O relatório elaborado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público do Paraná, divulgado nesta quinta-feira (17), registrou um aumento de 18,9% do número de morte de civis durante confrontos com as forças policiais em 2018 em comparação com o ano anterior. O levantamento indica que 327 pessoas morreram no ano passado, enquanto em 2017 foram registradas 275 mortes. Na estatística, Londrina fica em segundo lugar no Estado, com 23 mortes, sendo 22 envolvendo a Polícia Militar e uma consequente da ação da Guarda Municipal - quando o jovem Matheus Evangelista, 18, foi morto em março de 2018. "O controle feito pelo Ministério Público do Estado é o primeiro passo para a garantia de que nenhuma morte ocorrida em confronto fique sem investigação e, na eventualidade de uma execução, os responsáveis sejam punidos", afirmou o procurador de Justiça, Leonir Batisti, coordenador estadual do Gaeco.

O combate ao crescente número de mortes causadas em confrontos com forças de segurança depende de um conjunto de ações que se iniciam no preparo dos agentes. Segundo Batisti, os policiais devem ter convicção de agir somente quando forem defender a própria vida e a de terceiros. "O abrandamento deste conceito é um eco de que a sociedade pensa que 'se é bandido, tem que morrer'. Imagino que isso reflita no inconsciente dos policiais e essa ideia precisa ser combatida nos treinamentos", afirmou o procurador. Ele prega a criação de um sistema jurídico mais efetivo, capaz de desestimular os infratores a voltar a cometer novos crimes e dar suporte social às famílias de quem é preso. "Mas isso tudo é um caminho longo e caro", admitiu.

As 327 mortes foram registradas em 85 cidades paranaenses ao longo do ano passado. Ao todo foram 253 ocorrências policiais, o que significa que em diversas ocasiões mais de uma pessoa acabou sendo morta. O maior número de casos foi registrado em Curitiba, 76 mortos, sendo 73 provocadas por ações da PM e três pela Polícia Civil. O perfil das vítimas é formado majoritariamente por negros ou pardos - 177 mortos, contra 135 brancos, e predominantemente na faixa etária dos 18 aos 29 anos. Na região de Londrina também chama a atenção o município de Cambé, com sete mortes em confrontos com policiais, o mesmo número registrado em Maringá, Pinhais e Piraquara.

O Gaeco pretende incluir nos próximos levantamentos a identificação dos batalhões e das unidades a qual pertencem os policiais envolvidos em ações com mortes e se participaram de mais de uma ocorrência do tipo. A estatística permitirá traçar o perfil relativo aos índices de violência das áreas em que estes oficiais atuam. O controle estatístico das mortes em confrontos policiais faz parte de estratégia de atuação do Ministério Público estadual com o objetivo de contribuir para diminuir a letalidade nas abordagens. As iniciativas do Ministério Público já foram discutidas com representantes da Secretaria de Estado da Segurança Pública, da Polícia Civil e da Polícia Militar.

Imagem ilustrativa da imagem Número de mortes em confronto com a polícia aumenta no PR



Por meio de nota, a assessoria da Polícia Civil do Paraná afirmou que recebe treinamento constante de técnicas operacionais para minimizar o número de feridos em suas operações e que mesmo com toda a capacitação, situações de enfrentamento são inerentes à atividade policial em todo o mundo. Mesmo assim, "trabalha constantemente para que as mortes em decorrência de confronto não ocorram", informou. A instituição ainda reforça que os casos são investigados. "Diante de alguma irregularidade, os envolvidos são punidos criminal e administrativamente. Os policiais civis envolvidos têm acesso a apoio psicológico especializado", concluiu a nota.

O Comando da Polícia Militar do Paraná também se pronunciou através de nota reafirmando seu trabalho pela preservação da vida e dos direitos humanos, tanto da população como dos profissionais de segurança pública. No texto ainda afirmou que "qualquer ação de integrantes da corporação durante o cumprimento do dever, seja no âmbito preventivo ou repressivo, é amparada dentro dos limites da lei, observando o princípio da proporcionalidade e visando a proteção". A PM ainda garante que obedece a protocolos internacionais, reconhecidos pelo Governo Federal Brasileiro, os quais versam sobre o emprego da força policial.

Com um caso registrado na estatística do Gaeco, a Guarda Municipal de Londrina modificou parte de seus procedimentos internos para evitar novos incidentes. Segundo o secretário municipal de Defesa Social, Evaristo Kuceki, o acompanhamento psicológico ficou mais rigoroso para os 325 agentes. "Antes aceitávamos testes psicotécnicos feitos com profissionais credenciados pela Polícia Federal, mas agora só a nossa psicóloga faz essa avaliação", explicou Kuceki. Outra medida foi aumentar o tempo de atividades na academia da Guarda e oferecer novos cursos de formação. "No ano passado fizemos um treinamento de relacionamento social para os gestores, mas este ano a capacitação será oferecido para todos", adiantou o secretário.

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