Número de transplantes no Paraná cresce cinco vezes em oito anos
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sexta-feira, 08 de março de 2019
Viviani Costa e Isabela Fleischmann <br> Reportagem Local 
O número de transplantes de órgãos realizados no Paraná cresceu cinco vezes entre 2010 e o ano passado, de acordo com dados da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde). A quantidade de transplantes de doadores falecidos passou de 183 para 949.
Duas doações de órgãos foram feitas nesta quarta-feira (6) em Arapongas (Região Metropolitana de Londrina). A família de Vanessa do Prado Alves Machado, 33, atropelada na madrugada de domingo (3), autorizou a doação de órgãos após a confirmação da morte cerebral, que ocorreu na quarta. A família do apucaranense Jerson Batista Vieira, 53, que morreu após sofrer um AVC (acidente vascular cerebral), também em Arapongas, nesta quarta, também autorizou a doação. Em ambos os casos, foi feita a doação dos rins. A coordenadora da Organização de Procura de Órgãos de Londrina, Emanuelle Zocoler, disse que os órgãos provavelmente seriam encaminhados para Curitiba.
A córnea da mulher, que a princípio também seria doada, não foi. Isso porque Machado fez uma maquiagem definitiva há dois meses, o que impossibilita a doação de tecidos. "Há o risco da pessoa ser contaminada pelo vírus da hepatite ou HIV pela agulha. Esses vírus não são visualizados na janela imunológica. É feito exame de sorologia em todos os doadores, mas se a pessoa fez uma tatuagem há menos de um ano, corre o risco de ela se contaminar e não aparecer no exame", explica. "Com menos de um ano, quem tem tatuagem, piercing ou maquiagem definitiva não pode doar."
No caso de Machado, mesmo com a morte encefálica confirmada, em razão do quadro instável da paciente, outros órgãos também não puderam ser captados, conforme explicou Zocoler. "O coração e o pulmão não foram captados porque ela teve uma parada cardiorrespiratória." Já o fígado não foi captado por conta da forte chuva que atingiu Londrina na noite de quarta-feira e que impediu que a equipe de Maringá (Noroeste) se deslocasse para fazer a captação do órgão. "Tem equipes em Maringá, Curitiba e Cascavel que captam fígado. Ele só pode ficar seis horas no gelo. Quando a equipe vem, tem que ter já um receptor certo, internado, para receber o órgão", explica.
O rim pode ficar até 24 horas na isquemia fria e voltar a funcionar, conforme Zocoler. "Tem mais tempo para distribuir o rim", diz. Em seguida, o hospital faz um cross-match, exame que verifica se o receptor é compatível. Os gânglios linfáticos do doador são retirados e levados aos laboratórios em que há a lista de receptores. "O laboratório compara anticorpos para o rim dar certo, sem o mínimo de rejeição possível."
O Ministério da Saúde, todavia, alega que o tempo de isquemia - período da retirada do órgão até o transplante para outra pessoa - do rim é de 48 horas, e do fígado, de 12 horas.
No dia 26 de fevereiro, a família de uma adolescente que morreu vítima de meningite meningocócica B em Campo Mourão (Noroeste) também autorizou a doação de órgãos. A menina de 15 anos teve os rins, fígado, tecido ocular e coração para valvas captados pelo Centro Transplantador Uopeccan (Hospital do Câncer de Cascavel).
RECORDES
A Espanha ocupa há 27 anos o primeiro lugar no ranking mundial de doações, com 48 doações pmp (por milhão de população). Nessa escala, o Brasil ocupa o 28º lugar. No País, o Paraná tem o melhor índice de doação de órgãos para transplante, como lembra Arlene Terezinha Badoch, coordenadora da CET/PR (Central Estadual de Transplantes do Paraná). "Em 2018 fomos para primeiro lugar, superando Santa Catarina." O Paraná atingiu em janeiro deste ano o índice de 50,9 doações de órgãos pmp. A média brasileira é de 19, segundo a Sesa.
A cidade de Londrina só realiza transplantes de rins e coração. Foram 14 e 3 no ano passado, respectivamente. Além do transplante de órgãos, o município também registrou 155 transplantes de córnea, de acordo com Zocoler.
QUEM PODE DOAR
"Toda morte é possível doar", de acordo com Zocoler. Quem teve parada cardíaca pode ser doador de tecido ocular. O paciente que tem morte cerebral pode ser doador de órgãos e tecidos. Coração, pulmão, fígado, pâncreas, rins, tecido ocular, pele, ossos e válvula cardíaca podem ser doados conforme a idade e o estado clínico do doador.
Badoch comemora a média de recusa da doação pelas famílias do Paraná. "Temos em torno de 20% apenas de recusa em relação às doações, a menor média encontrada no mundo." No Brasil, esse índice é de 44%. A coordenadora atribuiu os bons resultados à qualificação dos profissionais e às campanhas por doação.
Mesma opinião de Zocoler, que acredita que o tratamento dado às famílias no hospital faz toda a diferença para a decisão. A recusa pela doação vem em um momento em que os familiares ainda não aceitaram a morte do ente querido. "Família bem esclarecida, bem atendida e acolhida, doa." A doação de órgãos de falecidos é uma decisão que cabe somente aos familiares. "Não se pode deixar nada por escrito", acrescenta Badoch.


