Brasília, 13 (AE) - O Brasil tem 21 milhões de crianças - 35% das meninas e meninos - vivendo em lares onde a renda per capita é igual ou menor do que meio salário mínimo. Esse índice sobe para 60% no Nordeste. Além disso, 120 mil crianças morrem anualmente antes de completar 1 ano de idade e outras 57 mil não sobrevivem à primeira semana de vida. Dezoito mil crianças são espancadas diariamente, mas apenas 2% dos casos são denunciados.
No País, 2,9 milhões de crianças com idade entre 5 e 14 anos estão trabalhando. Dos 10 aos 16 anos, são 5,7 milhões as que trabalham. Mesmo assim, há menos crianças trabalhando atualmente do que havia há cinco anos. Esse quadro é traçado no relatório sobre a Situação Mundial da Infância 2000, divulgado hoje pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Violência - Para o Unicef, são "dramáticos" os números da violência entre os jovens. O relatório revela que 67% das mortes de pessoas entre 15 e 24 anos foram causadas por acidentes de trânsito, homicídio e suicídio. Há 19 anos, a taxa era de 50%.
O documento - lançado todo fim de ano com dados do mundo inteiro - foi apresentado no Brasil pela representante do Unicef
Reiko Niimi. Para ela, os indicadores poderiam ser outros. "A má distribuição de renda no País é principal causa desses problemas", avalia.
O presidente Fernando Henrique Cardoso informou hoje, por intermédio do seu porta-voz, Georges Lamazire, que os objetivos do Unicef são os mesmos do governo brasileiro. FHC ainda não leu o relatório do fundo, mas comentou que a pesquisa nacional de amostragem domiciliar feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra melhora de vários índices, como o do trabalho infantil. O presidente gostaria que os avanços andassem mais rápido. "É difícil, porque os problemas não são de agora e é preciso combater com determinação e melhorando, como vem sendo feito pouco a pouco", disse o presidente, segundo o porta-voz.
Trabalho - Ao abordar o trabalho infantil, o relatório classifica de "violência" o fato de 5,7 milhões de crianças estarem trabalhando, e aponta os índices como "inaceitáveis para um País que é a nona economia mundial". Um estudo de Universidade de São Paulo (USP) mostra que o País perde entre 30% e 52% de seu Produto Interno Bruto (PIB) quando as crianças iniciam o trabalho precocemente.
Apesar dos números desfavoráveis, o Unicef diz que o Brasil conseguiu alguns avanços na última década, entre os quais a redução da mortalidade de 47,8 para 36,1 por mil crianças nascidas vivas. Para Reiko Niimi, o Brasil pode chegar a um índice de 8 casos por mil. A erradicação da poliomielite e a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente são citados como ganhos do Brasil na proteção dos direitos da criança.
Ao mesmo tempo, o Brasil permanece ao lado de países muito mais pobres, como as Filipinas, o Vietnã e o Casaquistão - todos empatados em 85.º lugar. Serra Leoa é campeã em taxa de mortalidade, com 316 casos por grupo de mil.
Educação - Na área de educação, o Unicef informa que houve diminuição de 6 pontos percentuais no número de crianças fora da escola, mas o País ainda tem 1,3 milhão de meninos e meninas sem estudar. Para o organismo, esse número é "inaceitável".
O relatório destaca que o grande desafio para as crianças brasileiras que estão na escola é aprender e permanecer até o fim do curso. Em cada 100, 41 não deve terminar o ensino fundamental. As que conseguem concluí-lo gastam em média 10,4 anos em bancos de escolas, quando o esperado são oito anos. Das crianças brasileiras, apenas 8% frequentam creches e 51% com idades entre 4 e 6 anos estão matriculadas na pré-escola. Segundo o Unicef, esse fato compromete a capacidade de aprendizado das crianças e, por isso, o Brasil precisa ampliar a cobertura nessa área.
O Brasil é classificado entre os países com pior distribuição de renda do mundo, ao lado do Panamá, Bostuana, Quênia, Zâmbia e Costa do Marfim. O Unicef cita o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, como exemplo no combate à pobreza.

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