O Camboja fica em alerta com a morte de estrela
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quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Chris Fontaine 
Phonom Penh (AE-AP) - Um poderoso político apaixona-se por uma bela estrela de cinema. Sua esposa descobre seu caso e fica com um ciúme furioso. Um chefe de polícia, preocupado com o caso
adverte a amante e pede para que ela encerre o relacionamento. Ela não ouve o conselho e logo leva um tiro assassino.
A sensacional história de poder, desejo e assassinato tem prendido a atenção dos cambojanos por semanas, preenchido as primeiras páginas dos jornais com discussões sobre se a história é verdadeira ou uma mentira cuidadosamente orquestrada com a intenção de tirar do poder o líder desta nação do sudeste da ásia.
Algumas pessoas afirmam que a morte da atriz Piseth Peaklica foi o final sangrento de um tórrido caso de amor com o primeiro-ministro Hun Sen. Outros, da altamente politizada imprensa, afirmam que é uma campanha de difamação feita pelos inimigos do premiê.
Além das perguntas aos cambojanos, a força policial do país, corrupta e inepta, ofereceu, inicialmente, uma recompensa por informações sobre o assassinato, mas não demonstrou inclinações para investigar o caso.
"Muito tempo já foi gasto com especulações da mídia. O que nós precisamos é uma investigação adequada", disse Kao Kim Hourn, do independente Instituto Cambojano para Cooperação e Paz. "O governo não tem sido capaz de fornecer informações suficientes, então, a mídia iniciou sua própria investigação".
Peaklica, um órfã que conquistou o sucesso como bailarina no Balé Real do Camboja, alcançou o estrelato quando começou a interpretar. Aos 34 anos, ela era, talvez, a mulher mais reconhecida no Camboja quando dois homens apareceram, no dia 6 de julho, num mercado de Phnom Penh (capital do país), sacaram armas e atiraram três vezes antes de fugir.
Ela agonizou por uma semana. Milhares de fãs fizeram vigília no hospital local e sua morte provocou luto em todo o país.
Vários jornais informaram na época que a ciumenta esposa do alto oficial havia ordenado o assassinato para acabar com o caso de seu marido com Peaklica, mas nenhum nome foi divulgado.
Sua morte parecia que ia juntar-se á pilha de casos de assassinato não resolvidos no país. Foi então que a revista francesa LExpress reacendeu o interesse do público e provocou a imprensa cambojana ao colocar Peaklica na sua capa e alegando que a esposa do primeiro-ministro, Bun Rany, estava por trás do assassinato.
A revista entrevistou a família da atriz, cujos membros deixaram o país, e citou um diário aparentemente mantido por Peaklica e um poema de amor supostamente escrito por Hun Sen para sustentar sua reportagem.
A equipe de Hun Sen nega vigorosamente as informações, alegando que as declarações partiram dos inimigos políticos do primeiro-ministro ao lembrar que a cunhada do líder da oposição, Sam Rainsy, trabalha na LExpress.
A revista alega que Hun Sen e Peaklica conheceram-se no dia 18 de agosto de 1998, data que, de acordo com o poema "será sempre lembrada", e começaram um romance que os confidentes do primeiro-ministro não puderam esconder. No diário, de acordo com a revista, ela lamenta o final forçado da relação com o "Querido Sen".
A LExpress também cita o Chefe da Polícia Nacional, Hok
Lundy, leal a Hun Sen, que teria se encontrado com Peaklica e sua irmã mais nova, Divina, para prevenir a atriz. "Bun Rany está muito zangada e quer acabar com a minha vida", estaria escrito no diário.
Hok Lundy nega ter conversado com as duas mulheres e riu quando perguntado sobre o caso. "Eu não tenho nenhuma necessidade de trocar correspondências com o LExpress que poderiam manchar minha reputação", comentou.
A LExpress citou Divina dizendo que a história era verdadeira e atestando que o diário pertencia a sua irmã. "Minha irmã foi morta com três balas. Que eu seja atingida por seis se eu estiver mentindo", registrou a revista.
O grupo de investigação oficial da polícia sobre o caso não demonstrou interesse em seguir a hipótese levantada pela LExpress. A reação mostra-se típica na Camboja de Hun Sen.
Mais de 100 assassinatos relacionados à política foram documentados por membros dos direitos humanos nos últimos dois anos, sendo que a grande maioria das vítimas eram membros da oposição. Relatórios apontam os criminosos como sendo pessoas leais ao partido de Hun Sen, mas ninguém foi jamais preso.
"O romance de Piseth Peaklica não é apenas uma história de assassinato", disse Kao Kim Hourn. "Trata-se de algo que é apenas a ponta do iceberg. Justiça precisa ser feita. Isso é muito importante".


