Basta andar por qualquer cidade brasileira para perceber: as barbearias se multiplicaram. Em poucos anos, o que antes era um serviço tradicional, quase restrito ao barbeiro de bairro, virou ponto de encontro, negócio de franquia e opção de carreira para milhares de pessoas.

Esse movimento trouxe coisas muito boas. Valorizou o cuidado masculino com a aparência, criou empregos e devolveu prestígio a uma profissão antiga. Mas também trouxe um desafio que o setor ainda não enfrentou de frente: abrir barbearias ficou mais rápido do que formar bons barbeiros.

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A tesoura não se aprende em um fim de semana

Entrei na profissão em 2020, depois de anos trabalhando em outra área. Fiz meu curso de formação, comecei a atender e logo percebi uma coisa que nenhum certificado sozinho ensina: o curso abre a porta, mas o ofício só começa de verdade na cadeira.

Hoje existem cursos de todos os formatos, alguns muito rápidos. Eles cumprem um papel importante, porque democratizam o acesso à profissão. O risco está em tratar a formação inicial como ponto de chegada.

Um corte de qualidade envolve leitura do rosto, conhecimento do tipo de fio, domínio de diferentes ferramentas, acabamento, higiene e atendimento. A máquina pode ser aprendida relativamente rápido. A tesoura, o acabamento fino e a capacidade de adaptar um corte a cada cliente exigem prática, correção e tempo.

Quando o mercado cresce mais rápido do que essa curva de aprendizado, o cliente sente. E a reputação de toda a categoria também.

O que a logística me ensinou sobre a cadeira de barbeiro

Antes de ser barbeiro, trabalhei por cinco anos como coordenador de logística. Pode parecer uma área distante, mas ela mudou a forma como enxergo a barbearia.

Na logística, aprendi que qualidade não depende de um dia bom. Depende de processo. É preciso saber o que entra, o que sai, quanto tempo cada etapa leva e onde estão os gargalos. Um erro que se repete não é azar, é falha de método.

Na barbearia, a lógica é a mesma. A agenda precisa ser organizada para que o atendimento não seja apressado. Os materiais precisam estar higienizados e disponíveis. O tempo de cada serviço precisa ser conhecido. E o resultado precisa ser consistente: o cliente que gostou do corte em uma visita espera encontrar o mesmo padrão na próxima.

Muitas barbearias investem em decoração, música e cerveja gelada, e tudo isso tem valor. Mas a experiência que faz o cliente voltar é, antes de tudo, a confiança de que o trabalho será bem feito todas as vezes.

Formação não termina no certificado

Uma das decisões mais importantes que tomei depois de começar a atender foi continuar estudando. Participei de workshops, fiz cursos de aperfeiçoamento prático e procurei aprender com profissionais mais experientes.

Isso deveria ser regra, não exceção. Tendências mudam, técnicas evoluem e o perfil do cliente se transforma. O barbeiro que parou de estudar no dia em que recebeu o certificado tende a repetir o mesmo corte por anos, enquanto o mercado ao redor muda.

Para os donos de barbearia, investir na formação da equipe é também uma decisão de negócio. Um profissional bem treinado erra menos, atende melhor, fideliza mais e dá menos retrabalho. O custo de formar costuma ser muito menor do que o custo de perder clientes.

Imagem ilustrativa da imagem O Brasil aprendeu a abrir barbearias. Agora precisa aprender a formar barbeiros
| Foto: Divulgação

Ensinar também é aprender

Ao longo da carreira, passei a orientar e treinar outros profissionais. E descobri que ensinar obriga a entender melhor o próprio trabalho.

Quando um barbeiro faz algo de forma intuitiva, nem sempre sabe explicar por que faz. Ao ensinar, é preciso transformar o gesto em método: por que a tesoura entra naquele ângulo, por que o volume fica naquela região, por que aquele acabamento funciona melhor para aquele tipo de fio. Foi esse exercício que me ajudou a organizar minha própria forma de cortar com tesoura em uma metodologia.

Uma profissão se fortalece quando quem já aprendeu se dispõe a passar adiante. É assim que o conhecimento deixa de depender de talento individual e passa a fazer parte da categoria.

Uma profissão que pode atravessar fronteiras

A barbearia brasileira tem algo a oferecer ao mundo: atendimento caloroso, atenção ao detalhe e uma cultura de cuidado com a aparência que poucos países têm. Muitos profissionais brasileiros já levam esse trabalho para fora do país, e eu sou um deles.

Para que esse reconhecimento seja duradouro, porém, não basta carisma. É preciso técnica sólida, processo e formação contínua. São esses elementos que permitem que um barbeiro brasileiro seja respeitado em qualquer lugar, e não apenas simpático.

O próximo passo do setor

O Brasil já provou que sabe abrir barbearias. O próximo passo é provar que sabe formar barbeiros à altura desse crescimento.

Isso passa por cursos mais completos, por barbearias que tratem a capacitação como investimento, por profissionais experientes dispostos a ensinar e por barbeiros que entendam que o aprendizado não termina.

A cadeira de barbeiro continua sendo um lugar de conversa e confiança. Para que continue assim, quem está atrás dela precisa estar cada vez mais preparado.

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