Izmit, 18 (AE-AP) - Como nuvens de uma gigantesca pira funerária, uma fumaça negra subia hoje (18) de uma grande refinaria de petróleo na Turquia, agora uma vítima do devastador terremoto que causou a morte até agora de mais de 4.000 pessoas e provocou sérios reveses para a econoia do país.
A incapacidade de controlar as chamas na refinaria de Tupras foi mais uma frustração na luta da Turquia contra o desastre, que ocorreu na densamente povoada região ocidental do país na terça- feira antes do amanhecer.
Na noite de hoje, o número oficial de mortos havia subido para 4.053, com 18.352 feridos. Mas muitas pessoas - talvez mais de 10.000 - continuavam desaparecidas, estimavam oficiais.
Pelo segundo dia, pessoas imploravam a equipes de resgate para tentarem encontrar parentes e amigos entre montanhas de destroços onde antes existiam prédios de apartamentos, muitos deles mal construídos para servir a pobres que correram para as cidades quando o progresso econômico criou empregos nas últimas três décadas.
Não se sabia exatamente quantas pessoas ainda estavam sobre os destroços, mas aparentemente o número de mortos irá aumentar dramaticamente enquanto equipes de resgate turcas e estrangeiras trabalham lentamente, uma tarefa que deve durar dias.
Uma equipe de Israel rumou para uma vila nas proximidades de Yalova, 150 km a sudoeste de Istambul, depois de notícias terem dado conta que 14 israelenses estavam soterrados sob os escombros de um prédio. Segundo a polícia, pelo menos um, identificado como Urus Franco, foi retirado com vida.
Em Izmit, um dos locais mais devastados, autoridades tentavam isolar uma área de cinco quilômetros em volta da refinaria, cerca de 130 km a sudeste de Istambul. A espuma química lançada por aviões de combate ao fogo não conseguia conter as chamas, que subiam centenas de metros acima da usina.
Cortes de energia impediam que as equipes de resgate utilizassem equipamentos de bombeamento para sugar água do Mar de Marmara, localizado nas proximidades.
O maior temor era o de que o fogo pudesse se espalhar por todo o campo de 30 tanques gigantes de estoque, causando assim um desastre ambiental. Nas proximidades havia outros riscos sérios: um depósito de fertilizantes com 8.000 toneladas de amônia que corriam risco de pegar fogo.
Barreiras foram criadas para evitar que o petróleo chegasse ao mar. "Se o fogo se espalhar... seria um novo desastre para Izmit", disse Memduh Oguz, governante da cidade industrial de 75.000 habitantes.
O incêndio era visto como um dos maiores golpes do terremoto contra a economia turca.
A refinaria estatal, construída em 1961 sob supervisão norte- americana, era responsável pela produção no varejo e no atacado para o mercado interno. Algumas das indústrias e empresas localizadas na área atingida pelo terremoto - responsável por cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB) da Turquia - dependem da usina.
Trazê-la de volta ao funcionamento pode vir a ser uma tarefa custosa e fazer regredir esforços para a venda da estrutura, estimada em US$ 2,5 bilhões, para arrecadar dinheiro necessário para o tesouro turco.
Para muitas pessoas que vivem nas proximidades da refinaria, o incêndio foi uma tragédia dupla, sendo forçadas a deixar para trás parentes ainda perdidos nas ruínas das casas derrubadas pelo terremoto monstruoso. Outros não conseguiram reunir-se ao êxodo.
"Pediram para que eu saísse, mas eu simplesmente não posso", disse Savas Oguz, que acredita que dois de seus familiares ainda estão vivos sob os escombros.
Mesmo com dezenas de nações enviando pessoal e ajuda adicional
algumas pessoas nas áreas mais pobres reclamam de não ter visto qualquer forma de ajuda organizada e tiveram que limpar os destroços por conta própria.
Ao anoitecer, a maioria das pessoas preferiu ficar ao ar livre - temendo que pudessem se intensificar centenas de abalos secundários.
De qualquer forma, os danificados abastecimentos de água e eletricidade não deixavam ninguém confortável.
O suprimento de alimentos começou a escassear em algumas áreas
aumentando o desespero. Uma multidão saqueou um comboio de caminhões com pães que entrava em Izmit.
"Quando eles virão nos ajudar? Quando estivermos todos mortos?", gritava Zeyfettin Kus em frente de um prédio desmoronado em Izmit onde três vizinhos estavam soterrados. Ele havia parado de ouvir gritos de socorro.
Moradores de Izmit reclamaram diretamente com o primeiro-ministro Bulent Ecevit, enquanto ele visitava a cidade. A resposta de Ecevit não era o que eles esperavam ouvir. "Estamos fazendo o melhor que podemos", disse ele. "Existem centenas de lugares esperando para serem limpos".
O jornal Radikal criticou as autoridades numa grande manchete: "O resgate é puro fiasco".
Em meio a tanta calamidade e lágrimas, alguns momentos de alegria.
Um motorista de táxi, Naci Yilmaz, disse ter ouvido um fraco choro sob escombros na cidade de Adapazari, cerca de 150 km ao sul de Istambul. Ele cavou por quatro horas até alcançar uma menina de 12 dias cujos pais haviam morrido. O bebê, que tinha apenas um pequeno corte na cabeça, foi entregue à avó.
O pior terremoto da história da Turquia matou cerca de 33.000 pessoas na província oriental de Erzincan em 1939.

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