'Nunca vou esquecer o que vi, diz sargento'
Rio - Pela primeira vez, em duas décadas de serviço, a voz faltou. O sargento Sérgio Navega, de 41 anos, estava de frente para o Corsa da comerciante Rosa Cristina Fernandes Vieites. Via a lateral esquerda respingada de sangue e o que sobrou do menino João Hélio, de 6 anos, que havia sido arrastado por sete quilômetros, ainda preso ao cinto de segurança. ''Era um pedaço de carne, já sem roupa, destruído. Mas eu sabia que era uma criança. Peguei o rádio, mas não conseguia me expressar. A voz embargou'', contou ontem à reportagem, assim que chegou em casa, depois de dois dias consecutivos de trabalho. Navega foi citado pelo comandante geral da PM, coronel Ubiratan Ângelo, como exemplo da comoção que o crime causou na corporação. O sargento estava entre os 30 PMs que se recusaram a deixar o serviço até que os suspeitos do crime fossem presos.
Navega, pai de duas meninas prestes a completar 11 e 2 anos, passava pela Rua Padre Telêmaco, próximo ao Largo de Cascadura, na zona norte, quando foi abordado por pedestres que gritavam e gesticulavam. Algumas pessoas estavam desesperadas. ''Elas diziam que uma pessoa estava sendo arrastada pelo carro. Não achei que fosse verdade'', comentou.
A cada rua, mais gritos. As pessoas apontavam o caminho que os assaltantes tinham tomado. Ao chegar à Rua Caiari, onde o carro foi estacionado, o sargento teve a confirmação do que considerou o crime mais bárbaro da sua carreira. ''Já vi presenciei muito encontro de cadáver, vi gente queimada, esfaqueada, morta a tiros. Mas nunca vou esquecer o que vi ali''.
Navega disse que não pára de pensar no crime. ''Por que eu não passei por ali na hora do assalto? Se tivesse passado minutos antes, talvez tivesse conseguido evitar tudo isso''. O sargento não entende como os assassinos conseguiram dirigir por tanto tempo com o menino sendo arrastado. ''Eles tiveram oportunidade de deixar a criança com a mãe. Era só deixar o menino descer. Eles não têm Deus no coração''.





