O adeus a Ivanice
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sábado, 02 de dezembro de 2017
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

A paranaense Ivanice Carvalho da Costa, 36 anos, morta por engano pela polícia de Lisboa em 15 de novembro, foi sepultada nesta sexta-feira (1º), em Amaporã, cidade de 6 mil habitantes no Noroeste do Estado. O corpo chegou ao Aeroporto Internacional de Guarulhos no início da noite de quinta e, por volta das 9h30 da manhã de ontem, transportado por funerária contratada pela família, chegou ao salão paroquial Irmã Benigna de Jesus Martins, onde foi velado.
Cerca de 50 pessoas foram ao local e o clima era de tristeza e apreensão. Uma das pessoas mais emocionadas era a irmã, Ingrid Carvalho da Costa, 22 anos, analista que trabalha em um abatedouro. "Ela foi embora em julho do ano 2000, e em agosto completou 19 anos." Ingrid tinha apenas cinco anos de idade na época em que Ivanice decidiu se mudar para Portugal. "Ela queria ajudar os meus pais com as despesas de casa e aqui estava difícil para conseguir serviço."
Segundo Ingrid, sua irmã partiu com a tia e outras pessoas e deste então, em 17 anos, retornou ao Brasil para passear somente três vezes. A última foi em dezembro de 2007. Embora tivesse pouca idade quando a irmã emigrou, ambas mantinham contato pela internet. "Ela era uma pessoa muito carinhosa, amorosa", elogiou, enquanto enxuga as lágrimas da dor da perda.
Há um mês, Ivanice convidou seus pais para conhecerem Portugal e passarem um tempo juntos. A mãe dela, a dona de casa Maria Luzia Silva Carvalho da Costa, 59 anos, contou que a viagem estava programada para acontecer no ano que vem. "Eu sempre fui contra minha filha ir a Portugal. Mas a minha irmã, um primo meu e dois amigos de meu primo queriam ir para lá. Na época ela fazia faxina na casa de minha irmã e eu acabei deixando que fosse, pois ela tinha completado 19 anos. Ela nunca tinha dormido fora de casa até então", relembrou.
O que atraía os brasileiros a Portugal era a diferença dos ganhos: um recém-chegado poderia ganhar mais de 350 euros enquanto o salário mínimo no Brasil era de R$ 151 (que correspondia, naquele ano, a 92 euros). A oportunidade de fazer um pé-de-meia tornou a região Noroeste do Paraná uma das maiores exportadoras de mão de obra para Portugal.
Um tio de Ivanice, Célio Aparecido da Silva, 44 anos, chegou a visitá-la em Portugal em 2002. Um dos últimos parentes que viu Ivanice viva foi Marcelo da Silva, primo dela e morador de Presidente Prudente. "Meu encontro foi rápido. Foi no aeroporto e durou meia hora. Ela estava de folga e foi para o aeroporto só para me ver. Na época eu perguntei se ela tinha a intenção de voltar ao Brasil e ela respondeu que só faria isso para passear e que era feliz em Portugal", destacou.
SEM LUTO OFICIAL
A Prefeitura de Amaporã não declarou luto oficial, mas permitiu a dispensa dos funcionários às 15 horas para irem ao velório e acompanhar o sepultamento de Ivanice. Em solidariedade à família, algumas lojas baixaram suas portas.
Entre os moradores, o sentimento era de incredulidade diante da maneira como a conterrânea foi morta. A zeladora Helena Palombo, 48 anos, amiga da família, criticou o governo brasileiro por não pressionar as autoridades portuguesas para punir os responsáveis pela morte de Ivanice. "O governo brasileiro tem que tomar a frente disso e ver o que aconteceu de fato. É preciso investigar. O Itamaraty precisa tomar providências em relação a isso", cobrou.
A funcionária de um frigorífico, Eliane Pires da Silva, 27 anos, ficou revoltada com a atitude dos policiais portugueses. "Eles deveriam ter parado o carro primeiro antes de atirar. Assim como a mataram, esses policiais podem matar outras pessoas se não mudarem o procedimento de abordagem", criticou.
O soldador Marco Aurélio da Silva, de 42 anos, condenou a atitude do companheiro de Ivanice, por não ter parado na barreira policial. "Se ele é de lá, deveria saber que não poderia ter furado a barreira."
Na madrugada de 15 de novembro, a paranaense seguia de carona com o companheiro para o aeroporto de Lisboa. No caminho, a polícia confundiu o carro do casal com um veículo usado em um assalto. Segundo o depoimento dos policiais, o companheiro de Ivanice não teria obedecido a ordem de parada e teria tentado atropelar os agentes. Em perseguição, os policiais dispararam 40 tiros na traseira do carro. A brasileira foi atingida no pescoço e não resistiu aos ferimentos.
Até agora a família não recebeu nenhum contato do Itamaraty para discutir sobre o andamento das investigações. O traslado do corpo de Ivanice foi todo custeado pelo restaurante em que ela trabalhou por 17 anos, no aeroporto de Lisboa.


