O CASO SONINHA
Soninha, competente e simpática apresentadora de um programa de televisão para adolescentes, foi demitida da TV Cultura porque deu uma entrevista à revista ''Época'' admitindo que faz uso da maconha. O caso teve enorme repercussão - gente contra, gente a favor - e o Ministério Público entrou na dança, ameaçando enquadrar a moça e a revista que publicou a matéria por apologia do crime.
Como sempre procuro fazer, vamos tentar analisar tudo isso com os pés fincados no chão. A maconha tem os seus cultores e também seus inimigos. Por causa disso, Soninha viu-se no centro de uma discussão onde muitos estão falando e poucos se entendendo. Aos fatos, pois.
Que me desculpem os fumacês de plantão, mas ouso afirmar que é um atraso de vida buscar o desfrute de melhores momentos com o consumo de uma substância entorpecente. Dizer que a maconha é menos ofensiva do que álcool pode valer como crítica à hipocrisia da sociedade, que divide as drogas entre lícitas e ilícitas, mas são sempre drogas. Claro que o álcool é causa de males, aliás os maiores na sociedade brasileira em termos de dependência. Mas isso não significa absolvição da maconha.
A TV Cultura viu-se numa sinuca de bico. É uma TV Educativa. Soninha apresentava um programa para adolescentes. Como uma TV Educativa poderia segurar uma barra dessas? Contudo, aos dependentes se acena com tratamento ambulatorial, previsto pela legislação em vigor sobre o assunto, contida na Lei 6.368, de 1976, a sucessora do antigo artigo 281 do Código Penal. Se o usuário precisa de ajuda, e nisso todos os especialistas estão de acordo, Soninha foi vítima de sua tagarelice. A entrevista admitindo fumar baseados foi infeliz. Esta é, no mínimo, uma questão de foro íntimo. Há quem diga que entra na mais profunda intimidade, garantida constitucionalmente. Isso é correto. A questão droga, porém, é de saúde pública. Isso também é correto. Se alguém se embriaga, vamos tentar ajudar. Se alguém consome droga ilícita, vamos nos esforçar para demonstrar solidariedade. Mas defender o uso da droga com unhas e dentes, é indefensável. Indefensável porque a droga, indiscutivelmente, é prejudicial à saúde.
Se alguém quiser ser algo na vida, precisa de educação e saúde. Isto também é incontroverso. O consumo da droga abala física, psicológica e psiquicamente. Por que e para que ser solidário à droga quando toda nossa solidariedade deve ser endereçada ao ser humano? Droga é objeto. Usuário é gente. Esta, convenhamos, é a diferença. E mais: se existe hoje uma unanimidade contra o cigarro, como defender as baforadas de maconha, também preparada para tragar? A incoerência é absoluta. Para o cigarro comum, foi uma conquista da sociedade o Ministério da Saúde colocar uma tarja nos maços informando que ele é prejudicial à saúde. Por que defender a maconha sem rótulo nenhum? Um é lícito, outra não. Correto. Mas nenhum nem outra prestam.
Do ponto de vista legal, o Ministério Público enfiou os pés pelas mãos através do procurador Nelson Gertel, que está propondo a responsabilização penal de Soninha e de outras pessoas que puseram a maconha num altar, pretendendo alcançar, por tabela, a revista que publicou a matéria. Devagar com o andor, doutor. Não é nada disso. Não existe apologia de coisa alguma e tão pouco a reportagem foi ''plantada'' por traficantes. Não se trata de trancafiar ninguém. E sim informar, esclarecer, mesmo que a confissão pública tenha sido feito por gente conhecida, referência para adolescentes. Pisar no tomate não é crime. Tratou-se apenas de uma declaração infeliz. Nada mais.
Para o traficante, o consumidor é um cliente. Na prática, o jogo permanente entre ambos obedece a uma lei cada vez menos subterrânea de mercado. Alguém compra, alguém vende. Um não existe sem o outro. Não adianta olhar com singeleza o usuário e maldizer o traficante. Ambos possuem um pacto além das discussões nem sempre entre pessoas do fechado círculo venda-consumo, tráfico-compra. Fale para um usuário que o traficante é canalha. Ele não vai concordar. Um não vive sem o outro. Separá-los entre anjos e belzebus está ficando muito difícil. É hora de pensar. Sem histerias. Sem argumentos bizantinos. Pelo menos para isso o coragem de Soninha, rapidamente transformada em sacrifício pessoal, há de servir.





