Buenos Aires, 03 (AE) - O número de veteranos argentinos da Guerra das Malvinas, que após o conflito do Atlântico Sul era calculado em 10.000, inexplicavelmente mais que dobrou na última década: atualmente é de 22.000.
O suspeitoso aumento ocorreu nos últimos dez anos, coincidindo com a década de governo do ex-presidente Carlos Menem. Por trás das novas incorporações haveriam manobras irregulares que permitiriam aos novos "veteranos" pensões especiais do Estado e diversos benefícios.
A denúncia da multiplicação dos veteranos foi feita pelo jornal "Clarín", que sustentou que o registro dos ex-combatentes está "inflado". O problema começa no site de Internet do Ministério da Defesa, onde afirma-se que existem 22.200 veteranos.
Esse número confronta-se com o divulgado pelo Exército após a derrota no arquipélago, de somente 9.997 militares argentinos. Outro número, de 1992, sustenta que o total de veteranos seria de 14.120, incluindo os integrantes da Marinha e da Força Aérea que participaram do conflito bélico.
A divergência nos números causou uma investigação por parte de parlamentares. Além disso, o ex-chefe do Estado Maior do Exército, general Martín Balza, ele próprio um veterano da Guerra, declarou que os números do Ministério da Defesa são "substancialmente diferentes dos dados historicamente conhecidos".
Fontes militares consideram que o governo Menem incorporou falsos veteranos como forma de clientelismo político: os veteranos têm direito a uma pensão, isenção de impostos e direito a US$ 200 mensais para bolsas de estudos, o que é muito em um país onde o desemprego e o sub-emprego atingem um terço da população.
Somente podem ser considerados veteranos militares e civis que lutaram na área de combate ou pelo menos, na área de operações do Atlântico Sul. O veterano Jorge Vázquez, que edita o jornal "El Gaucho Rivero", publicação dirigida aos ex-combatentes, sustenta que o governo Menem beneficiou como veterano qualquer pessoa que tenha estado nas ilhas no período da Guerra, além de conceder essa categoria a tripulantes de navios da Marinha que sequer estiveram na área.
Os oficiais que participaram da Guerra recebem um extra mensal
que representa muito tendo em vista os baixos salários nas forças armadas.
Após a Guerra, os veteranos retornaram, mas sem uma recepção heróica: foram recebidos como escória por um país que não havia assimilado sua primeira derrota militar em 130 anos.
Mergulhados em profundas depressões, os veteranos tornaram-se o setor social com o maior índice de suicídios no país. Além disso, o desemprego atinge grande parte deles, pois os empresários evitam contratá-los, temendo que tenham reações violentas no lugar do trabalho.
"Eles pensam que vamos metralhar as pessoas como os ex-soldados do Vietnã", disse à Agência Estado um ex-veterano, que prefere esconder seu nome para evitar ser despedido do supermercado onde conseguiu um emprego, escondendo seu passado.
Poucos ex-soldados conseguiram destaque na vida pública: os mais conhecidos são o barítono Dario Volonté, cantor de ópera do Teatro Colón; e o jornalista Edgardo Esteban, correspondente no país da Rede CBS em espanhol.
Extradição - O presidente Fernando De la Rúa anunciou que não obstaculizará o pedido feito pelo juiz espanhol Baltazar Garzón de detenção internacional de 48 ex-repressores argentinos envolvidos na violação a Direitos Humanos durante a última Ditadura (1976-1983).
Desta forma, De la Rúa diferencia-se do ex-presidente Menem, que por decreto proibiu a colaboração da Justiça e da Chancelaria com Garzón. "A Justiça argentina resolverá o destino deles", disse.