São Paulo, 07 (AE) - O número de transplantes de alguns órgãos aumentou mais de 80% no Estado de São Paulo desde que foi criada a Central de Notificação, Captação e Distribuição de àrgãos, em 97. Segundo dados divulgados hoje pela Secretaria de Estado da Saúde, o aumento nos últimos dois anos foi de 85,8% no caso de cirurgias de rins, 54,9% de fígado e 24% de coração.
O Estado tem hoje 8,5 doadores por 1 milhão de habitantes. "Passamos do quarto para o primeiro lugar em número de doadores no País", disse José da Silva Guedes, secretário estadual da Saúde. A média nacional de doadores é de 3 por milhão de habitantes. Na Espanha, esse índice é de 28, nos Estados Unidos, de 20, e na Austrália, de 10,5 por milhão de habitantes.
No primeiro semestre deste ano, foram doados 249 rins, 103 fígados e 31 corações. A projeção da secretaria é a de que até o fim do ano o número de órgãos chegue a 498 rins, 206 fígados e 62 corações. "A organização da central e a decentralização da captação de órgãos foram responsáveis por esse aumento", afirmou Guedes.
A central criou uma fila única para transplantes, permitindo que o rim doado em um ponto do Estado fosse utilizado por um paciente em outro local. Para isso, foi preciso criar um sistema de notificação, realizada hoje por dez hospitais do Estado, dos quais quatro na Capital.
Qualificação - O problema que a secretaria tem encontrado não é, na verdade, a falta de órgãos, mas o pequeno número de equipes médicas qualificadas para realizar os transplantes. "Quando um órgão é notificado na central, procuramos o primeiro receptor da lista", explicou Luiz Augusto Pereira, coordenador da central. "No entanto, se não houver uma equipe médica qualificada no local onde a pessoa mora, ou se os médicos não estiverem disponíveis por qualquer razão, o órgão passa para o próximo nome da lista."
Segundo Guedes, normalmente não é possível transportar o paciente para um local onde há uma equipe médica especializada, "porque as pessoas não querem abandonar seu médico para fazer a operação".
A responsabilidade de treinar novas equipes especializadas em transplantes cabe às faculdades de medicina. A secretaria, segundo Guedes, está trabalhando para aumentar o número de leitos para esse tipo de cirurgia. "Não adianta ter o órgão e a equipe, se não há leitos", enfatizou.
Por isso, o secretário pretende utilizar uma parte das instalações do Instituto da Mulher, prédio cuja construção foi retomada recentemente, localizado próximo do Hospital das Clínicas, em São Paulo, para criar um centro de transplantes. Ano passado, a secretaria também investiu na construção do Hospital do Rim, na Universidade Federal de São Paulo. "Hoje, temos 60 leitos nesse hospital para atender pacientes que necessitam de transplantes", informou.
O Hospital do Rim, de acordo com Guedes, realiza hoje cerca de um transplante por dia. "No entanto, os doadores, muitas vezes, são parentes, o que não é contabilizado pela central, que trabalha somente com doadores cuja morte cerebral foi decretada."
Procedimento - Até o órgão ser notificado à central, há vários exames que precisam ser realizados. Segundo Pereira, a morte encefálica (cerebral) só é determinada após dois exames físicos e um exame por imagem (tomografia ou ressonância magnética), para que haja um registro que comprove o diagnóstico. "àrgãos só podem ser retirados de pacientes com morte encefálica diagnosticada, pois a circulação precisa estar funcionando na hora da operação", explicou Guedes.
Após esses exames, uma bateria de testes sorológiocos (de sangue) precisam ser feitos. Esses dados serão usados para determinar a compatibilidade do órgão com o doador. A partir do momento que o órgão doado é notificado, a central tem até seis horas para identificar um receptor, explicou Pereira. "Para isso, é preciso um sistema muito bem preparado", explicou.

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