‘‘Se eu comer essa salsicha vai fazer mal? Eu já comi. Só não quero mais ficar com fome.’’ Essa era a preocupação de Ana Paula Moreira Neves, 13 anos, uma das cerca de mil pessoas que invadiram ontem a Ceasa. Eram quase todos desempregados ou subempregados, famílias inteiras que levaram os filhos pequenos para ajudar no ‘‘garimpo’’, mesmo sendo o galpão incendiado uma área de risco. Ainda havia focos de incêndio no pavilhão, e a laje ameaçava desabar.
Todos os alimentos incendiados foram condenados pela Vigilância Sanitária. Remexidos por cães e ratos, estão impróprios para o consumo humano e podem causar intoxicações.
‘‘Isso aqui está bom ainda, muito bom. Vou comer. Nunca comi esse tal de atum, agora vou experimentar’’, afirmou a desempregada Elizete da Silva, 56, mostrando uma latinha de atum quase totalmente queimada.
A menina Carolina da Silva Santos, de 6 anos, ficou esperando a mãe do lado de fora das lojas, que ameaçavam ruir. ‘‘Tomara que ela traga danone, leite e sabão em pó. É muito ruim lavar minha roupa sem sabão’’, disse.
Dois homens conseguiram colocar outro freezer numa carroça e saíram em disparada. ‘‘Isso ia para o lixo, não ia? Então vai para a minha casa’’, disse o carregador de ferro-velho Raimundo Alves da Silva, 50, empurrando um carrinho de pedreiro com ferros e sacos de arroz. (Agência Folha)

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