos hoje textos escritos com caligrafia caprichada sobre os primeiros pedaços de papel produzidos na China (por volta do ano 350 antes de Cristo, na época conhecida no Ocidente como a Dinastia Han, porque as mais recentes pesquisas estabelecem que o papel chinês não data da época de Cai Lun, isto é, de 105 depois de Cristo, como se acreditava, mas de quatro séculos antes). Estes textos são legíveis e, portanto, perenes e, consequentemente, intatos. E, se nos lembrarmos que a época Han foi também aquela em que se construiu a Grande Muralha da China, ficaremos admirados de saber que, no extremo da ásia, o mesmo século colocou no mundo o monumento mais vasto da história (a Muralha da China), que resistiu ao tempo graças á sua massa, seu peso e, ao mesmo tempo, o papel, este apoio frágil e efêmero, sobre o qual ainda hoje podermos ler perfeitamente as ordens de um imperador ou as contas de um mandarim.
Reconheçamos porém que, diante do papel, o computador não carece de trunfos decisivos: sua universalidade, sua capacidade de conexão com todas as outras máquinas, sua rapidez, sua longevidade, etc. Mas, destes trunfos técnicos evidentes, deveremos concluir que o papel e o impresso tradicional vão ser desterrados de nossa vida, substituídos pela tela azulada e palpitante dos PCs? Neste ponto, parece-nos que outra "idéia falsa" merece uma retificação. Em sua ânsia de "modernidade", em seu prazer de proclamar sua "ruptura" em relação aos seus antepassados, os homens acham que toda inovação (artística, técnica, cultural, financeira, política, etc.) vai destronar e abolir a totalidade do passado.
Nada mais falso. "Tudo está no presente"- diz magnificamente William Faulkner, em "O Intruso". "O ontem só acabará amanhã e o amanhã começou há mil anos!". Em outras palavras, o tempo não é nem linear nem irreversível. Os séculos coabitam. Um país encerra em si - como as diversas escritas ocultas, umas sob as outras, em um palimpsesto - a totalidade dos reis, das revoltas dos camponeses, das guerras de seu próprio passado. Da mesma forma, uma invenção não lança ao nada as invenções que a precederam. É por isso que vale a pena inclinar-se sobre a história de outras técnicas para melhor entender o combate que se prepara, entre o papel (o passado) e o silício (o futuro).
No século 19, foi inventada a fotografia. Um pintor francês (Ingres, parece-me, ou talvez Manet) encarou com desespero a perfeição dos primeiros clichês. E disse a um amigo: "Nós, os pintores, estamos perdidos! Não poderemos lutar. A pintura acabou...Mas... psiu! Não o repita mais".
Este pintor se enganou. Desde sua época, não apenas a pintura não cedeu lugar à fotografia, mas conheceu um de seus mais fecundos períodos (o impressionismo, o cubismo, o surrealismo, o fauvismo abstrato, etc...) Quando a máquina a vapor foi inventada, parecia claro que a navegação a vela estava condenada. Ora, muito tempo depois da invenção dos navios a vapor, no fim do século 19, foram lançados aos oceanos os mais belos veleiros de todos os tempos, os grandes "clippers" e os "cap horniers".
E jamais como hoje a navegação a vela provocou tanta paixão no público.
Poderíamos multiplicar os exemplos. O carro não destronou o trem. Se o cavalo desertou dos campos, está trotando em todos os clubes de equitação do mundo. Nos países frios, apesar dos aparelhos de calefação, nada se compara a uma lareira com sua chaminé. Sob qualquer inovação, até mesmo a mais estupenda e aparentemente a mais desvinculada do passado, subsiste uma invenção muito mais antiga. O átomo, do filósofo grego Demócrito (460-370 antes de Cristo ) está por trás da física quântica de nosso século.
E isso, ao que me parece, transforma fundamentalmente a idéia de que é preciso fazer a modernidade. A verdadeira modernidade não é constituída pelo que se inventou ou publicou ou se espalhou neste ano. A modernidade é a soma de tudo o que nutriu outrora os objetos, as formas e as sensibilidades do momento atual, do momento em que eu vivo. A modernidade é a soma de todas as modernidades que se sucederam desde o início da humanidade. A música dodecafônica não destrói a música clássica. Ela a amplia, revela suas efígies ocultas.
