Londrina - Era por volta de 14h30 quando o cirurgião cardíaco e chefe do setor de transplantes da Santa Casa de Londrina, Arnaldo Akino, chegou ontem ao hospital sob uma chuva fina em meio a muita expectativa de uma família londrinense. Ele vinha de Arapongas (Região Metropolitana de Londrina) e carregava uma maleta térmica com um coração que dali a instantes seria transplantado no peito de uma moça de Londrina, de 19 anos. Akino foi direto ao centro cirúrgico, de onde saiu somente no meio da noite. A paciente não resistiu ao procedimento e morreu na mesa de cirurgia.
O hospital e a Comissão de Procura de Órgãos e Tecidos para Transplantes em Londrina (Copott) preservaram as identidades da receptora e do doador. O que se sabe é que se trata de um rapaz araponguense que teve morte encefálica.
A paciente esperava pelo órgão havia mais de dois anos. Um problema que muitos brasileiros enfrentam. O número de transplantes de órgãos realizados no Paraná diminuiu de um ano para cá. Segundo a Central Estadual de Transplantes, órgão subordinado à Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), de janeiro a abril de 2013 foram realizados 167 transplantes de coração, fígado, rins e pâncreas no Estado. No mesmo período deste ano, ocorreram 124 procedimentos, uma queda de 25%.
Apenas os transplantes cardíacos aumentaram, de 8 em 2013 para 10 neste ano (alta de 25%). Os demais regrediram. A queda mais acentuada foi nos transplantes de pâncreas: 55% (de 9 no ano passado para 4 em 2014). Os procedimentos envolvendo transplantes de fígado sofreram redução de 43 para 28 (queda de 34%), e os de rins caíram de 107 para 82 (23%). Os números preocupam e já mobilizam a Central Estadual de Transplantes, que pretende lançar campanhas maciças de conscientização e estímulo à doação de órgãos entre os paranaenses até o segundo semestre.
"Já identificamos as causas da redução do número de transplantes no Estado e estamos fazendo um trabalho conjunto com a Secretaria de Comunicação Social para fazer um projeto de uma campanha maciça com a população para aumentar a quantidade de doações de órgãos", afirmou a coordenadora da Central Estadual de Transplantes, pediatra Arlene Badoch. A intenção é lançar a ação em setembro, quando se comemora o mês nacional do doador.
Arlene diz que há três pilares básicos que precisam ser trabalhados para que o número de doações volte a crescer. Eles passam pelo esclarecimento do que é a morte encefálica e os procedimentos adotados pela rede hospitalar quando o quadro é diagnosticado; qualificação do acolhimento familiar promovido pelos agentes multiplicadores ligados aos comitês de doação (médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais); e conscientização de que cabe às famílias a decisão sobre a doação de órgãos.
A coordenadora da Central de Leitos explica que um paciente com o quadro de morte encefálica é um potencial doador de múltiplos órgãos: coração, rins, fígado, pulmão, pâncreas e globo ocular. Daí a importância da família entender que a morte cerebral pode significar o recomeço de muitas vidas. "Precisa haver um entendimento por parte da população do que é a morte encefálica. Muitas famílias não permitem a doação dos órgãos quando há o quadro de morte encefálica porque acreditam que a pessoa ainda não morreu. Os hospitais têm que ter a sensibilidade de informar a família do que significa esse quadro assim que abrir o protocolo de morte encefálica, porque o protocolo propicia fazer todo o diagnóstico, são várias etapas com profissionais diferentes. E a família precisa acompanhar esse processo para ter plena consciência do quadro", explicou.
O processo do acolhimento familiar envolve um esforço da rede hospitalar em deixar os familiares a par de todo o tratamento realizado com o paciente em estado gravíssimo. É uma forma de lhes passar confiança quanto à decisão de permitir a doação, aponta Arlene Bardoch. "É importante a família saber que a assistência prestada pelo hospital com um paciente em estado gravíssimo foi a melhor possível. Se a família tem confiança na assistência prestada e é informada da gravidade do caso, vai se sentir mais segura", pontuou.
O terceiro ponto se refere ao consentimento da doação por parte do paciente e dos familiares. A pediatra diz que o brasileiro de uma forma geral precisa desenvolver a cultura da doação. "Muitas vezes a família sabe do desejo da pessoa de ser doadora, mas não permite a doação. Quando a família entra nesse dilema, é importante que o paciente manifeste sua vontade. Quando um paciente vem a óbito, o dono do seu corpo é a família", esclarece.

LONDRINA
Em Londrina e região, foram registrados 40 transplantes de órgãos de janeiro a abril deste ano, segundo a Central Estadual de Transplantes. A maioria – 36 – foi de córnea, sendo que só o Hospital de Olhos de Londrina realizou 30 cirurgias. Até o último dia 8 de maio, a fila de espera já tinha 2.140 pacientes no estado (a maioria, 1.587 pessoas, aguardam o transplante de rim).

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