Número de Pms mortos cresce 154% em sete anos em São Paulo
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sábado, 31 de julho de 1999
Por Marcelo Godoy 
São Paulo, 01 (AE) - Três tiros nas costas. Assim foi assassinado o sargento Nivaldo da Costa Marques. Ele ia socorrer a vítima de um acidente; um ladrão que, drogado, atirou. Todo dia morre ou fica inválido, em média, um policial militar no Estado de São Paulo. Nos últimos sete anos, esse número cresceu 154% e não pára. Tiroteios, acidentes de carro, emboscadas e vinganças. Assim morrem os PMs. Essa violência é acompanhada por outros problemas: há policiais que se drogam, que bebem e se matam. Estressado, negando ter medo, frustrado e sentindo culpa pelo infortúnio de cada colega, assim vive o policial militar.
"Ele era um homem ágil, esforçado, dedicado, pai de duas meninas", lembra Rosemary Cardoso da Silva Marques, viúva do sargento Marques. Policial rodoviário, ele foi morto, em maio
ao lado de um colega, baleado pelo mesmo bandido. "Ninguém quis saber da minha dor." Em 1991, 25 policiais militares morreram em serviço e 73, no horário de folga. No ano passado, foram 31 em serviço e 218 em folga, quase um batalhão. O balanço deste primeiro semestre aponta 23 casos em serviço e 134 em folga.
"O crescimento do número de policiais mortos é reflexo do aumento da violência como um fenômeno mundial", diz o comandante-geral da corporação, coronel Rui Cesar Melo. Para o tenente-coronel Jairo Paes de Lira, autor de um estudo sobre a violência contra policiais, o bandido visa a acovardar a polícia e fazer seu poder prevalecer. Para enfrentar o problema, a PM está investindo em treinamento. Vídeos de instrução estão ensinando o PM a procurar abrigo antes de tentar deter os criminosos a fim de não ser pego por um bandido que esteja dando cobertura aos comparsas.
"Você se sente culpado quando vê um amigo baleado", conta o soldado Hyderalldo José dos Santos, de 36 anos. Cabelos grisalhos, ele trabalha há 15 anos em Franco da Rocha, na Grande São Paulo. Um dia, seu colega de carro, o cabo Edson de Souza Goulart, levou um tiro e ficou paraplégico. Eles haviam abordado quatro suspeitos de roubar um banco. Um deles, escondido, começou a atirar. Outro policial também foi ferido. Três dos suspeitos morreram. Hyderalldo ganhou uma medalha, que traz no peito.
Vizinhos - "Você fica pensando por que não atingiu o bandido antes de ele balear o colega." Três anos depois, ele viu seu comandante, o tenente Ericson Jonas, levar seis tiros. Era uma briga de vizinhos. Os policiais estavam tentando convencer o homem a acompanhá-los à delegacia quando ele tomou a arma de um dos PMs. O tenente sobreviveu, o agressor não. Apesar dos tiroteios e de colegas baleados, Hyderalldo - assim como o tenente Igor Fabian Tanaka, de 30 anos, e outros policiais - não sente medo. "Gosto do que faço." Ele, como os demais, é capaz de descrever detalhes dos casos. Dia, hora, local e as cores dos carros. Tudo fica marcado.
"É comum o policial negar o medo", afirma o major Ib Ribeiro Martins. Psicólogo, Martins é autor de uma tese sobre o número de suicídios na PM. "O policial tenta manter a idéia da morte como algo distante; as consequências disso são fortes e, por isso, a profissão é desgastante." O coronel Roberto Allegretti, responsável pelo programa de atendimento aos policiais envolvidos em tiroteios, lembra que, em uma pesquisa feita em Campinas, os policiais apontaram como as situações mais estressantes: a morte de um colega, a morte de um parceiro de patrulhamento e ganhar um salário insignificante. Para ele, o PM não deve demonstrar fraqueza. "Quando ele não transmite segurança a quem está atendendo é a hora de intervir e ajudá-lo."


