Jaqueline ConteCrítico rigorosoMagloire Muleka-Dítoka: ideologia do ocidente é sustentar Mobutu e continuar explorando o Zaire Professor universitário. Magro, elegante, educado e observador. Uma vida simples, mas confortável, no conjunto Vivendas do Arvoredo, bairro da zona sul de Londrina. Um computador, amigo inseparável de pesquisas e projetos. Na estante, quantidade considerável de títulos. Esse poderia ser o perfil de muitos integrantes da classe média londrinense, não fosse um fato simples: o registro de nascimento.
Magloire Muleka-Dítoka wa Kalenga, 54 anos, nasceu no município de Lubumbashi, província de Katanga (hoje, Shaba), na atual República Democrática do Congo. O novo nome dado ao Zaire foi uma das mudanças que o país da África Central sofreu, depois de se ver livre do ditador Mobutu Sese Seko Kuku Ngbendu wa Za Banga, ou simplesmente Mobutu, que deixou o poder depois de 31 anos. Quem tem o país nas mãos agora é o rebelde Laurent Kabila, que em apenas sete meses de ofensiva chegou com suas tropas a Kinshasa, a capital, último reduto do ditador.
Muleka é jornalista, formado pela Escola Superior de Jornalismo de Paris. Também é graduado em Relações Internacionais pela Universidade Nacional do Zaire. Trabalhou na Rádio Televisão Nacional do Congo (RTNC) e foi assessor do ministro de Desenvolvimento Rural daquele país, de 1977 a 1981. No Brasil há 16 anos, ele fez mestrado em Publicidade e Propaganda e doutorado em Ciências (Cibernética: Comunicação e Controle), na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Há um ano e meio, é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), ministrando matérias como Teoria da Informação, Comunicação Comparada e Rural.
Muleka veio para o Brasil em 1981, quando era assessor do Ministério de Desenvolvimento Rural do Zaire. O objetivo da viagem era pesquisar soluções para seu país, na área da comunicação rural. O Ministério estava à procura de experiências de outros países, o que já havia levado o assessor a várias regiões africanas e aos Estados Unidos, em missão de observação e aprendizagem.
Como as experiências africanas estudadas foram consideradas insuficientes para solucionar o problema do Zaire, e as norte-americanas muito sofisticadas para as condições do país, Muleka veio ao Brasil à procura de uma síntese, estimulado pelo trabalho desenvolvido pelo educador Paulo Freire.
No meio da pesquisa, o ministro zairense morreu em um desastre; segundo o professor, em condições não explicadas até hoje. Um pouco perdido, o inesperadamente ex-assessor decidiu continuar no Brasil.
Hoje, separado de sua terra natal pelo Atlântico, Muleka acompanha atento a realidade do país e compartilha da opinião de parentes que deixou por lá, e da esperança da maior parte dos cidadãos do novo Congo: o país deve melhorar. ‘‘O simples fato de tirar Mobutu do poder já é uma melhora. O povo inteirinho está a favor de Kabila. Não houve guerra. Por onde Kabila passava, os militares não lutavam, apenas entregavam as armas. Não foi como em Brazaville (no outro Congo), onde em uma semana mais de dez mil pessoas foram mortas. A consciência coletiva está a favor de Kabila e isso vai ajudar a desenvolver o meu país’’, afirma o professor.
A opinião de Muleka, porém, não é compartilhada por todos. O novo chefe também é visto com desconfiança. Adjetivos como oportunista e traidor estão no repertório de quem acredita que Kabila seja simplesmente um fantoche dos líderes tutsis das vizinhas Uganda, Ruanda e Burundi, que tinha suas tropas constituídas majoritariamente por representantes dessa etnia. Pessoas como o ex-relator do Congresso zairense Valentin Mubake Nombi, a quem se atribui a afirmação de que Kabila tem como missão dar contratos comerciais lucrativos aos americanos, além de fazer concessões territoriais aos países vizinhos que o controlam.
O professor, no entanto, não dá crédito a essas afirmações. O importante para Kabila nesse momento, segundo ele, é fazer com que o país abandone o que o ocidente batizou de ‘‘cleptocracia’’: ‘‘O Mobutu instaurou uma consciência de roubo sistematizado. Kabila, ao que me parece, é autônomo e livre. Ele não depende, não foi colocado pelas potências internacionais. Além disso, é um antigo colega de Patrice Lumumba, o primeiro-ministro libertador, o herói nacional (representante da esquerda zairense que morreu, depois de ser preso e torturado). Kabila é marxista. Dificilmente vai se deixar levar pela manipulação.’’
Em relação ao suposto perigo que os membros da etnia tutsi que participaram da derrubada de Mobutu representariam, Muleka parece tranquilo. Ele conta que os tutsis do Burundi e de Ruanda foram para o Zaire há 200 anos. Mesmo assim, Mobutu não queria reconhecer a nacionalidade zairense. Isso fez com que eles se rebelassem contra o ditador. Kabila teria aproveitado a rebelião para retomar a luta para a libertação do país.
Outro ponto que desperta dúvidas quando se fala em Zaire é a posição de Etienne Tshisekedi wa Mulumba, considerado o mais importante líder da oposição não-armada ao regime deposto. Chefe da União para a Democracia e o Progresso Social (UDPS), ele foi primeiro-ministro de Mobutu por rápidas 48 horas. O que alguns esperavam de Kabila é que ele se aliasse à outra oposição, o que não aconteceu. Kabila recusou-se a aceitar qualquer aliança com pessoas que tivessem participado do antigo governo. Muleka acredita que a idéia de que Tshisekedi queria tirar Mobutu de forma pacífica é reflexo de um medo da mudança, sentido pelo ocidente, mais especificamente pela França.
Muleka também comenta a cobertura da imprensa no episódio da mudança do governo zairense. É notório que as notícias que chegam ao Brasil são, na sua quase totalidade, distribuídas pelas agências de notícias. ‘‘Elas são ocidentais - afirma o professor - além disso são empresas privadas, que procuram lucro. E o lucro também está ligado às emoções e tragédias. Eles estão passando o que lhes interessa. E qual é a ideologia do ocidente? Sustentar Mobutu, ajudar Tshisekedi a entrar no poder, porque isso ajudará o ocidente a continuar explorando o Zaire’’.

mockup