Destas evidências não se concluirá porém que a batalha do papel e do silício seja uma batalha ilusória ou imaginária e que ela não terá efeitos sobre as culturas e mesmo sobre as civilizações. Ao contrário: o computador introduz uma metamorfose mais forte, muito mais forte do que a de Gutenberg, uma ruptura que deve ser comparada, não à ruptura de Gutenberg, mas à do "codex". Os efeitos desta ruptura são simplesmente mais sutis do que às vezes se diz.
Lembremos em primeiro lugar uma evidência: o papel tem inúmeros usos (acender o fogo, forrar esquifes, fazer caixas, embalagens, decorações, circulares, passaportes, etc. ) mas sua utilização mais nobre, mais constante é a de servir para ser impresso, para criar livros: livros de técnica, de ciências, etc
e livros de literatura. A questão mais pesada seria então esta: visto que a literatura ocidental se confunde com o "tempo do papel", poderíamos então dizer que a irrupção do computador acaba com a literatura?
A resposta é óbvia. Evidentemente, não! A literatura não nasceu com o papel, nem com a escrita. Nasceu com o primeiro vagido de uma criança, prolongando-se depois através dos contadores de histórias, dos saraus, das lendas, em resumo, de toda a literatura oral, e depois, em alguns países - na Babilônia e na Suméria, no Egito, na Grécia - através da literatura escrita (papiros, pergaminhos, depois o papel). Uma necessidade tão profunda, tão conatural à história humana não poderia pois de forma alguma ser estragada por uma nova técnica, por mais fulminante que seja.
Em contrapartida, se a literatura acompanhou sempre e sem desfalecimento, a peregrinação dos seres humanos, é incontestável que ela se transformou por inúmeras razões (históricas, culturais...) e, entre estas razões, é preciso citar uma determinante: a evolução técnica, a renovação dos apoios da escrita ou do livro. Esta é pois a pergunta que os profetas deveriam responder: a chegada brutal do computador pode transformar a literatura?
Aqui a resposta é "sim". O computador vai inevitavelmente modificar a literatura em seus dois momentos cruciais: a fabricação do texto (o autor) e a consumação do texto (o leitor). Imaginemos um sumério que se arma de um estilete e pega uma placa, ou tábua, feita de argila, para escrever por exemplo à sua amada. Ele irá bater seu estilete a golpes de martelo para formar letras "cuneiformes" (em forma de cunhas) - um meio bastante brutal e não muito bem adaptado para exprimir a uma jovem sentimentos delicados, vaporosos, patéticos.
Da mesma forma, mal podemos imaginar essa garota suméria correndo para junto do poço de água da aldeia, logo depois de receber o "correio", para mostrar às suas coleguinhas a "tábuinha" de seu querido.
(Será preciso dizer que este exemplo é imaginário? As tabuinhas em letras cuneiformes serviam para transmitir as ordens do rei, as normas dos governadores, os cálculos das coletas , mas jamais, jamais mesmo, os soluços dos corações amorosos - e isso prova, precisamente, que, para revelar a alma, não convém escrever com um martelo e um estilete sobre uma tabuinha de argila, mas com uma caneta estilográfica sobre o papel, ou, melhor ainda, com uma pena de pato ou mesmo de pavão, se a pessoa possuir um coração verdadeiramente muito amoroso.)
A pergunta é então esta: o escritor irá escrever romances, poemas, peças de teatro diferentes quando não trabalhar mais com sua caneta Bic sobre papel, mas sim com um computador sobre uma tela? É difícil responder porque não temos um recuo no tempo.
Apesar disso, os manuscritos de outros tempos podem dar as indicações: examinemos um manuscrito de Balzac, de Flaubert. Está cheio de palavras riscadas, de acréscimos, de borrões de tinta, de notas e aditamentos. O texto parece uma tatuagem, uma porção de cicatrizes, de estigmas e de marcas gravadas na "carne" do papel, a tal ponto que se pode decifrar, como num encefalograma, as pulsações do cérebro criador no curso de seu trabalho.
