'Nunca é tarde para recomeçar'
Um emprego estável, uma família linda e novos estudos planejados para o futuro. Essa é a vida que Valdecir Morais, de 41 anos, sonhou desde menino. Nascido no Conjunto Pindorama, bairro pobre na zona leste de Londrina, e filho de mãe alcoolista, Valdecir viu a realidade bater na porta de casa. O pai abandonou a família quando tinha 7 anos e em seguida faleceu.
Aos 8 anos, Valdecir ajudava a mãe cuidar dos 7 irmãos e todos começaram a trabalhar nessa idade. ''Minha mãe tinha a mentalidade de que não era importante estudar. Filho dela tinha que trabalhar. Comecei como ajudante de pedreiro e aos 10 anos, acordava 4h30 para pegar o caminhão que nos levava para Cornélio Procópio para trabalhar na colheita de algodão'', lembra.
Debaixo de sol e castigado pelo excesso de trabalho, Valdecir pensava que aquela não era a vida que ele gostaria de ter e alimentava o sonho de transformar sua realidade através dos estudos. ''Quando terminou a safra, fui catar papel na rua. Eu via meus amigos indo para a escola e eu ali, empurrando um carrinho super pesado para levar dinheiro para casa. Eu via muita coisa errada pelas ruas. Naquele tempo, perdi 15 amigos por causa de drogas e o vírus HIV. E quando eu chegava em casa, via minha mãe bebendo e ficando totalmente agressiva. Eu e meus irmãos mais velhos cuidávamos dos pequenos. Dávamos banho e quando não tinha comida, saíamos pedindo pelo bairro'', recorda.
Mas o garoto, que adorava futebol e sonhava alto, não escolheu o caminho mais fácil. Deixou de empurrar o carrinho e foi até a escola por conta própria. ''Resolvi seguir meus amigos. Fui escondido da minha mãe. Apontei um lápis que encontrei na rua com uma faca e arrumei cadernos usados. Lembro muito bem do pátio cheio de crianças brincando e meu sentimento de euforia. Quando deu o sinal, todo mundo foi entrando nas salas e eu fui ficando sozinho'', comenta.
Uma professora se aproximou e perguntou o que Valdecir fazia lá, sozinho. ''Respondi que tinha ido estudar, mas ela disse que eu tinha que ter matrícula'', completa. Valdecir voltou para casa e conversou com a mãe, que não aceitou a decisão do filho. ''Foi um escândalo em casa e pedi para minha irmã mais velha convencê-la. Ela não deixou, mas mesmo assim, minha irmã acabou me levando para a Escola Municipal Monteiro Lobato, onde me arrumaram uma vaga'', diz.
Valdecir se sentia envergonhado pela diferença de idade entre os colegas de classe, e durante os dois primeiros anos, ainda sofria com a cobrança da mãe. ''Eu voltava da escola e ela me perguntava sobre o dinheiro. Ela não acreditava que eu poderia ter um futuro melhor'', desabafa.
Dali em diante, a vida de Valdecir tomou outro caminho. Ele passou em um processo seletivo no Senai, fez estágio na Viação Garcia e chegou até a servir o Exército em Brasília. ''Eu já estava namorando a Mônica e me casei aos 21 anos. Voltei para Londrina e comecei a trabalhar em uma transportadora. Logo depois, moramos seis anos na Bélgica, onde pude conhecer muitos países'', afirma.
De volta a Londrina, Valdecir se formou em Processos Gerenciais e foi recontratado na transportadora. Seu desejo agora é se especializar na área de segurança do trabalho. ''Hoje, minha mãe parou de beber e meus irmãos também estão estabilizados. Eu me sinto realizado e vitorioso. Não tenho tudo que quero, mas tenho tudo que preciso para ser feliz porque tenho o mais importante: minha dignidade'', ressalta.
Com muita humildade e fé em Deus, Valdecir se orgulha em contar a própria história. Ele acredita que se não tivesse conhecido a vida no contexto da miséria, não daria tanto valor a ela. ''Temos que procurar alternativas se realmente queremos mudar nossa realidade. Nunca é tarde para recomeçar. Hoje, meu maior sonho é manter o que tenho e poder dar bons exemplos para minha filha'', declara. (M.O.)