Marcel Proust escreveu sua obra imensa sobre folhas. Depois, ele cortou e colou outros pedaços de papel, acrescentando-os a tal ou qual lugar de sua página, pedaços de papel que ele chamava de "paperolles" - imensas tiras estreitas, algumas delas medindo até dois metros de comprimento. (Acabo de escrever
a propósito de Proust, que ele cortava e colava e me dou conta de que isso faz parte de uma linguagem de computador: "cortar, colar", mas não tem o mesmo sentido). Ora, Balzac, Flaubert e Proust estão sendo enviados para a Idade Média pelo computador. Com a prodigiosa maleabilidade do computador, com sua aptidão para substituir as palavras riscadas - "deletadas" - e garantir imediatamente a retomada da frase, com sua capacidade de substituir a desordem terrível e magnífica do espírito, no momento da criação, pela ordem absoluta da página morta sobre a tela, ninguém duvida que o próprio imaginário da literatura conhecerá uma transformação radical, cuja direção não podemos prever e que poderá galvanizar, ou, ao contrário, empobrecer a criação. (No momento, a única consequência visível do uso do computador entre os escritores é que se escreve cada vez mais depressa e, portanto, se publicam cada vez mais livros e isso ameaça provocar o enfado, a saturação e o colapso da literatura).
Se nos concentrarmos atualmente no consumidor - no leitor - as mudanças devidas ao computador já não são tão insignificantes
Ler um livro é senti-lo, apalpá-lo, acariciá-lo entre os dedos, abri-lo, fechá-lo, respirar seu perfume, sua poeira, lê-lo deitado, sentado, de pé, caminhando, no metrô, ou ainda enquanto a família conversa na sala vizinha. É rabiscá-lo, tomar posse dele através de desenhos e garatujas, da sujeira, da marca dos dedos sobre as páginas, é fechar os olhos para saborear sua magia, o som abafado das palavras, etc...
Ao contrário, entrar numa destas bibliotecas modernas, onde se lê livros no computador, é ver corpos eretos, olhares imóveis
estendidos, virtuais, totalmente isolados dos rumores da cidade
da rua. (Para mim, lançar o olhar no salão de leitura da Grande Biblioteca da França, informatizada, foi uma experiência desoladora).
Mas as diferenças vão muito mais longe e algumas até beneficiam o computador. Por exemplo, não podemos dizer que o leitor do computador participa da criação, da confecção do livro
escolhendo seu formato, a altura ou o desenho de seus caracteres, etc?... Podemos além disso colocá-lo em correlação com qualquer outro livro, seja ele qual for: da mesma forma que, por trás do livro que eu leio em casa palpitam todos os outros livros que li, mas também todos os livros de minha biblioteca ou da livraria vizinha, da mesma forma podemos dizer que, por trás da tela sobre a qual estou decifrando Homero ou Balthazar Gracian, palpitam não apenas todos os textos que eu li, todos os de minha biblioteca, mas também todos os livros escritos desde o início dos tempos, aquilo que Borges chama magnificamente de "a Biblioteca de Babel".
Ainda um esforço e indaguemos se a própria natureza desse apoio não tem um efeito, ao mesmo tempo simbólico e real, sobre a maneira de escrever e sobre a maneira de ler: com a tabuinha de argila escrevia-se sobre a geologia, sobre a terra, para contar fatos ou dar ordens. Com o pergaminho, o apoio provinha do mundo animal (a pele do boi, do novilho, etc...) e era o tempo da literatura oral, da memória viva, do diálogo e do efêmero.
Depois, surge a civilização do papel (China, dois séculos antes de Cristo e, bem mais tarde, o mundo árabe, depois a Europa, por volta do século 7 depois de Cristo). E o papel procede do mundo vegetal, cria a literatura escrita e permite a acumulação do saber. Enfim, hoje, o apoio é o silício, o que nos induz a esperar dele o artificial e o virtual.
Mas, será preciso separar com tantos cuidados os quatro "apoios" sucessivos do pensamento e da literatura? Não o cremos, pela razão dita mais acima: as inovações técnicas não se anulam. Elas se adicionam e se fecundam mutuamente. Na realidade
o papel, o pergaminho e o silício são simultâneos - são, de certa forma, contemporâneos. A prova desta coabitação do livro e do computador e talvez de seu mútuo enriquecimento é esta: nunca se consumiu mais papel do que após a invenção da informática e jamais se publicou tantos livros e jamais se leu tanto. Certamente, muitos usos modernos do papel não terão relação com a literatura (caixas, embalagens, indústria, limpeza...) mas o livro, o jornal, etc. continuam consumindo 45% do papel mundial. Quer dizer que o computador, bem longe de reduzir o uso do papel nobre (livro, jornal, etc.), ao contrário, o aumentou e galvanizou.
"Acumulo em minha casa bem mais papel do que antes da chegada do computador e de todas estas máquinas, chamadas sem papel", disse Jacques Derrida. E que dizer dos livros? Em minha casa, dentro em breve, não colocaremos mais os pés sobre o chão: é papel sobre papel..."





